quarta-feira, 18 de maio de 2011

Femme Fatale, Sombras do Gozo

O feminino sempre foi o obscuro da psicanálise. Freud inquietou-se a ponto de esbravejar: “o que quer a mulher?”, impossível resposta, afiançou Lacan, traduzindo a pergunta para um mais possível: O que quer uma mulher?
O feminino situa-se, psicanaliticamente, no limiar do gozo e não se traduz num dito. O feminino não tem registro. É a sombra. Uma incontornável oscilação, entre o culto à mulher como enigma e o ódio à mulher como mistificação. Ambas as posições apenas acentuam o desconhecimento da verdadeira questão: a feminilidade. Nessa perspectiva, não à toa é a sedução do feminino que emerge sempre como perigo e vertigem para os personagens dos filmes noir. A constante relação de atração e repulsão entre os protagonistas - geralmente detetive e uma mulher misteriosa – constitui uma das prementes características do gênero. E não é assim, sempre, a relação do neurótico com a possibilidade de gozo? Sente-se atraído por ele e o recusa, vislumbrando ali, no gozo, o mortal?

Os filmes noir dispensam apresentação. Retratos de sua época, apresentam um mundo de luz e sombra que dilui a moral maniqueísta - que dividia o mundo em bem e mal – em um jogo ambíguo em que a decadência, a desilusão e a incerteza são constituintes dos personagens. De forma reducionista, pode-se dizer que um típico filme noir apresenta uma série de particularidades: opera no cenário do submundo do crime; o (anti) herói é predominantemente um protagonista masculino que se vê envolvido com duas mulheres (ou com uma mulher que oscila entre os dois papéis, a mocinha inocente, devotada e leal e a femme fatal, ambígua, perigosa e excitante); o ambiente noir é predominantemente obscuro; o crime ou a ameaça dele são sempre presentes; o niilismo e pessimismo são intrínsecos a grande parte dos personagens; além disso, sob a influência do expressionismo alemão, o noir caracteriza-se tanto pelo uso particular da luz como, em termos narrativos, pela sofisticação e inovação no desenvolvimento dos enredos. Mais um pouco de clichês (deliciosos no gozo de repetir como em criança era bom a mesma história da mesma forma): ponto de vista dominante do protagonista masculino, aspectos conflitantes na narrativa e nas percepções dos personagens, uso sistemático de flasbacks e voz em off como modo de desconstrução e reconstrução da continuidade da história.

Uma das alegrias estéticas que encontro é, no noir, deparar-me com a realidade emergindo de forma onírica, com confrontos psicológicos tão frequentes quanto os físicos e o charmoso predomínio da ambivalência das intenções e gestos. Com narrativas formalmente marcadas pela desorientação e desconforto, com acentuada presença de comportamentos sociais aberrantes numa atmosfera intencionalmente dissonante, as narrativas noir não apresentam vencedores, vitórias ou possibilidades de redenção. O filme noir surge como teia de ilusões e de embustes que parecem conduzir à inevitabilidade da morte, acelerando esse processo tão humano. O noir um filme de morte. E morre-se em uma casa de espelhos, em múltiplas imagens e possibilidades de fim.

Esteticamente, os contrastes existentes no nível temático e narrativo se materializam nos filmes noir, privilegiadamente, nos altos contrates da luz. Como não lembrar Fellini? "a luz é a substância do filme e é porque a luz é, no cinema, ideologia, sentimento, cor, tom, profundidade, atmosfera, narrativa. A luz é aquilo que acrescenta, reduz, exalta, torna crível e aceitável o fantástico, o sonho ou, ao contrário, torna fantástico o real, transforma em miragem a rotina, acrescenta transparência, sugere tensão, vibrações. A luz esvazia um rosto ou lhe dá brilho.” Os filmes noir exacerbam esta concepção e apresentam o falso e o real unificados pela iluminação, com uso de contrastada fotografia em preto-e-branco, e de ângulos anti-convencionais, assim como de fontes isoladas de luz, profundidade de campo e locações naturais (isso não sou eu que digo assim da minha genialidade, é que fui ler sobre noir de tanto querer-lhe bem, em artigos científicos, dissertações, eita, tem um monte de material). 

O espaço da tela nestes filmes se tornou mais escuro, denso e profundo. As sombras não se ausentam, mesmo quando o protagonista entra em um ambiente qualquer e acende a luz, as sombras se mantém próximas e ameaçadoras. Aliás, os filmes noir apresentam, além da utilização estilizada da luz, uma série de recursos que acentuam o clima claustrofóbico e, ao mesmo tempo, sedutor, constantes na narrativa. O caráter erótico e fatal da mulher, nos filmes, é potencializado pela luz de alto contraste que esculpe o rosto e as formas do corpo da mulher, acentua os brilhos de sedas, pedrarias, lamês, as texturas nos tecidos vestidos pelas heroínas potencializam ao máximo o brilho da luz sobre eles.

