sexta-feira, 27 de maio de 2011

Meme. Mari. Mimimi. Miniconto.

 Meme From Mari
Eu estava pensando que ela não me lia mais. Falta de tempo, de saco, de interesse. Qualquer uma destas hipóteses em nada diminuiria meu querer bem. Mas daí no meio do mimimi (meu e dela) descobri que não, que ela lê, só não deixa umas palavras na caixinha de comentário. Daí que refiz o meme dos livros pra ela, só pra ela. Bora, Mari, bota o Corpo Indisciplinado pra funcionar e responde...

Livro pra ralar o pulso no asfalto:
Livro Amor Eterno:
Livro Todo Mundo Gostou e Eu Também:
Livro Todo Mundo Gostou e Eu Não:
Livro Cheiro de Infância:
Livro Levo Pra Ilha Deserta:
Livro Nunca te Li, Sempre Te Amei:
Livro que amo e nunca está comigo: 
Livro Um Dia Eu Consigo:
Livro chic que tinha medo de não entender mas amei:
Livro pra levar pra praia:
Livro Esse Eu Recomendo Demais:
Livro Palavras Pra Dizer Meu Desejo:
Livro Nem Por Muito Dinheiro Eu Encaro de Novo:
Livro Melhor Início:
Livro Melhor The End:


Gostoso


Sabe o que é gostoso? O primeiro gole de cerveja gelada. Andar descalço no cimento frio. Deixar o relógio seguir sozinho e perder a noção do tempo. Acordar encostado no outro. É ganhar uma canção. Ouvir a zoadinha do mar. Dormir de rede. Cheiro de chuva. Massagem no pé. Dançar numa sala de reboco. Beijo roubado. Gostoso é não sonhar futuros e desejar em amanhãs. Gostoso é conhecer alguém que faz você pensar. E sentir. E, claro, gostoso é desdizer o que se disse. Tomar emprestado palavras alheias* e ver que couberam direitinho. Como neste texto de hoje...


Sísifo

A verdadeira natureza do ser é a angústia. O copo de uísque faz um arco imaginário dispensando réplicas. Só angústia, repete. Sua displicência, claro, é um engodo, seus olhos borrados de esperança espreitam na espera do interesse dele, que nada diz e, no contraponto de seu arco, acena, sério, para o bigodudo com ares de Groucho que reclama dos preços de um artigo qualquer. A verdadeira natureza do ser é a espera, ela pensa, e dá uma risada alta pra disfarçar o embaraço. Gostaria mesmo era de dançar. O corpo pede o dele em sussurros que ela insiste em abafar em uísque e melancólicas frases de efeito. Efeito? Nenhum, ele continua em debates, indiferente à música, ao corpo, ao copo que ela tilinta, insistente. Passa o peso do corpo de um pé ao outro, as sandálias muito altas e de tiras finas lembrando-lhe que um corpo sofre. Ela se distrai, por um instante, imaginando-se ali, contida e bem vestida, com suas sandálias tão altas e suas máximas tão tristes. Logo ela, que adora uma lagosta chamada Sebastião e costuma gargalhar com a alma. Mas é que. Ele. Ela tem fome dele. Das suas mãos, da sua língua, do seu olho, da sua voz e do seu dito. O que é mesmo que ele diz? Ah, a limitação das coisas explicáveis. E volta-se, ele e toda a trupe que o escuta e que a impedem de recostar-se em seu ombro como gostaria e de fazer uma piada sobre as sandálias que ele insistiu para que ela não usasse. As coisas explicáveis, ele argumenta, são pequenas prisões de nossa humanidade. Vejam e ele aponta a linda reprodução de William Blake. Ela já sabe o que virá, ela tinha isso: adivinhava-lhe o dizer porque não conseguia antecipar os desejos. 



