domingo, 29 de maio de 2011

Por Dentro. Quase Um Conto.

Como é possível que a nós, mortais,
se aumente o brilho nos olhos
porque o vestido é azul e tem um laço?
Adélia Prado


Sinto a saudade no momento em que desligo o telefone. É sempre difícil afastar-me. Palavras repetem-se como se pudessem ser estradas: te ligo depois. Durma bem. Também gosto de você. Um beijo. Uma conversa que não se sabe terminar. Tua voz desaparecendo, aprendendo a fazer eco do silêncio. O vazio que se impõe à última palavra, ao último riso, ao último beijo, é sempre o mais difícil de atravessar. Já não há abismos em mim que não ocupes. Minha geografia reinventou-se pelo desejo de sentir teu desejo.
Enquanto conversava contigo, a voz me fazendo carne, as mãos se faziam abstratas, organizando bibelots na estante como se pudessem pôr ordem no desassossego do meu coração. Agora, sem voz a preenchê-lo e sem tarefas a ocupá-lo, o corpo se estranha. Debruço-me na janela e é a paisagem interior que vislumbro. Há janelas aqui, sabe, eu esqueci de te contar. Há sempre tanto pra dizer e, no entanto, nossas ligações são feitas de silêncio e esperas. Há muitas janelas aqui, eu devia ter te dito. Muitas e, em cada uma delas, futuros que não serão. Há janelas aqui que convidam vento, tempo, esperanças. Há janelas onde se debruça minha vontade. Há janelas que fazem moldura pro meu desejo. Há janelas abertas para os temores. Há janelas de tamanhos distintos e, em cada uma delas, vasos de amores perfeitos que procuram marias sem-vergonha pra fazer valer seu nome. Em meu rosto, janelas. Escancaradas.
Mas você não pode saber, claro. Nenhum de nós sabe. Tateamos. Nos meus percursos, não encontro sinais. Nenhum letreiro, nenhuma placa, nenhuma sinalização: ele esteve aqui. Não há indícios de ti. E, ainda assim, sei do sal dos dias de despedida, embora nem tenhas chegado ainda. Talvez nunca chegue, meus caminhos são sinuosos. E mesmo que arda carne e letra, nada disso me leva até onde te imagino.
Sei das saudades que eu sentiria, depois da tua primeira partida: teu cheiro nas minhas roupas, teu gosto na minha língua, uma palavra repetida, uma toalha jogada na pia, a cena de desencontro na hora das despedidas que ainda serão. Tenho inveja dos teus livros, das tuas roupas, da tua cama, de tudo que te é íntimo e corriqueiro como ainda não sou.
Eis como vivo: um desejo de calor. Do calor das mãos que eu pressinto. Lembro o que nem vivemos: um beijo azul, gosto de vento e areia; calçadas gastas em pés que se entendem, conversas cúmplices, silencias confortáveis, teu gosto na minha língua, teu nome em baixo relevo desenhado em meus projetos. Tuas mãos perdidas no meu corpo como se elas sempre tivessem estado aqui. Antecipo diversidades: suas reticências, o jeito preguiçoso de deixar-se mais um pouco na cama, a mais conservadora presença. As tuas palavras, eu lembro das tuas palavras em mim. Preciso delas. As palavras certas, sempre um momento antes do momento certo, de um jeito tão exato com o qual não me acostumo, mas admiro.
As perguntas, ainda à janela, esperando ver respostas passarem: e se nada disso for mais que cenário pintado à mão e a verdade for uma moça sem tranças recostada na janela vendo a praça sem banda? E se os contos de fada não souberem do café esfriando e do calendário que já foi, porque os dias nem se dão ao trabalho de se repetir, apenas são? E se os desejos forem cores de um vitral antigo, dançando em meu rosto, você saberia?
Procuro canetas no velho móvel, madeira cheirando a memória. Já me habitam novas palavras pra te dar. Pra me dar. Com letra caprichada, desenho letras que me despem: se você vier, vai saber que eu gosto de picolé de fruta e ainda mais quando escorre no canto da boca e a língua, lépida, se faz audaz. Vai saber que eu piso primeiro o calcanhar. Que eu rio alto. Que minha mão é quente, que meu sangue é quente. Que releio: livros, cartas, bilhetes, bulas. Que sinto o cheiro do mar e me comovo. Que não sei contar piada. Que tenho pressa e me atraso. Que tenho ímãs na geladeira e faço pose de pin-up só pra brincar de ser eu.
Como se você não me soubesse. Mas você me sabe, sem letras nem histórias. Sem mãos, ainda. Sem gosto nem cheiro, mas sabe. É porque eu me sei no teu olho que nem me viu que eu quase acredito. É perdida na tua voz que eu quase encontro. É nesse sentir que eu desejo que seja possível isso de gostar. Que seja razoável querer tanto, em pulsos latejantes e frases que se esquecem de ser completas. Em um espanto, eu sei: aqui, vive-se. Como se viver fosse um flash back. Um espanto me acompanha ao pensar-te em mim. Como se fosse o tempo errado, como se devêssemos estar em outro lugar. O tempo me ignora, ofendido por este querer que não cessa. Sem paciência para futuros, eu que devoro tudo no já, tenho a espera como companheira. Essa saudade do que ainda será bom. Planejo tolices: uma mão, uma palavra, um abraço. O primeiro. O primeiro, soluço, e só me resta conhecer as vielas do mundo. Um mundo imenso, esse; penso e prossigo. Talvez o mundo fosse em palmas de mão se já fosse um setembro. Se eu soubesse tua cor, teu sabor exato. Se eu já adivinhasse número do sapato, endereço e digitais. Se antecipasse teus planos e conhecesse os medos que te deixavam acordado nas noites dos teus dez anos. Se eu soubesse altura e peso e sobrenome e RG. Em ses eu me inquieto, eu te saberia mais do que sei agora, sabendo meu desejo? Eu saberia mais do que quase sei tua mão virando a minha e tua língua brincando no meu pulso? Eu saberia mais do que antecipo tua barba fazendo cócegas em minhas coxas? Eu saberia mais do que espero tuas mãos levantando minha saia só pra me fazer corar? Mais do que consigo imaginar tua voz lendo, em voz alta, até que eu durma mas eu não adormeço nunca, encantada de ouvir uma voz que eu nem sei? Se eu já soubesse teu coração e tua respiração, os pelos da nuca estariam mais ouriçados do que pensar assim: ele? Se eu já soubesse teus olhos me vendo tirar a roupa eu te saberia mais do que quando, letra por letra, me desnudo pra olhos que ainda não enxergo? Queria não saber-te menos, queria provar-te mais.
Paro a caneta, claro que nada disso irá para o envelope que espera o carinho que vou te enviar. Um postal, apenas. Pra você, com carinho. E ficar esperando que faças o que tem feito: adivinhado. É o que me resta. Resta a vontade de. De que você seja real. Carne, sangue e desejo. Que tenha pressa. Porque o mundo está acabando. Qual mundo? O meu. Esse mundo meu que te convida. Que te planeja. Tenho data de validade. Não sei qual. Cem dias, talvez. Porque cada se podia ser um quando. E, então, não haveria mais coração inquieto. Eu sei disso enquanto fecho o envelope, as janelas, todas, e sigo pra rua. Porque a espera é em movimento, vou pra rua, fazer o tempo em passos. Esquinas há, por certo.


