domingo, 1 de maio de 2011

Dez Maios (ou porque se insiste em infames trocadilhos)

Eu sempre suspeitei daquela idéia de que a infelicidade é produtiva artisticamente. Bem sei que o que escrevo não é arte, mas não deixa de ser uma parente distante, já que também se assenta na sublimação. O certo é que sou uma operária medíocre das letras. Se há excessos, perco-me. Não escrevo se há grandes...alegrias, saudades, tristezas, angústias, vazios. Whatever (para alegria da minha mana). Não escrevo se estou muito preocupada. Mas reescrevo (com um sorriso de canto de boca).

Maios I
Sei que não sou a dona da casa. Esta ilusão perdi-a logo que deixei a infância de riso e correria nos corredores. Governanta, talvez, o mais certo é que moro aqui. Faço a limpeza, decoro com flores e quase esqueço que não estou só. Até que, ela. Angústia é seu nome. No primeiro instante, quase me engana, seu ar distante faz pensar em visita, hóspede, passante. Mas eu sei que habita o sótão, arrasta correntes, recebe bandejas de comida à porta sempre ensombreada e, vez ou outra, quando dá-lhe angústia de ser ela mesma, ela, a angústia, desce a escada e põe-se a percorrer a casa.

Um escândalo suas vestes de um branco amarelecido de não ver luz. Olhos fundos. Desfruta de poucas companhias, mas aprecia, ainda que vagamente, a saudade, a dor e a nostalgia que, quando fazem visitas, preferem entrar e sair pela janela. Ela, a Angústia, em seu desbotado estar, se abanca na varanda e fica a espiar, pelos meus olhos, o mundo. Com suas unhas enormes arranha a madeira da cadeira em que lentamente se balança. A angústia ocupa os espaços da casa. Ela empurra tudo pra fora e tudo me arde em lágrimas. Corto cebolas pra nos alimentar e não confessar minha entrega. Ela revira os armários e desordena o tempo que eu pensava meu. Com uma afiada tesoura do desejo faz arabescos no papel de parede e reescreve a solidão em riscos. Surpresa, estanco o sangue, os desenhos afiados na pele.

Não é ela, também, a dona da casa, mas, em alguns dias, age como se fosse. É de uma força que rouba a minha. Ela cresce em espasmos do que eu não posso. A garganta fecha em desejos de nada dizer. Pensar em coisas boas, pensar em coisas alegres grita, do espelho, uma noviça rebelde e eu tento: bigodes de gatos, neve...mas eu não conheço a neve, zomba a angústia, e a noviça torna-se névoa. A vista embaça e o amargo trava o sabor de viver.

Logo mais ela se recolhe, eu sei, eu espero, eu quero. Não há motivos para preocupação, insisto. Mas dói. Dói de não chorar, de não ter, de não poder, de sequer saber o que se deveria ter, poder e querer. Ou de saber, mas não poder nomear, não poder desejar. Espero que ela torne ao sótão repleto de impossibilidades empilhadas, objetos perdidos, demências e ferocidades. Que ela se tranque em três voltas de chave. A angústia aprisiona numa solidão de não ter palavras.

Maios II

Parece que eu sempre soube quem eu era e o que eu queria. Queria viver. Simples, sou uma pessoa simples. Gosto de rir, ler, cerveja gelada, café quente, gosto do mar. De alma antiga, gosto de saber coisas que já não parecem importantes, como qual o cheiro da naftalina. Satisfeita ou ainda mais: feliz. E, um dia, você. Você que tirou esse mundo do lugar e nem me contou pra onde o enviou. Você que me trouxe perguntas. Fiquei ainda mais feliz, porém já não sei tantas coisas que tinha como certas. Já não sei bem quem sou, por exemplo. A não ser que conte saber que sou quem me pergunta sobre você. Já não sei bem o que quero, a não ser que envolve, vagamente, nós dois, bocas banguelas e cadeiras de balanço. Descubro coisas engraçadas sobre mim: que sei esperar, que choro de saudade, que sou ciumenta e grudo feito carrapato. Descubro coisas engraçadas sobre mim que você me conta: que falo de forma sexy, que meu riso é contagiante e que fico vermelha de repente. Não gosto de ficar muito tempo sendo eu sem ser a eu que quer você. Perco minhas referências novas e já não consigo me limitar às antigas. Gosto de ser quem sou quando sou com você. Gosto dos labirintos da tua solidão que se faz acompanhar da minha. Andei lendo Simone de novo. Pra me lembrar como se precisa tanto do outro. Pra me lembrar que é preciso saber pedir, mesmo que não se vá ser atendida. Esta distância entre nossos dizeres assemelha-se, para mim, à distância entre Paris e Chicago quando os vôos transatlânticos eram uma audácia. É uma audácia esperar um setembro ainda tão distante. As palavras, eu as escrevo como pontes, mas bem sei que uma ponte apenas reafirma o abismo. Nelson uma vez afirmou à Simone que a amava porque a fazia feliz. Você sabe que me faz feliz? Você me amaria por me fazer rir e ter vontade de cantar na rua? Até quando estou triste de saudade como hoje, sou feliz, porque sei, numa sabedoria morna e saciada, que esta dor pode morrer no teu abraço e recomeçar só para tornar a perecer. Então, que venham os longos dias e as noites angustiadas, ser tua é maior do que ser, apenas. 

Maios III
Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza

Qualquer coisa que sofre,
Qualquer coisa que chora

Qualquer coisa que sente saudade,
Um molejo de amor machucado
Uma tristeza que vem da beleza
De se saber mulher...