Ele segue: o Isaac Newton é um representante da razão pura. E, com o copo, faz um arco imaginário que, em suas mãos seguras, fica gesto preciso. Todos acenam, não haverá réplicas. Ele tem aquele corpo todo robusto – e os olhos todos esfomeados se voltam ao corpo que sim, é o de Isaac como se fosse o dele, só ela ignora o quadro e enxerga o mundo na sua íris. Um corpo bonito, de cabelos luxuriosamente encaracolados, ele diz, ele ainda usa palavras como luxuriosamente e é levado a sério. Ela quase ri. Quase. Mas não o faz, porque quando ela ri rompem-se pontes. Ele não sabe chegar até ela e se exaspera. Porque ela é o que escapa. Mesmo quando se dá a prender. Como hoje, ela pensa, presa ao salto alto, ao gelo demais no uísque, aos olhos dele. Entregue, ela quer ceder porque são tantos os dias em que resiste. Ela quer dar-se. Mas ele, de tanto procurá-la, já não sabe ver quando ela está. Pois o Isaac Newton, e aqueles todos acenam, está sentado em meio a um mundo de cores e brilhos, mas está cego a isso, curvado ante um mero papelzinho e seu compasso. É isso, ela agora morde o lábio pra não deixar escapar, estamos todos, é sempre luz e cor, mesmo em neblinas, é isso que o mundo é: paleta. E ainda sobre o Isaac, prossegue, ele, mas bem podia ser ela que o sabe no que ele ainda dirá, está ele curvado de forma tão antianatômica, preso às coisas explicáveis. É esse o sem sabor do mundo, a impotência de senti-lo porque estamos a explicá-lo. E cala-se. Os murmúrios de assentimento são como o aplauso que não é de bom tom em reuniões como aquela. Aos poucos os tantos se desligam dele, voltam-se à mesquinhez das bebidas e dos cochichos de salão, sem se aperceberem que ele deu-se inteiro no seu dito e que agora estava nu. Ela, embaraçada por todos que já não o vêem quando o nu é que precisa ser visto, volta-se para o quadro para lá o encontrar. Sim, é como ele disse, tão pouco confortável e tão cego a tudo que se devia ver. Mas, ela sabe em assomos de ternura e inquietude por não poder gritar, que só se pode gozar do que se pode dizer, embora não se possa dizer tudo do que se gozou. E é por isso, suspeita, que o homemzinho de corpo forte e luxuriosos caracóis agarra-se ao compasso como se letra ele fosse. Pra escrever uma história do mundo a fim de gozá-lo. Pra ter um limite. É um esforço que faz colocar-se no entroncamento; por um lado, deter-se na escrita do mundo é reconstruir e negar a finitude, por outro é precária trama simbólica que só aponta a tentativa vã de suturar o vazio e indica o que não se aproveita do instante já. E, ainda assim, em pequenos papelotes e desenhos retos e angulares, a teimosia de não se morrer. Mas não há garantias. A linguagem chega sempre cedo ou tarde demais, quando o objeto não está, esfomeada, já que nasceu da perda e nada tem que lhe pertença. A linguagem tudo incorpora, o corpo e mais que ele, mas não esgota, porque não é o que incorporou. E daí a fragilidade que se suspeita no pobre homem encurvado. Todo dia e a cada linha, insiste na vida aproximando-se da morte. E tendo que dizê-la, pra melhor gozá-la. Em cálculos, a linguagem que ele escolhe pra ser a representação da representação do mundo gozado é o número. Em seus ridículos papéis reconhece toda falta: de tempo, de corpo, de ser. E vai negando, em cada traço, o vazio. A verdadeira natureza do ser é a angústia, ela repete, agora tão baixo que não seria pra ouvir e não há desenho de arcos. Ainda assim, ele a advinha e segue seu olhar. Voltam-se, os dois, para o quadro. Ali, onde ele vê Isaac, ela sabe: em impossível empreitada, é Sísifo.
*o que está em itálico são palavras alheias, mas foram liberadas para meu uso.

11 comentários:

Glória Maria Vieira disse...

Quando ela ri, rompe-se as pontes, mas quando você escreve, Dona Luh...

"Ela quer dar-se. Mas ele, de tanto procurá-la, já não sabe ver quando ela está."

LIIIIIIIIIIIIIIIIIIIINDO DEMAIS... Ai!:~

Dona Mila disse...

Me dei conta que, atualmente, seu blog é o único livro que estou lendo. :)

Saudades, Borbô. Chega logo, setembro.

Long Haired Lady disse...

pontes existem para que as atravessemos não?

é certo que sempre nos repetimos?

eita, duas perguntas! rsrsrs

Rita disse...

;-)

Lica disse...

Menina, quanto de inspiração e quanto de transpiração?

Mari Biddle disse...

Depois de mimimizar e ameaçar a Lu, eu conseguiiiiiiiiiii!

Farei minha listinha de Sabrina, Júlia e Bianca, tsá! É um aprendizado, cara amiga, nunca ignorar uma canceriana rancorosa.

Posso fotografar os livros para responder a lista?

A preguiça bateu!

=D

Peterson Quadros disse...

Luciana,
Gostoso mesmo é ler um texto seu e descobrir que faz tempo que, por exemplo, não ando descalço no cimento gelado. Bom, a história passou longe do meu entender, fiquei com o sentir e com os movimentos da menina com o copo de uísque. Graciosos os arcos. A verdadeira natureza do ser: A angústia? A espera? Ambas?
No finzinho vem a linguagem, que tudo incorpora... Bom, aqui são quase duas e meia, vou imprimir e ler novamente na cama... Obrigado pelo texto!!!

Danielle Martins disse...

Quantas coisas gostosas a vida nos dá... aproveita, amiga!
Beijinhos com sabor de sonhos!

Dona Lô disse...

Que coisa gostosa ter essa fome dele...
Esses textos me hipnotizam, Lu. Amo muito.

Atitude do pensar disse...

Hoje estou precisando reaprender o que é gostoso, pois ele - meu coração -, e eu vivemos nesse empasse de desesperança e desejos.

Lu disse...

Eu sempre acho que a gente deveria se apaixonar duas ou três vezes, até mais vezes ao dia. Porque o nosso corpo quando se apaixona simplesmente se faz avesso e se expõe sem preocupações. E quando tudo passa, a gente se olha no espelho e fica rindo inconformada com o que fizemos, pensamos e desmorona por fora. O corpo se recusa a tudo aquilo e jura não farei de novo até que a paixão se estabelece como sopro sobre uma mesa cheia de papéis.
Tudo tão agradável, os cheiros, as paisagens, a pele do outro. A ilusão do outro. Os defeitos são menores, mas são os mesmos. Quem se importa? Tudo é lindo, colorido e os dias de chuva nos fazem sorrir...
Acho que preciso ir ali me apaixonar, volto mais tarde. rs

bacio

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