quarta-feira, 1 de junho de 2011

Há Canções e Há Momentos

Nessa cidade todo mundo é d'Oxum. 
Eu sou.


Momentos
Eu sei da impossibilidade de fazer do afeto uma coisa material. Se ele, querer bem, sequer pode ser dito completamente, que dirá cristalizado em coisas que mal conseguem se evadir da lógica do consumo. Mas tentamos, porque a nossa seara, dizia Lispector, é a das palavras discursivas e, acrescento eu, da materialidade do mundo vivido. Assim, sigo expressando de forma inferior o que me anima, em abraços, cartas, bombons, livros, discos, tudo isso vãos indícios do sentir. E, também assim, reconhecendo o que não está todo na matéria, sigo me alegrando quando o bem querer chega em coisinhas (inha como carinho e não como definição de tamanho, massa ou importância). É, o carteiro estranha, porque recebo umas coisas e me ponho a saltitar, menina de novo, feliz com aquele laço azul de que falo sempre. Põe brilho no olho. Foi assim quando chegou o livro que a Amanda encomendou desde lá da França e ele pousou, morno e cálido, na mão. A metafísica dos Tubos, eu a descobri e aprendi porque Amanda tem um coração generoso.  E veio Fernando Pessoa, em dvd, pra me apresentar Lisboa. Foi Teresa, que algumas vezes vem fazer brilhar esse espaço, quem fez a alegria nesse dia. São muitos e tantos exemplos, o livro da Lilian que a Rita gentilmente enviou. A lembrancinha de recém-nascida da Sofia, que atravessou o oceano porque minha amiga Hertenha assim o quis lá da distante Holanda. As cartas que a Dani e o Rafa e a Lu Guedes me escreveram (mesmo as que não chegaram) e que me fazem companhia em horas de cinza no olhar. O livro que a Joana mesmo escreveu e que me enviou com tanto afeto. E, ontem, chegou o filme que o Sérgio me mandou. Elvira Madigan. Um filme assim descrito: "sua beleza forte, escandalosamente colorida, solar" e que chega em minhas mãos só pode ser um mimo a ser festejado. 

Sinto-me grata. Um sentir morno, de colo ou de praia de manhã cedo, deixa disposição na alma. Obrigada, obrigada, obrigada. Eu nem sei dizer toda a gratidão que sinto por este espaço ter se tornado ponte. Entre eu e você que lê, que deixa seu afeto em letras que é, também, uma tentativa de dar forma ao que se sente. Tanta gente especial que me chegou por aqui, de forma direta ou indireta, gente como a Thayz, a Cecília, a Barbie Lopes, Iara, a Bárbara Manoela, a Cláudia, a Renata Lima, a Srta. Bia, a Marília, gente que se faz presente todo dia e que se eu não troco uma palavra, um cutucão, uma idéia é como se não houvesse temperado a comida. Gente como a "turminha do melville" (Iara está em todas, né) de quem preciso. Gente que eu não preciso nomear porque se sabe no gtalk, no msn ou simplesmente ali, onde não há mais nada só o querer bem.

É tão mais fácil amar, tão mais gostoso querer bem. Obrigada por sempre me lembrarem isso: os comentários são como afagos. Ou abraços.


Canções

Tem música que eu preciso ouvir bem alto. Que me cutuca por dentro. Que joga sal nas feridas que eu nem sabia que tinha. Que me comove sem eu saber porque, já que me levam onde nunca estive e por onde jamais senti. Elas ardem. E o Belchior tem um jeitinho especial de compô-las. Eu sei lá o que me dá quando escuto: "cada um guarda mais o seu segredo, a sua mão fechada, a sua boca aberta, o seu peito deserto, a sua mão parada, lacrada, selada, molhada de medo". É muita dor, muita. E liberdade, sabe? Como se tudo rompesse, dique esfacelado, invasão, inundação de sentir. Tudo, tudo, tudo em nervos expostos. Ou quando toca: "calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado lá no campo ainda era flor" e eu sei lá o que é que essa imagem tão doce faz em mim que logo me dá uma nostalgia das felicidades que nem tive. E, ainda: "mas quando o canto for tão natural como o ato de amar, como andar, respirar, dar vez e voz dos sentidos, Virgem maria - dama do meu cabaré, quero gozar". São todas terríveis. Absurdamente feliz, aqui.

