quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Menina Que Roubava Posts V - Modulações


Eu sempre gostei de conversar. Eu escuto muito. Eu falo muito. Tento manter isso por aqui, no espaço virtual. Acredito que as palavras tecem nós tão firmes quanto os que chegam dos esbarrões nas esquinas reais. Por aqui e ali, vou admirando as coragens. Coragem de escrever, se dizer, se pensar, ousar. Coragem de olhar no espelho. De quebrar espelhos. Papeando, vou “roubando posts” tornando minhas, não as palavras alheias - que não me servem, seriam como roupas largas em demasia ou apertadas demais - mas as idéias que me inquietam ou as belezas que me arrebatam. Já roubei o Zé, descaradamente. Na verdade, roubei duas vezes: essa e essa. Já roubei o Thiago, com irrestrita complacência do mesmo. E, hoje, roubo do Lucas que escreve no sempre pulsante Variações Sobre o Ritmo Alfa. Nelson Rodrigues diz que, na anatomia de um crime, o assassino importa muito pouco, quem realmente fala em um crime, quem tem história, é a vítima. Ela que se fez matar, pelo que disse ou fez ou pelo que não disse nem fez. Assim, de alma translúcida, posso dizer que a culpa é do Lucas. Foi ele que me fez gostar de suas letras. Foi ele que escreveu assim:

Eu ainda não conheci uma mulher que fosse como uma música, como uma boa música. Uma milonga do Ramil, por exemplo, é misteriosa, insinuante, obscura e um tanto inacessível quando a conhecemos. Na verdade, ela não nos desperta os instintos mais básicos e imediatos logo nas primeiras aproximações. Mas, se se tem a sorte ou a persistência de voltar a ela, é como revisitar uma miragem - ainda é ela, mas já é outra, ou nunca foi isso?  Continua aqui

E daí me deu vontade de brincar. De me colocar em outro lugar. Ou em todos os lugares. Ser digna de nota (pra fazer um infame trocadilho com o post).

Modulações
Eu ainda não conheci uma mulher que não fosse como uma música, como uma boa música. Porque elas há, como tantas as combinações de notas se podem fazer som.

Algumas músicas – ou mulheres? – são misteriosas, insinuantes, obscuras. Incessíveis, é o que parece antes do momento mágico em que as posso solfejar. São aquelas mulheres – ou canções – que arrebatam os órgãos do sentir. Como olhar o olhar de Liz Taylor e não se deixar afundar? Mas não é só naquele escuro cinema que elas ecoam, as obscuras. Estão em esquinas sombrias, estão em bares esfumaçados. Estão nestes lugares que as guardam em véus. Estão.

Há as discretas – canções e mulheres. Elas não costumam despertar, logo nas primeiras aproximações, onde mais básico se sente. São necessárias várias voltas na vitrola para que se dêem a conhecer em esplendor e alcance. São mulheres – ou músicas – que depois de desvendadas são sempre murmuradas. Alguns não as apreciam, queixam-se da simplicidade. Mas, se se tem a sorte ou a persistência de voltar a ela, é como avistar uma miragem – é a mesma? ou já é outra? Ou, ainda, nunca foi isso? E todas as respostas parecem corretas enquanto a melodia se faz carne em quem a aprecia.

Umas mulheres – ou músicas? – são, ainda, em crescente complexidade. Entregam-se. Esquivam-se. Quase se é capaz de cantarolá-las mas, em algum momento, ritmo ou letra se perdem. São reflexos - invertidos e vacilantes – de ilusões vívidas que ecoam no que ouve. São, sempre, sensação mais viva que carne.  A elas se volta, sempre, muitas vezes mais, com uma fome encantada de luz e sombra: a completa nitidez é mágica. E, ainda assim, nunca se chega. Não há encontro possível.

Há, mulheres e canções, que ganham sentido apenas quando tocadas, aquelas que se estabelecem na ação, que se espalham tão dentro, cravam raízes de companheira tão alegre, bonita e sólida. Canções e mulheres de verdades simples, vivas como uma frutífera mangueira, generosa em sabor e sombra.