Sim, é mais um esforço de ontens em novos arranjos. 
Mas o hoje se faz de sonhos que chegam no tamnho certinho

13 comentários:

Glória Maria Vieira disse...

Quem sabe, um dia, eu ainda escreva assim, né?!

Fantástico demais. FANTÁSTICO! /escreveu pra mim mesmo, foi Luh!? AUHSAUHSUAHUSAHS Tão meu mais uma vez...

Danielle Martins disse...

Feliz de te ver assim...

Rita disse...

Li assim sem querer que acabasse.


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Lindo.

bj
Rita

Long Haired Lady disse...

eu aqui "penando" para escrever algo que sinto, que vivo e você vem e derrama tudo aqui…

essa borboleta sempre me deixa orgulhosa de me deixar ser sua amiga!

Dona Lô disse...

Em meu rosto, janelas. Escancaradas. Por elas, vejo o tempo me ignorando... Ou tentando. Ele não conseguiu desapeceber o meu aceno!
Beijo, Lu!

Caso me esqueçam disse...

eu tenho uma pessoa assim. que me faz ter saudade mesmo depois da ligacao de tres horas. ligacoes, ligacoes...

Sardenta disse...

lindo, lindo. só isso que posso falar.

Anônimo disse...

Perfeito...

Shuzy disse...

E eu aqui, desejando... Que os meus "se's" fossem "quando's".

asombradomar disse...

"Como se você não me soubesse. Mas você me sabe, sem letras nem histórias. Sem mãos, ainda. Sem gosto nem cheiro, mas sabe".


Borboleta, borboleta....

Como vc consegue? Mergulhar num mar de amores que mistura tanta coisa numa só, que ao terminar, nem sei onde eu estava, me sinto nua e quase em teu lugar.

És bem dona das palavras mesmo.



Um beijo enorme


Cáh

Rafa disse...

Linda Borboleta,

Se fosse eu casava contigo.

Lindo, lindo...

Bj

Ana Paula disse...

Absurdamente lindo!fiquei a imaginar "tua barba fazendo cócegas nas minhas coxas"...suspiros,suspiros, muitos suspiros!me vi ai...rsrsrs. Você escreve com o coração so pode, é muito verdadeiro, não é forçado...amei simples assim!

Menina no Sotão disse...

Carissima, seu post é aquele sopro por entre as mãos em que a gente vai acompanhando qualquer coisa de ilusão a percorrer os espaços. As janelas, justamente elas, que eu tanto adoro. Minha casa precisa de janelas e varandas. É uma obrigação, uma necessidade.
Dá pra ver os passos nas calçadas ou imaginá-los. Tanto faz e quando há a tal da espera é de ver o que o mundo exibe através delas enquanto minhas mãos envolvem a xícara, se aquecem, e esperam qualquer coisa de imagem lá fora.

Ah! Mais um post seu para a coleção: eu queria ter escrito isso...

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