Um dia são todas e tantas palavras.
No outro, este não, feito despenhadeiro.
E se não fosse. Não fosse isso, não fosse agora, não fosse tanto. Mas é. Ou sou. Sou eu e meu elefante e esta festa sua para a qual não tenho convite. Um elefante incomoda muita gente. Do tamanho que for. Do tamanho que eu sou. Se não queres, tem quem queira, dizia-se e dava-se língua e pronto, meninice satisfeita. Mas já não é assim, eu já sei que não importa se tem quem queira e sim quando o querer nos atravessa. E mais, aprendi ainda, a custa de convites dados e recebidos, que mostrar a língua era o esforço último de seduzir, de provocar, de convocar. Olha, veja, venha. E você diz que vem, sua língua antes da minha, mas não há atalhos entre seu território e o meu. E eu tenho meu elefante, sabe.
Mas o que eu quero mesmo é aprender a andar pé ante pé, não sorver a vida em grandes goles nem contar as horas pra trás.
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| Imagem Lindinha Daqui |
Eu cozinho, não sei se bem - e não é esta a minha medida. Mas, eu dizia, eu cozinho. Como um treino. Na cozinha, é preciso deixar o tempo se saber sabor. Já se antecipa, claro, desde o antes, o que se há pra saber. Azeite, alho, cebola, manjericão, tomates, torna-se-ão aquele pastoso sabor conforto no céu da boca. Mas o saber não se faz gosto, é o fazer que sim. Então, aprendo. Aprendo a esperar. E a aceitar que há prazeres no que não está, ainda: há o cheiro de futuro e o calor. Faço, da minha cozinha, praça. E te espero em tardes de outonos que desconheço. Sou essa: avental vermelho e colher de pau no lugar de rosas.
Mas o que eu quero mesmo é refazer mapas e trazer teu desejo pra fazer fronteira com o meu.
E aí foi o beijo. Para ela, o fim, para ele, o começo. Para ambos: o começo do fim. Fim do desconhecimento. Fim da noite. Fim dos tempos. Ela pensava o que não sentia, ele só sentia sem pensar. O beijo sem gosto e sem charme. O beijo do medo. Um beijo que não foi bom. Dentes em choque e olhos abertos. Que havia, naquele beijo sem sabor, para prendê-los? Havia um e havia o outro. E eles ainda tinham que se haver com isso de serem um para o outro. Eles fingiam que não queriam nem este querer-se, mas se queriam de tal modo que feria. Ou se feriam, tanto faz. O certo é que doía. Até que, o beijo. E se o mundo não passou a ser outro, eles passaram, e começou a história.
Mas o que eu quero mesmo é esquecer minha mão na tua.
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Mas eu quero mesmo é dizer interface e ouvir teu sorrir.
Eu mudei. Porque eu sou assim: água. Tem coisas que repito, mas nunca pelas mesmas razões. Há coisas que me repetem, geralmente pelas mesmas razões. Por exemplo. Eu sou a que não tem medos. Eu sou a que se reinventa. Eu sou a que lateja. Eu sou a que alucina. Eu sou a que se joga. Há abismos? Quero. Eu sou. Eu sei. Eu sou a que não tem medos, repito enquanto o animal voraz no meu ventre se espreguiça em alerta. Eu sei. Eu me lembro do tempo em que meus desejos eram coragens. Eu perguntava porque você não chegava logo. E você não chegou então não mais esperei. Saí girando em brancos vestidos. Esbarrei não em você mas em suas sombras. Como se eu pudesse te saber sem teu cheiro, tua pele, teu timbre pela manhã no recém despertar. E, no entanto, apesar dos giros me deixarem um pouco tonta, parece que posso. Supresa. Meio de lado, você. De perfil é que te sei. Sei das tuas mãos que escrevem que tocariam um corpo e quase é o meu. Sei das tuas idéias provocativas que quase são meu riso. Sei do teu próprio riso que ouvi em espantos de querer de novo. Você chegou com este corpo sem mapa me convidando à exploração. Será, eu me perguntava em ansiedades. Você já reparou como há tantos futuros nos olhos que se fecham em expectativas? Eu me jogo, outra vez. Procuro teu abismo. Corro, leve, em direção aos teus vazios. Todas as borboletas que já fui ou serei em oferenda. Recitando Vinícius e desejando pouso. Morar-te até morrer-te. De amor e em um corpo. O teu.






9 comentários:
que borboleta inspirada!
eu também tenho problemas com a impulsividade mas aprendi com o "tempo" a parar um pouco e sentir os sabores.
muitas vezes já me peguei pulando paginas de livros para ver um final antecipado e assim conseguir saborear a leitura…mas com a vida real isso ainda não é possivel, né? rs
É por isso que sua visita sempre é especial.
Bj
quando abri teu blog hoje pra ler, percebi o telefone vermelho e me perguntei por que tu tinha escolhido ele pra colocar ali. depois me perguntei pela cor do blog, por que teus blogs sao vermelhos e... essa virou uma cor tua, uma caracteristica da borboleta: sorridente, poeta e vermelha! ja pensou se eu lesse esse blog pelo greader? sem graça...
"Eu me lembro do tempo em que meus desejos eram coragens." essa doeu. cataplof, amiiiiiga!
Nossa, o seu blog é um que precisa ser lido aqui. Ele é um conjuntão bom e essa vermelhidão toda dá força pros textos - não que eles precisem, claro está - e fica tudo assim vibrante como você. Leio aqui.
Beijo
Rita
O esforço último de seduzir sempre foi a atitude mais desesperada. E os elefantes, grandes ou pequenos, você não falou da cor deles. Se isso importar, é claro... A cozinha é um lugar de respeito ou aceitação do tempo e, confesso que, é preferível uma refeição remexida com colher de pau do que com rosas, nesse sentido, o talher assume uma posição muito mais romântica e delicada. E o(s) beijo(s) começo e fim de história(s). Louco foi o salto que você me fez dar... Dos beijos verdadeiros a um mundo onde eles jamais conseguirão ser reais. E no fim, do post, a Borboleta tentando novamente o impossível dizer quem ela é! Esse será sempre um eterno exercício. Obrigado pelo texto e que a semana venha, do jeito que estamos dispostos a construí-la. Abraços
Lu, posso deixar os comentários sobre o texto para outros e apenas depara-me refletindo num eterno ir e vir absolvido pela imagem do buquê de borboletas?
Ele me diz sobre tantos sonhos e tantos eu sou...
Não sei o que dizer, só que gostei. Muito, eu e meu elefante.
Gostei de tudo, mas diverti-me principalmente com a sua relação com as redes sociais.
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