Amar uma canção é como tocar uma mulher. De início, o encantamento. Nunca lhe basta. Tão arrebatador quanto efêmero, os nervos à flor da pele e a vontade de sabê-la toda, intervalos inclusos. Em um depois, depois que vem após várias audições, mas que parece tão agora, imediato, é pele perdendo a cor, a flor sem viço, casca dos dias e das noites iguais. Um esgotamento de ouvir. Já não se consegue sentir de tanto que já esteve. Teme-se que a canção – ou a mulher? – já nada signifique. O antes equilibrado arranjo já soa monótono. Previsível é quem a escuta, porque a quis tanto, mas parece sempre que é a mulher – ou a canção. Retorna-se a ela, ainda e sempre e muitas vezes mais. Mas não é possível trazer o ingênuo deslumbre da primeira audição de volta e ela mulher/som parece cada vez mais tristemente nítida, como se a beleza estivesse no que se esconde. E está. Já não há enlevo, divorciado o ouvido está de quem o chama. Aquelas tais, mulher e canção, acabam por desaparecerem em outra sequência de notas que chegarão, surpreendentes, inéditas, tocantes.

Isso se sucede com todas. Mesmo com as que guardamos em cassestes à caneta indicados. Com nostalgia escuta-se, mas não com amor. Tocam, não o corpo, mas a idéia do corpo. Foram-se. Vão-se todas: mulhermilonga, mulhersinfonia, mulher-quarteto-de-cordas, mulher-concerto, mulher-suíte, mulher-cantata. Vão-se as cançõesloiras, as cançõesmorenas e, mesmo as ruivascanções, intensas, também se vão ao fim de outono.

Mas. E isso é o que há de tão lindo. Mas. Todo dia essa fome de sereias, mítico anseio. Mas. Repito e é aqui que já sei os futuros. Mas. Mas e mais. A canção. Só uma. Ela. E aí o rapaz, menino, homem, esquece-se de ser semideus e já não escuta sereias. Porque, enfim, a canção. Ele tem seu samba. Sua mulher. E, ora vejam, é de uma nota só. E basta.

8 comentários:

Long Haired Lady disse...

eu estou mais para um punk rock, uma levada ligeira, cheia de distorções…rs

thiago beleza disse...

mulheres são como músicas... sempre adoçam meus ouvidos...

Peterson Quadros disse...

Querida Luciana
Os laços que as palavras formam são realmente mágicos e você com o Borboletas faz isso de uma maneira tão digna e bela, além do mais, me deste de presente tantos outros blogs que hoje fazem parte de minha vida. Mas, chegando ao post propriamente dito, esse desdobramento, essa comparação entre a mulher e a música, esse jogo que veio de um empréstimo e depois se assumiu Lu (Lu, nesse caso, a oitava nota musical, um compendio completo de todas as outras).
A mulher e a canção só ganham sentido quando tocadas – que lindo – Que homem não quer realmente amar/tocar uma mulher, do jeitinho que você descreveu?
E o final se fez poesia... Legal foi que, antes do jantar, deu para ouvir Nara Leão. Obrigado e abraços...

Mari Biddle disse...

Passei aqui para dizer que passei aqui, sua prolixa.

Também preciso desabafar que ninguém me passou o meme da lista de livros. Eu não sou canceriana, eu não guardo pouco mágoa.

Mas também, nem ligo! Não queria particpar mesmo...chuif!!!

Atitude do pensar disse...

Já disse que estar aqui é viciante? rsrs
Pluralista como sou, não me rotularia em apenas uma canção ou um estilo, mas algo me é claro, ainda permaneço procurando meu tom.
Aquele que quiser me acompanhar desbravará universos e infinitos de mim, assim como eu o estou descobrindo.
Um beijo

Lucas disse...

Puxa vida, se eu ainda tivesse dúvidas se meu post é bom, o teu eco me faz ter certeza de que, pelo menos, eu pude provocar uma elegantérrima réplica - e isso me basta. A mulher e a canção que só ganham sentido quando tocadas... esta é uma réplica que empalidece meu post. Nas tuas improvisações sobre o ritmo alheio tu te mostras mais brilhante que o original. Perfeito o fim no samba de uma nota só. Elegância é o nome deste teu post, borboleta, e elegância é propriedade fundamental do delibab que vislumbro no horizonte. Parabéns e obrigado por diálogo tão eufônico.

Rafa disse...

Música é tão essencial! E as mulheres? Bem elas são o que de maior afeto pode haver, descompromissadas com este orgulho machista de a tudo dominar e afeto, minha borboleta, é sutil beleza que tudo colore. Vivam vocês

Bj

Renata Lins disse...

Hahaha "sua prolixa" é maravihoso...! Eu morro de inveja... quem dera eu escrevesse assim a fio, como se puxasse e já saísse tudo pronto desse jeito lindão. Eu ralo nos textos, nega, ralo... mesmo os que escrevo de um jato são digeridos um tempão. Gestação de elefante...

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