sábado, 30 de abril de 2011

Tinta Azul

Relendo o meu esloveno, encontrei esta historinha sobre a República Democrática Alemã: diz-que que um  operário conseguiu emprego na sibéria e sabendo que seria lida a correspondência (e censurada), combinou um código: se a carta estiver em azul, é verdade, se estiver em vermelho é mentira. Um mês depois os amigos recebem uma carta escrita em azul: "tudo aqui é maravilhoso, as lojas vivem cheias, a comida é abundante, os apartamentos são grandes e aquecidos, há muitas garotas, no cinema estão os mais atuais e críticos filmes, o único senão é que não se consegue encontrar tinta vermelha".


Moral da história? Há coisas que apontam a falta, não apenas a ausência mesma da coisa, mas uma falta além. A ausência da tinta azul aponta não só isso que não há tinta azul, mas aponta pra ausência mesma do que ela deveria significar. Se eu escrever hoje: laços violetas. Ou neve. Ou ainda: amantes se dão. São respingos de tinta vermelha lembrando tudo que não está. Então, este é um não-post, pra não dizer nada que nada é tudo que não veio. 

Mas como há sempre uma fresta, há um pouco de azul em telefones que fazem promessas.

Mas se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí, levando minha panela debaixo do braço. É que aos sábados eu amanheço no Feministas na Cozinha. Pra hoje requentei um prato que se come morno e no finzinho tem bruschetta. Começa assim:

A calçada ouvia seus passos. Ela sorria. Já nem tentava evitar, ela sorria. Não era boa, sempre tivera uma intuição. Toc-toc, o salto cantava, ela sorria e já findava a tarde. Sentia a brisa no corpo como a carícia de uma amante. Conteve-se pra não gargalhar. Girou o corpo, um misto de elegância e falta de jeito, despedindo-se da rua e entrou em casa. Bolsa na mesa, roupa no chão, cigarro, sofá. Manteve o sapato, claro, o salto fino lhe ajudava a lembrar. Pensou em vasculhar a geladeira, mas estava saciada. Não tinha fome a não ser de lembranças. Irônica, já forjava sua frase de efeito: quem disse que a vingança é um prato que se come frio não entende de culinária ou estava com tanta fome que comeu umas palavrinhas. Ela sabe, já provou: a vingança é um prato que se come de cabeça fria. Continua aqui.


5 comentários:

Caso me esqueçam disse...

hahaha adorei a historinha! essa semana eu tava metida nos estudos dos diarios de guerra dos soldados da 1GM. censura gerava auto-censura. se censurar numa carta à sua esposa quando voce ta metido numa guerra deve ser meio dificil...

Danielle Martins disse...

Saudades da minha amiga borboleta!!!

Rafa disse...

Tem sempre algo que falta, a vida é uma subtração.

E o que se faz com o desejo? Eu quero ser budista

Aniquilá-lo

Bj

Júlio César Vanelis disse...

Olá madrinha! Seu afilhado some mas nunca te abandona... rs... impossível pra mim (te abandonar)...
Eu acho que nada na vida é totalmente escrito em azul, assim como também não é escrito em vermelho. Todas as cartas são escritas em roxo, o tom do roxo não depende só de quem escreve, também depende de quem lê... Essa é a graça de se ler uma carta, brincar de adivinhar se o roxo é mais azul ou mais vermelho... E, independente disso, tentar eliminar o vermelho e tentar ver só o lado azul do roxo...

Um beijo grande, madrinha... Até o próximo!

Menina no Sotão disse...

Não é por falta de tinta que as coisas não terão o sentido necessário. Adorei a historia...
Agora vamos as demais linhas.
bacio

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