sábado, 7 de maio de 2011

7 de Mim, digo, de Maio



E aí, o menino. É uma surpresa, tantas vezes, todas as vezes, esse amor. Quase sempre eu o esqueço, miúdo e calado, brincando sozinho. Conta histórias para si mesmo, repetindo as palavras, doces ou não, que ouviu – geralmente de mim.

Mas, é preciso buscar o princípio. E no começo era o verbo: estar e a surpresa: grávida. Uma barriga enorme e o conforto. Nada de enjôos, cansaços ou pernas inchadas. Ele estava aqui, mas era possível não saber. Não saber ser mãe. O mundo todo mudando, a vida toda mudando, o corpo todo mudando ainda mais que tudo e, ainda assim, só no corpo é que eu permanecia a mesma. Era a hora de nascer, mas ele não sabia. Eu não sabia.

Nenhuma dor, nenhum incômodo, nenhum anúncio. Ele estava aqui, quase ali, mas era possível não saber. Não saber ser mãe. Luzes, uma dor estranha e externa na espinha, cosquinhas na barriga. Parecia que não era comigo. Vozes, homens tão brancos, puros do pecado de dar à vida mais uma oportunidade de errar: outra pessoa que nasce. Ele chegou aqui e era possível não saber. Não saber ser mãe. Olhá-lo, pequeno e sujo, em mãos alheias que permitiram um breve contato, um peso ligeiro no peito e o adeus firme; era a agonia, um aperto, um gemido, uma lágrima talvez, porque o rosto estava molhado, mas era, ainda mais, nada saber disto, nada compreender: ser mãe.

Ah, os dias seguintes, a glória do constante repouso, os mimos e cuidados, a luz sempre escamoteada. Nada precisar saber. Ou quase nada. Porque, em espasmos constantes, a hora da amamentação. Uma boca que suga, uns olhos que sugam, umas mãos que sugam. Uma prisão. Eu o segurava e ele me prendia. Mas, também aí, eu nada sabia. Ele estava aqui e era possível, quando ele determinava a hora de parar de sugar minha alma, dele mais nada saber. Não saber ser mãe. 

O que pra mim era tempo, nele foi se fazendo corpo. E atos. E, principalmente, palavras. Ele foi se fazendo, ainda que disto, eu nada soubesse. Não saber ser mãe. E agora, ele brinca no canto do quarto, sozinho, deixando no silêncio a oportunidade de eu ser eu, ser qualquer coisa que me impede de perceber: não saber ser mãe. É possível ele estar ali e eu não saber.

De repente, um som, parece-me um grito: ma mãe! Ele diz, eu não sei porque ele diz e corre para mim, num abraço que é um crescendo na aproximação, aquelas mãozinhas quase num aceno, o equilíbrio forçado da corrida, o calor e a doçura de sua pele.

E aí, o menino. É uma revelação. Ele me consola. Ele me ensina. É possível ele estar aqui e eu saber: ser mãe. É possível ele estar aqui e eu saber: amor. É possível ele estar aqui.

13 comentários:

Dona Lô disse...

Sou ma-mãe também!!!

Menina no Sotão disse...

Nossa, essa é uma ilusão que eu nunca irei sentir, talvez por isso minhas mães sejam tão crueis em cena. rs
Não sei, sei apenas que a minha mãe soube ser, mas eu não. Parabéns pra vc que sabe conjugar esse verbo. E parabéns para o menino que te ajuda como os tempos verbais. rs
bacio

Long Haired Lady disse...

posso roubar as palavras da Lunna?

beijo!

Palavras Vagabundas disse...

Parabéns para o menino que soube deixar a ma-mãe tão mais sensível ao mundo. Aliás como o fazem todas as crianças amadas.
Bjs
Jussara
Feliz Dia das Mães!

Mari Biddle disse...

Feliz dias das mães, honey!

Beijocas!

Belos e Malvados disse...

Parabéns para seu menino e um beijo para você.

Peterson Quadros disse...

O filho (se entendi direito) faz aniversário e ganha de presente, além da mãe borboleta, um texto que encanta e comove... E o nascer? Um ato lindo e tão feminino. Através das suas palavras percebi que jamais (nós homens) chegaremos perto de algo assim. Sentimos outras coisas também divinas, porém isso como você descreveu nos é impossível. Obrigado pelo texto e que vocês tenham um dia fabuloso.

Danielle Martins disse...

Parabéns pra você e pro Samu!
Bjs!

Cecilia disse...

Linda borboleta, parabéns ao Samu!
Que texto lindo!
Beijos

Rita disse...

Parabéns aos dois. Beijo grande, saudades,
Rita

Atitude do pensar disse...

Sim, é possível. Acredito nessa possibilidade, já a disse uma vez. Assim como acredito que aqui também será possível, mesmo não sabendo.
Posso dar parabéns atrasado?
Parabéns!!! A mãe Lu, e ao filho que tem essa mãe tão especial. E por mais que ela ache - as vezes -, que não o sabe. Ele é o maior exemplo de que ela tem aprendido.
Bjus

Anônimo disse...

Amei!
E, ainda mais agora que estou aprendendo que tb não sei, vejo como seu texto é lindo!
Bjs
Luana

Lílian disse...

Filho de borboleta, demora nadinha naddinha, vai aprender a voar... Parabens duplicados. Pelo dia, pelo texto.
Xero.

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