terça-feira, 7 de junho de 2011

Doces Bárbaros #6: A ciência da abelha


Começa junho com seu gosto de festa no interior e a Lu pergunta o que é peba. “Peba é um tatu, e a gente caça ele pra comer. E com pimenta fica mais gostoso”. O outro sentido eu só posso adivinhar, mas pelas risadas da platéia, bem...



Daí que estou há três dias cantarolando João do Vale. Na verdade, estou há mais de trinta anos cantarolando (um dia, quem sabe, aprenderei a cantar e deixarei de cantarolar). Na minha cosmogonia particular, está lá João. O mito é o seguinte: meu aniversário. De quantos anos? Dois não pode ser, pois no meu segundo aniversário minha mãe chegava da maternidade com minha irmã. No terceiro aniversário, já não estávamos no mesmo apartamento. Só pode ser de um ano. (Todas as vezes que a história é contada, é preciso fazer esse cálculo.) Então, meu aniversário de um ano, no apartamento da praça Roosevelt. Meus pais chamaram João do Vale, de quem tinha ficado amigos nas turmas de artistas e intelectuais dos botecos do centro de São Paulo. Quando João chegou, meu pai o apresentou para mim e explicou: “ele que fez aquela música ‘Pisa na Fulô’”. Eu de pé, apoiada na grade do berço, bati os pezinhos e cantarolei “pisa fulô, pisa fulô”.




Meus pais também contam que João, analfabeto, por vezes tinha uma inspiração no meio da noite e pedia para o mais próximo companheiro de copo que anotasse alguma coisa. Nem sempre esse companheiro era honesto; já houve quem levasse a anotação embora, para João se lembrar dela ao ouvir no rádio. Aliás, ele já ouvia algumas de suas músicas no rádio, gravadas por outras vozes, enquanto ainda trabalhava na construção civil. Ele comentaria com um colega pedreiro, que riria de sua pretensão: “até parece que você que fez essa música”. Quem o ajudou muito foi José Sarney. Na música “Minha História”, João lembra quando vendia doces na porta de uma escola no Maranhão. Sarney era um dos alunos. Mais tarde, lhe arrumou dinheiro quando João precisava.

A última vez que minha mãe viu João do Vale foi quando ela estava grávida do meu irmão. Ele brincou: “agora desandou a parir e não para mais”. João morreu em 1996 e tem um documentário bacana contando sua vida. Mas falta alguma coisa. Minha vida.



 Bárbara Lopes, não gosta de doces, é paulista, jornalista, prefere calor (talvez porque toma chopp), ama gatos, e escreve no Blogueiras Feministas e no Feministas na CozinhaA cada semana residente aqui, uma característica a mais na apresentação. Vamos brincar de prazer em conhecer

Um comentário:

Long Haired Lady disse...

esse disco dele é lindo!

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