Uma peculiaridade dos filmes noir que me agrada é que, apesar dos protagonistas serem, em sua maioria, homens, é do fascínio das mulheres que se trata, é a centralidade do personagem feminino que se leva na memória. É a mulher o personagem mais agudamente astuto, inteligente, intrigante. Seja ela a femme fatale, seja a redentora que remete o protagonista à possibilidade de integração num mundo estável (quimera que se perde, é claro, no decorrer da trama). Sabe, não importa que a femme fatale seja recorrentemente destruída nos filmes, é ela que se lança, incólume e vencedora, na lembrança dos expectadores. No filme noir, a questão do feminino tão cara à psicanálise se apresenta em todas as suas matizes: o que quer esta enigmática mulher que sustenta, provoca e perverte o protagonista? Como encontrá-la - objeto de gozo - e sobreviver? De onde ela fala - fálicos que somos todos - e pra onde ela aponta - o Outro gozo, que a todos encanta e atemoriza. O noir joga luz e brilho no feminino apenas para, em contraste, recordarmos que é na sombra que se coloca o feminino, no que não pode ser nomeado mas vivido.

Há muitos e deliciosos noir (em tempo, Má Educação de Almodovar, segundo ele mesmo, é um noir). Tem noir até com a Marilyn (e é um filme muito interessante passado em tempo real, tal como Festim Diabólico).  Tem Laura, uma aula de roteiro, direção e interpretações. Tem Bogart no que ele faz mais melhor: ser ele mesmo sendo outros tantos. Quem sabe faço uma lista...

12 comentários:

Long Haired Lady disse...

Faz sim!!!
Amiga você é demais, uma aula de cinema aqui. Eu sou só uma pobre coitada que gosta de assistir filmes, principalmente os "antigos". Assisti Laura, acho que no ano passado, uma trama bem interessante.

Raquel Stanick disse...

ai, amiga. eu daria uma boa mocinha? rrsrsrsr. saudadessssss! tú escreve bem demaisssssss. era esse o texto pra tal revista? beijossssss

Raquel Stanick disse...

ui! me entreguei.kkkkkkkkkkkk. lapso freudiano?

Lu disse...

Eu simplesmente adoro quando você fala do cinema e linka com a realidade. Embora não gosto do estereótipo de feminismo. Se bem que isso vem lá de casa, onde mulheres eram senhoras de si e todas sabiam de seus destinos, sonhos, devaneios e os homens eram limitados a sala. A cozinha era nossa sala de terapia e como era divertido. Eles sempre apareciam e eu cresci vendo mio nono fazer declarações de amor a sua amada vechia e o mio babo exaltando a força da tua mogla. Enfim, a gente aprendeu desde cedo que era preciso dois pra dançar a música da vida e que quando se dança, é preciso se deixar conduzir, mas aproveitar o movimento...

Viajei não foi?
Culpa sua...

bacio

Menina no Sotão disse...

Eu simplesmente adoro quando você fala do cinema e linka com a realidade. Embora não gosto do estereótipo de feminismo. Se bem que isso vem lá de casa, onde mulheres eram senhoras de si e todas sabiam de seus destinos, sonhos, devaneios e os homens eram limitados a sala. A cozinha era nossa sala de terapia e como era divertido. Eles sempre apareciam e eu cresci vendo mio nono fazer declarações de amor a sua amada vechia e o mio babo exaltando a força da tua mogla. Enfim, a gente aprendeu desde cedo que era preciso dois pra dançar a música da vida e que quando se dança, é preciso se deixar conduzir, mas aproveitar o movimento...

Viajei não foi?
Culpa sua...

bacio

Menina no Sotão disse...

Não sei o que houve, mas o blogger anda em surto comigo. So pode. rs

bacio

Allan Robert P. J. disse...

O feminino é um noir que oscila entre uma tragada arrependida no cigarro e um emaranhado de lençóis que nem Freud e Lacan juntos ousariam desatar. :)

Sardenta disse...

Vou falar o que? Que amei o texto e já é a terceira vez que leio? Tu falou de tudo que eu amo, psicanálise, cinema, gênero...
Perfeito! Genial!

pedro disse...

Aprendendo, aprendendo...
De Freud a femme. UI!
BJUS.

Lílian disse...

Foi triste... uso o notebook de meu filho e esqueço de por o meu nome. Bem,agora vai certo:

Aprendendo, aprendendo, etc...

Lílian

Júlio César Vanelis disse...

Vc sabe tanto, madrinha... Despertou meu interesse, faz uma lista sim... Eu não me lembro de ter visto um filme assim, mas já lí alguns contos que se assemelham a isso, pelo menos pelo que eu captei daí. Claro que os livros perdem na construção do cenário. Você mesma falou bastante na importancia da luz em filmes desse gênero... Mas as personagens, o padrão de personagens, dá pra gente ver em alguns contos também, né? XD

Madinha, saudade saudade saudade! Finalmente consegui dar uma fugidinha para vir aqui te ler! :D

Um beijão... até o próximo

Tina Lopes disse...

Guria, que texto inspirado, maravilhoso! "Retratos de sua época, apresentam um mundo de luz e sombra que dilui a moral maniqueísta - que dividia o mundo em bem e mal – em um jogo ambíguo em que a decadência, a desilusão e a incerteza são constituintes dos personagens. "
Pô, vou linkar lá no blog, belê? Com mr. Raymond Chandler, que tal.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...