domingo, 24 de abril de 2011

Viver, por José Navarro

No meu aniversário, vocês lembram, ganhei lindos presentes feito textos: Rita da Estrada Anil, Lu do Menina no Sótão, S. do Mudando os Sentimentos, Teresa Font, Xará do Caso me EsqueçamRafa do Tanta Coisa e Joana do É Tudo Gente Morta. Na época, ele escreveu em seu próprio blog, mas ficou faltando um presente que chegou com algum atraso e, a seguir, foi guardado com avareza. Desde que recebi o texto que, hoje, decidi partilhar, ele tem me inspirado, inquietado, emocionado. 

É um lindo texto do Zé. Do querido Zé. Não é a primeira vez que ele me toca. Já me inspirou aqui, aqui e aqui - pra ficar no explícito. Lê-lo, é sempre um prazer. Meu orientador dizia que se deve almejar um texto redondo, significando um texto elegante, bem formado e consistente. Os textos do Zé são assim. São sempre assim, o que surpreenentemente faz emudecer minha gana de comentários. Geralmente admiro calada. Se querem uma prova é só ler esta deliciosa e inspirada narrativa sobre Pilatos (parte 1, parte 2, parte 3). Hoje e este texto, não posso ler em silêncio. Tenho que dizer, sonoramente: obrigada.

Viver, José Navarro

A vida é um acontecimento finito. Basta olhar para o céu numa noite limpa e escura, para viajarmos no tempo. Cada um dos pontos luminosos que neste instante repercute na nossa retina, demorou a chegar aqui x anos= x * (9.460 * 10^12), ou seja, um tempo humanamente intangível. Nesta perspectiva, uma vida longa com 90 anos, por exemplo, não passa de uma partícula temporal numa proporção, na melhor das hipóteses, semelhante à de um grão de areia numa praia. Mas a própria vida humana, podemos entendê-la como um pequeno acidente na ordem universal das coisas; por exemplo, se reduzíssemos o processo de formação geológica do planeta Terra a um só dia, a humanidade teria aparecido por volta das 23h 59’ 55’’.

A esta colossal pequenez, devemos ainda juntar a enorme limitação da vida no espaço. Como cada existência é singular, a sua dimensão é reduzida, o volume atrozmente diminuto, o alcance espacial assaz limitado. Há uns anos uma investigação concluiu que aproximadamente 80% das pessoas vivem num raio inferior a 50km do local onde nasceram. Mas este confinamento espacial tem consequências mais subtis. Estando cada um de nós encerrados em si mesmo num corpo limitado e de curto alcance, só através daquilo a que chamamos empatia podemos partilhar a existência dos outros. Nenhum de nós consegue sentir dentro de si aquilo que o outro sente, pois apenas por analogia conseguiremos partilhar sensações; do mesmo modo, somos incapazes de conhecer, enquanto experiência sensível, a íntima disposição de outra pessoa. Por exemplo, não me é possível conceber, senão através de um exercício de abstracção, que no preciso instante em que escrevo estas linhas numa cidade europeia coberta de chuva, estará um casal a fazer amor na madrugada de Tóquio ou há alguém a estender-se ao sol em canoa Quebrada.

Porque somos invioláveis, não conseguimos ser penetrados nem penetrar na existência alheia. Só a nossa dor é nossa, embora a alegria já seja contaminável. Isto sucede apesar de sermos fisicamente, não mais do que balões cheios de líquido, capazes de verter até a morte os nossos fluídos com uma simples perfuração no tegumento que os contém.

Estes números e esta condição esmagam. Até porque se lhes dermos atenção, depressa entendemos que a sorte e o acaso desempenham um papel gigantesco nos acontecimentos da vida, bem maior do que qualquer determinação ou cálculo com que a desejaríamos conduzir.