Maios IV

Maios V

O meu amor chorou, não sei porque razão, (...)
mas te prometo um dia meu amor mudar de vida

Maios VI

 "As pessoas possuem cicatrizes. Em todos os tipos de lugares inesperados. Como mapas secretos de suas historias pessoais. Diagramas de suas velhas feridas. A maioria de nossas feridas pode sarar, deixando nada além de uma cicatriz. Mas algumas não curam. Algumas feridas podemos carregar conosco a todos os lugares, e embora o corte já não esteja mais presente há muito, a dor ainda permanece. O que é pior, novas feridas que são horrivelmente dolorosas ou velhas feridas que deviam ter sarado anos atrás mas nunca o fizeram? Talvez velhas feridas nos ensinem algo. Elas nos lembram onde estivemos e o que superamos. Nos ensinam lições sobre o que evitar no futuro. É como gostamos de pensar. Mas não é o que acontece, é? Algumas coisas nós apenas temos que aprender de novo, e de novo, e de novo" (Grey's anatomy)

Maios VII

Eu gosto do Clint Eastwood porque
ele tem somente duas expressões faciais.
Uma com o chapéu e outra sem ele. (Sérgio Leone)





Maios VIII


 Se lembra de quando era criança e sua maior preocupação era se você ia ganhar uma bicicleta de aniversário ou se ia ter biscoito no café da manhã? Ser adulto... Totalmente valorizado. Quero dizer, não se iluda com sapatos lindos e ótimo sexo e a falta dos seus pais te dizendo o que fazer. Ser adulto é responsabilidade. Responsabilidade é realmente uma droga. Realmente, realmente uma droga. Adultos têm que estar nos lugares e fazer as coisas e ganhar a vida e pagar o aluguel. E se você estiver treinando para ser cirurgião, segurando um coração em suas mãos, hein? Isso que é responsabilidade. Os jeitos de ganhar bicicletas e biscoitos parecem realmente bom, não? A parte mais assustadora da responsabilidade? Quando você erra e deixa isso escapar pelos seus dedos. Responsabilidade é realmente uma droga. Infelizmente, depois que passar da época de aparelhos e sutiãs, a responsabilidade não vai embora. Não pode ser evitada. Ou alguém nos faz encarar ou nós sofremos as conseqüências. E mesmo assim ser adulto tem suas recuperações. Quer dizer, os sapatos, o sexo, não ter pais dizendo o que fazer, isso é muito bom...(Grey's Anatomy)

Maios IX
A menina que durante o dia desejou um vestido
está dormindo esquecida e isto é triste demais
porque ela falou comigo: "Acho que fica melhor com babado"
e riu meio sorriso, embaraçada por tamanha alegria.
Como é possível que a nós, mortais, se aumente o brilho nos olhos
porque o vestido é azul e tem um laço?

Maios X



10 comentários:

S. disse...

ai...ai...

O Universo dos Pensamentos disse...

Muito interessante os Dez Maios, parabéns.

Bom dia

Atitude do pensar disse...

E eu que pensava tê-los todos em mim. Os maios - trabalhadores, mães e noivas. Agora descubro que Dez Maios...rsrs
Que bom que em grand equantidade desfruta-se mais ainda do céu singular pertencente a este mês.
Bjin

Juliana disse...

Grey ´s anatomy me causa chororô. =p

Maio é o meu inferno astral, por mim, iria logo pra junho. Mas esse seus dez maios foram uma delícia.

Long Haired Lady disse...

nao tenho seu verbo mas tambem só sei falar o vivo, o que sinto…

andas vendo muito o canal sony? rs
mas esses textos do gray's anatomy me dizem muito, principalmente este que fala das cicatrizes!


ps. como pode não se sensibilizar com o AYRTON!!!!!
hahahaha

beijooooo

Palavras Vagabundas disse...

Dez maios, em alguns me reconheço:a Angústia com sua irmã Ansiedade também vivem no meu sótão!
Ando te lendo por aí e aqui, mas o tempo para fazer um comentário decente anda fugindo de mim, mas maio vai acabar... em junho, o tempo há de me achar e quem sabe consiga fazer o post prometido.
bjs
Jussara

Peterson Quadros disse...

A vantagem de ficar um tempo sem passar por aqui é que agora tenho muitas coisas para ler, PENSAR e certamente... Deliciar-me...
Legais os trocadilhos de uma “irmã“ das artes... E angústia? Em dicionários nunca a aproximam da solidão, porém para mim as duas andam pela mesma rua ou no mesmo sótão...
II- É maravilhoso ler um texto onde alegria e saudades se fundem. Depois cair em um Vinicius e se tocar que quem escreveu sobre as coisas acima foi alguém que sofre, chora, sente saudade...
Henfil e Jim Davis em um mesmo post... Falando de coisas diferentes???
Grey's anatomy… Nunca assisti, mas o VI me tocou e sobre o VIII ... Deparei-me com verdades...
Obrigado e Abraços

Menina no Sotão disse...

E eu que sou uma eterna apaixonada pelo mês de maio fiquei aqui boquiaberta descobrindo seus dez maios. Viajei ali nas descrições das ilusões e nas realidades que de certa forma eram partes de mim.
bacio

VoxVOX disse...

Para mim o q Vc faz é arte. Me fala diretamente ao coração ... me reconheço em tantos dos teus maios ... No operariado das palavras

Anônimo disse...

Olá é a 3ª vez que li o teu blogue e reflecti imenso!Espectacular Projecto!
Até à próxima

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