sábado, 9 de abril de 2011

Um Passo

Continuo num ritmo que não reconheço. Em que não me reconheço. Mas aceito. Meus anos de vida, já tantos, deram-me isso: paciência comigo mesma. Se é em dores, que seja, abro o peito e sangro até novas cores além do ocre. 

Procuro belezas, coleciono-as pra me lembrar: o bom, o belo, o justo, é isso que faz civilidade. Em pequenas pedras amarelas, reconstruo minha estrada. Eu choro, enterneço-me. E rio tão de leve como se tivesse desaprendido. Procuro palavras em mim e elas se amontoam como pira. Eu ardo. Mas faço soar música e há incenso. Tenho gostos. E sou grata. Grata por todo momento que não foi aquele. Grata. Pelas coisas pequenas, tão pequenas como o riso da menina vizinha, alegre em seus 2 anos de correr atrás de um gato. Seu grito alegre me atravessa. É bom. 

Sou grata por haver, ainda, pessoas no trabalho, casais fazendo sexo, meninos atirando de estilingue, idosos de mãos dadas em praças, partos, aniversários. Sou grata por haver, sei lá, a Austrália, e tanta gente que não sabe de mim. Sou grata porque a vida segue e não me espera. 

Grata pelo bonito que me diz: o humano também pode ser em ternuras. Obrigada. Porque eu quase esqueci. Uma pedra amarela de cada vez, reconstruindo a humanidade em mim. Esta chegou-me agora a pouco. O mundo precisa de beleza. Eu preciso. Obrigada, você, que nem sabia do árido que era meu aqui dentro. Foi como chuva. Ávida, eu ouvi. E as lágrimas foram, por um momento, não de desalento, mas de reconhecimento. Ainda está aqui, ainda está em mim. Humanidade. Mais uma pedra. Amarela, por favor:


Quer saber tudo? Aqui. 

14 comentários:

Allan Robert P. J. disse...

Somos nós que escorremos pela vida, de ocres, amarelos e que tais. E a vida se fluidifica.
:)

Long Haired Lady disse...

o amarelo é a cor da atenção…

Borboletas nos Olhos disse...

Lady, é a cor da estrada para Oz.Ando precisando de cérebro, coragem, coração e saber o meu lar.

Glória Maria Vieira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Glória Maria Vieira disse...

"Obrigada, você, que nem sabia do árido que era meu aqui dentro."

Agradeceu a si por mim! :~
Tão... linda! Tão lindo... TUDO..

ALEX disse...

Em tempos difíceis, é bom saber que alguém tem poesia para oferecer...
Um cheiro
Alex Ramos

diariodumapsi disse...

Lindo!
Maravilhoso de se ler! Inebriante!
Gd beijo

Cláudia disse...

Simplesmente lindo! Cheguei a imaginar as pedras amarelas, uma para cada experiência vivida.

by Rapha C.M. disse...

Lindo Texto! Bem escrito e comovente... Muitas pedras amarelas para todos nós!
Bjoo!

Menina no Sotão disse...

Pedras amarelas me lembra a infância, me lembra os primeiros passos e me faz lembrar que quando eu era menina a felicidade era sorrir com os dentes e claro que eu sorria o tempo todo. Então a gente cresce e percebe que não basta o sorriso, mas é preciso acreditar que já é um começo.
Carissima, tenha um lindo dia e uma excelente semana...

Ps. fiquei esperando algo que não veio. rs oras

bacio

Belos e Malvados disse...

Uma pessoa que escreve desse jeito pode ter tudo, menos coração árido. (Bata os sapatinhos vermelhos, logo logo vai estar em casa, rs). Um beijo.

Atitude do pensar disse...

Lu, de forma singela pude ver o "belo e o sublime" tão buscado por Kant.
Que nos tijolinhos amarelos caminhemos juntas. O sapato vermelho eu já tenho, basta sua companhia calçada em seus sapatos vermelhos.
Bjus e abraços,
K.

Lílian disse...

Oi, borboleta!

De tudo o que li, o que mais gostei foi de ouvir-te grata. Para Cícero, esta - a gratidão - seria a mãe de todas as virtudes.
Então já estamos no caminho (seria ele amarelinho?). Bom, né!

Bjim!

S. disse...

vc é minha pedrinha amarela preferida, viu amiga? beijos e amo-te montes

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