Mas a vida sabe proteger-se. A natureza colocou dentro do homem um dispositivo de defesa extraordinário ao qual demos o nome de memória. Esta dita memória é não mais o que a capacidade que temos de obliterar da nossa mente as experiências que poderiam afetar com gravidade o nosso desempenho na vida. Por que razão somos incapazes de recordar os primeiros eventos da nossa existência e esquecemos por completo os 3-4 anos iniciais da vida? Porque a violência física do ato de nascer e a dor insuportável que sentimos nos primeiros meses fora do líquido amniótico, quando o sangue rompe pelas veias em cada batida do coração, quando os pulmões se descolam e expandem ao respirarmos e o estômago arde e se contraí quando mal sabe calibrar os ácidos digestivos ao receber as golfadas de leite; porque tudo isto, mais o acumular de frustrações e deceções a que chamamos aprendizagem, com o seu cortejo de inabilidades e fiascos, seriam traumas insuperáveis e a nossa vida, só com a lembrança destes momentos, seria impossível de viver.

A memória é, assim, um involuntário mas meticuloso esquecimento que uma parte do nosso cérebro executa, para permitir a disponibilidade da outra parte, aquela que designamos por consciência. Ou seja. A vida só é possível por um ato primário de alienação.
Esta migalha é tudo que temos, que somos.

Donde a única conclusão possível, aparentemente contraditória com o rosário de pavores descritos acima: há que vivê-la com a atenção que damos àquilo que é muito fugaz e ainda mais frágil. É um acaso extraordinário, tão improvável e fortuito que só pode ser apreciado como valioso.

11 comentários:

Long Haired Lady disse...

a vida é para ser vivida, e ser feliz é um dom, e este, você, minha querida, tem pra dar e vender!

beijo grande!

Palavras Vagabundas disse...

Sim!Esse é um texto redondinho, rs
Bela reflexão que me deixou pequenininha, pequenininha...
bjs e Bom Domingo de Páscoa!
Jussara

Lílian disse...

E, ora pois, faltando apenas 05 valiosos segundos para concluir o dia, eis que chegamos até aqui. E ainda assim, teimamos em querer "controlar" o universo - mesmo o nosso, esse crescente diminutivo.
Você tem razão, borboleta, tem horas que fica até difícil comentar.

Lindo texto, autor.

Bjus, bom domingo!

Lucas disse...

Obrigado por compartilhar o texto, realmente muito belo. Creio que é nesse sentido que se anda mais longe e mais profundamente: reconhecendo a pequenez do mundo e a fugacidade do humano, e no entanto se deixando seduzir e amar justamente por essa delicadeza, por essa oportunidade única.
Obrigado também pelas divulgações do variações sobre o ritmo alfa que tens feito.

Rita disse...

Tão bom. :-)

Você que inspira, menina.

Bj
Rita

Atitude do pensar disse...

A sensação que tenho é que a vida permanece contraditória...

S. disse...

ah... O Navarro... rsrsrsrsr

Shuzy disse...

Gostei da foto!
(*=

Atitude do pensar disse...

Ontem ao ler não consegui digerir tudo, por esse exato motivo retornei hoje, meio cambaleando, e com tremores fortes.
Afinal, a vida nem sempre é desejada pelo meu eu, há momentos de intensa rejeição. E vê-la aqui, é depara-me com a pequenez de quem vos fala e a grandeza de quem existe anterior a mim - a vida.
Precisaria ler este texto diariamente, como a uma oração, dedilhando cada palavra, vírgula, buscando encontrar a vida como ela realmente é...
Grande cara o Zé. Gosto deles...Zé, Francisco, Antonio...Em geral, são pessoas singulares.
Beijo

Borboletas nos Olhos disse...

K.,

é exatamente isso. Desde que recebi o texto eu li e reli várias vezes e sempre parece que tudo é dito e algo falta e aí retorno sempre. E o Zé é realmente especial, tenho por ele um afeto enorme.

Cáh disse...

" Estando cada um de nós encerrados em si mesmo num corpo limitado e de curto alcance, só através daquilo a que chamamos empatia podemos partilhar a existência dos outros. Nenhum de nós consegue sentir dentro de si aquilo que o outro sente..."


ei, isso doeuuu!!!

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