sexta-feira, 6 de maio de 2011

Essa Menina Que Um Dia Fui

Estava flanando nos blogs que me comovem e ensinam e vi esse post no 2+2 são 5. Nos comentários a Menina no Sótão avisou que talvez roubasse o nome do post. Eu logo quis também. Lembram d 'O Silêncio dos Inocentes? A gente cobiça o que vê? pois é. Pensei em roubar a imagem no embalo, mas quando o texto veio, sugeriu-me outra coisa: não o avanço, seguro e intuitivo, presente no belo post da amiga, mas a aceitação narcísica necessária da figura aí embaixo.

A Menina Que Um Dia Fui

A menina que um dia fui, é. Ela ainda espreita por entre as folhagens secas dos olhos, ainda usa a boca pra saber cores e texturas, ainda acorda com remela no olho e sonha em ficar velhinha igual bebê: penugem na cabeça e bem banguela. 

Mas a menina que um dia fui também já foi e é em reflexos nos espelhos que ela deixou pra trás que, às vezes, a lamento. A menina que um dia fui fugiu de casa com três anos de idade, duas calcinhas na sacola e um sonho na cabeça: ser livre. A menina que um dia sou já não mora mais lá, aprendeu a ficar sem roupa mas manteve o sonho, pra não perder todas as memórias... Agora, mais vivida, a liberdade passeia por todo o corpo. 

A menina que um dia fui ria alto, desenhava mal e sonhava em usar chapéu. Não deixou nada pra trás, essa menina. Não levou nada com ela. A não ser, claro, essa angústia de querer e o hábito de se saber mais quando se sabe menina.

A Menina Que Um Dia Fui II

Não era mais uma mulher com seus amantes: era uma menina com seu livro. 
(se a Clarice não se zangar)



A Menina Que Um Dia Serei

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?



Cecília Meireles
Por causa do  saboroso amigo Fred Caju 

9 comentários:

Atitude do pensar disse...

Ai, Lu. Essa imagem é tão você. Esses sapatos vermelho, pequena menina, Dorothy.
A menina aqui permanece, as vezes, teima em se fastar, mas ao ouvir a voz fraca e frágil do que se torna sem ela, volta rapidamente.

Fred Caju disse...

A Clarice não se zangaria, mas acho que a Cecília sim, nenhuma referência a ela...

cindy disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Long Haired Lady disse...

Todas as vezes que falo sobre a menina que fui, ou que ainda é, lembro da musica do Paul Simon:

Sail on Silver Girl,
Sail on by
Your time has come to shine
All your dreams are on their way

e se os sonhos ainda estão a camino, ainda temos tempo pra brincar!

Belos e Malvados disse...

A menina que você foi continua viva na mulher que você é. Resta dúvida?

Peterson Quadros disse...

A menina que um dia você foi... Escrita de próprio punho me levou a uma encantadora (brincava descalça, tomava banho de chuva...), perigosa (atirava no coração) e madrugadora (3 da manhã?????—sem comentários adicionais) garotinha.
Bom, aquela que és ou que serás “deixasse” com “Clarice” e Cecília(?) Quero entender !!!!
Abraços e uma linda sexta...

Danielle Martins disse...

Bela vocÊ tem razão!
Te adoro menina Lú!

Menina no Sotão disse...

Gente, eu lembrei da cara da Clarice do Silencio dos Inocentes ao final do filme quando o Dr. Lecter liga. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Adorei, mas o meu post só sai na próxima semana, hoje a melancolia tomou conta da minha alma e já viu?
Enfim, só deu pra arrancar a página do diário das estações.
Li que você está na esepra do mês de maio acabar e eu aqui contando os dias, um a um. Como faz? rs
bacio

Nina disse...

Sem palavras. Tudo tao lindo. Perfeito. Ainda existem blogs bonitos, ai que alívio :-)

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