E a que me diz toda, inteira, intensa e, ao mesmo tempo ,a que nunca foi.  Qual a canção que te desnuda? Que chega antes da compreensão, chega em sons e arranjos...

17 comentários:

Luana disse...

Ahhh.. Belchior! Sempre!

A cancão que me desnuda eh: "sei que assim falando pensas que esse desespero eh moda em 63 (2011 e para sempre), mas ando mesmo descontente, desesperadamente eu grito em Português (grito mesmo, aqui na Bélgica ninguém me entende). Tenho 25 (30, na verdade) anos de sonho e de sangue e de América do Sul, por forca desse destino um tango Argentino me vai bem melhor que o Blues (ahhh.. minhas raízes! Minha América!)"

Bárbara Lopes disse...


Presentemente, eu posso me considerar um sujeito de sorte.

Suely disse...

Delícia ler o que você escreve. Sensação de aconchego no peito, carinho na cabeça, massagem nos pés. Bom e relaxa. Beijos.

Mari Biddle disse...

Cadê botão curtir?

(2)

Beijos, sua bonitona !

Danielle Martins disse...

Esperando a resposta da última carta...
Bjs!

Caso me esqueçam disse...

essa amanda eh uma looooouca!

ja ja posto no tt pra tu entender hahahaha

Long Haired Lady disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Long Haired Lady disse...

presentinhos e mimos nunca são demais!

a música sempre esteve presente em minha vida, tenho fases, estou numa fase de cantoras, e chet baker…

mas tem uma musica que me acompanha sempre, nem sei o porquê, que é Let it be, nos bons e nos maus momentos...

Menina no Sotão disse...

É tão complicado. Acho que já disse isso, mas é complicado mesmo porque eu tenho fases.
Há canções que simplesmente me invadem, desde a introdução até a última nota "e va / questo amore / come fa la musica / fermi il tempo e fermi le parole"... Ou então "altre cose di Lei: in un libro una foglia ed un pensiero d´addio, in un bligietto che dice, rivolto a me: "Eri l´amore mio"... E tem algumas brasileiras que atropelam meu sentir "dentro do carro sobre o trevo a cem por hora, ó meu amor só tens agora os carinho do motor" e um certo Tom Jobim que parece acariciar minha pele com suas notas "vou te contar os meus já podem ver coisas que só um coração pode entender"... E por aí vai. melhor parar ou fico aqui a tarde inteira. rs

bacio

Amanda disse...

Borbô, é que eu gosto de compartilhar as coisas que gosto. Parece que tem duas colunas: uma com os amigos e outra com livros que eu ja li e que é a cara de um amigo, dai eu fico ligando uma à outra e foi por isso que o Metafisica dos tubos foi parar na sua mão e o Maus na mão da Luci!

por Hope* disse...

Ahhh, chico, Caetano e marisa, sempre me alcançam, a onde eu estiver, ou melhor, eles me transportam e destroem a regra, lógica, tempo espaço...
Bjoo!

Lílian disse...

Ai, gostei tanto desse post... Para mim, um dos melhores dos últimos tempos. E nem foi por causa do livrinho, pode acreditar! Foi por causa dos cantos, mesmo. E de tudo de bom que suas linhas me fizeram lembrar.

Bju, Lu.

LOVE,
LI.

Palavras Vagabundas disse...

Chico Buarque sempre! Tom Jobim quase sempre e em alguns dias Lupiscínio Rodrigues.
bjs
Jussara

Rita disse...

Presente é esse blog em nossas vidas, viu.

bj
rita

Dona Lô disse...

"O Mundo é um Moinho". Me despe, me expõe, me descreve...

Glória Maria Vieira disse...

Ai, Luh! São "n" as canções, mas vou citar uma que tenho escutado muito nesses últimos dias. Uma que amo como tantas outras, mas que tem dito muito de mim...

"Será que é difícil entender?
Porque eu ainda insisto em nós
Será que é difícil entender?
Vem andar comigo"

Ah Jota Quest! ~suspiro~

Iara disse...

Ai, sua linda. Sorte a minha de estar contigo em dois grupos diferentes, né? Faz a vida ficar melhor um tanto. =D

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