quinta-feira, 28 de abril de 2011

Morreu Maria Preá

Era uma vez. Uma? Todas as vezes. Era uma vez uma confeitaria. Daquelas com vitrine de vidro. Enorme e colorido convite de sabores que eu só adivinho. Menina, nunca deixo de ser menina de nariz colado naquela vitrine, o desejo se fazendo saliva. Tão perto: nariz, vidro, sabor. Quase ao alcance da mão. Quase.

Era outra vez. Eu aprendi todas as operações matemáticas. Uma vez um é sempre o mesmo. 

Era a primeira vez: eu nem sabia que um dia você ia se tornar parte do meu aparelho respiratório.

Era qualquer vez. O riso na voz e o engano: era só um espelho. 

Era a última vez, ela repetia, enquanto soluçava, sentada no ladrilho frio.


Só pra dizer...
Eu amo a língua portuguesa. E não sei mais nenhuma outra. Fiz um curso aí de leitura técnica de inglês que me permite mais ou menos acompanhar o que se produz na minha área de conhecimento e pronto. Apesar do meu xodó ser a última flor do Lácio, assumo que tem palavras e expressões que parecem que ficam bem melhor em outra língua. Por exemplo: c'est finit. Não tem dúvida, tem? Acabou, pronto, não dá mais zé mané. Ou "Io ti voglio bene", putz, essa frase é quase um abraço. Ou sine qua non. Dá uma força imensa pra condição. Ou dá ou desce, não tem jeitinho. 

Assim é amazing. Não tem nenhuma expressão que se lhe assemelhe. Como ele te faz sentir? Amazing. Conhecê-lo foi...amazing. Sua voz? Amazing. Receber sua ligação só pra saber se você está sorrindo? Amazing. Imaginar seu abraço, sua boca...amazing. É isso aí, sininhos, risos, guirlandas, fogos, barulhinho de mar, guarda-chuva vermelho, café, tudo junto...amazing

Mas pra mandar se danar, pra xingar, pra chorar e resmungar: "dar a volta por cima que eu dei quero ver quem dava"....nada como a língua mátria.


...porque eu não sei cantar


(João Caetano) 


A Maria, O Preá

Se houvesse um banco de praça pra nós. Ou cartas em papel de seda. Ou bilhetes em embrulho de pão. Se. Eu diria, então, querendo fazer as palavras mergulharem em seus olhos, que você não tem conta aberta aqui. Que eu não faço contabilidade de bem querer. Que você não me deve nada. Que eu nunca quis mais que um querer. Enquanto é bela palavra. Devia ser verbo, porque a conjugo. Se - banco, papel de carta, embrulho de pão - eu diria: eu só fiz te querer, tão mal, tanto bem. E, tateando a impossível compreensão, eu prolongaria o mergulho, as palavras ofegantes, pra te dizer que eu descobri, desde antes de saber que isso era de se descobrir e não uma certeza de bolso, que somos absolutamente sozinhos. E que o seu partir é só um lembrete da minha angústia e não a razão dela. Eu diria que se faço drama é porque não sei  fazer poesia e que nem um nem outro deviam lhe chegar como uma cobrança, mas como uma tentativa de humanidade. Se me cortar a pele, eu sangro, mas é o sangue quem sempre esteve aqui, não a ferida. E é ele, sangue, que ainda estará quando tudo for memória e cicatriz. Se houvesse banco de pão, embrulho de seda ou papel de praça eu tomaria o lugar das minhas palavras e mergulharia em seus olhos, só pra de lá arrancar o meu reflexo que tem o teu reflexo no meu olhar. Mas não tendo nem pão, nem praça, nem seda, desembale sua vitrola e em rodopios virá a minha verdade:


12 comentários:

Glória Maria Vieira disse...

Liiiiiiiindo demais, né?! Ai, Luh, pode me chamar de broquinha, mas o que significa mais ou menos Amazing e "Io te voglio bene"?:~

Beijo, maravilhosa!

Lica disse...

ô nega feia, sabe que não comento, mas não me contive:

1. Sabia que o "morreu maria preá" ia ser bom, mas foi tudo de bom.

2. Não sei se gostei mais do amazing (tu usando termos em inglês, quem diria) ou de ver nosso papo tantas vezes no post...

3. Ah, acho que descobri: gostei mais da vitrine. Gosto do nariz colado, porque ao contemplar o objeto do desejo, ficamos cara a cara com nós mesmos, ali refletidos.

4. Mas não será a última vez (graças a deus, porque rende ótimos posts)

Beijos (eca)

Menina no Sotão disse...

As vezes eu simplesmente não sei o que dizer. Primeiro, fiquei imaginando um caminho e depois caí no riso com a questão das línguas. Eu quando estou brava só sai em italiano. kkkkkkkkkkkkkk E tenho dúzias de palavras que não fazem sentido pra mim em português.
Amo "missivas" e "farfalla". "Amore mio" e "de rien"... Tenho uma verdadeira lista aqui em meu ser. rs

Depois disso voltei para o caminho e fiquei no meio da estrada vendo passos que não são meus. ai ai ai
bacio

Rosa Lopes disse...

E pra expatriada então? Vc não imagina a força que tem um "ôxiii". Chiadinho, chiadinho no final.
Bj

Atitude do pensar disse...

Me vi menina, São paulo, vendinha do lado de casa, meus olhos grudados.
Amo línguas, reparo cada sotaque e lá estou eu: fulano é do Texas, siclado é de Londres. Ah, você é russo.
Mas amar, amo espanhol, latim (fiz até um curso quando cantava em coral) e francês, mas inglês sempre fugi.
E Português, com nossa eterna briga, mesmo um querendo o outro.

"O sangue que sempre esteve aqui". Jamais vi por esse ângulo. Gostei.
Abraços apertados que aquecem - aqui tá um friozinho gostoso.

Allan Robert P. J. disse...

Aprecio a minha lígua, apesar de maltratá-la. Leio-a bem, mas me falta a eloquência [tinha trema, antes].

Antoni Tabucchi, escritor italiano vivendo em Portugual, ao ser perguntado sobre onde ele se sentia em casa, respondeu: "Minha casa é a minha língua." Tem a minha solidariedade. E morreu Maria Preá!

Beijoca :)

PS - "Ti voglio bene" [ti]

Borboletas nos Olhos disse...

Também ti voglio, Allan...;-)

Ahahah, tendi, viu. Grata, já corrigi. E sim, minha casa é minha língua...Fala, Mangueira! Enfim, beijin!

Joana Faria disse...

Nada como a língua mátria mesmo. E concordo com a Rosa: Nada como um "ôxe". Não tem tradução.

Adoro a menina na confeitaria, quase atravessando a vitrine. Quem nunca foi ela?

Rafa disse...

Te voglio bene... eu quero esse abraço. Pode ser agora?

Bj

Lori disse...

Amazing!!!
Saudade

Glória Maria Vieira disse...

Amazing ao extremo...

"eu só fiz te querer, tão mal, tanto bem." Sua fantástica!

Long Haired Lady disse...

isso de xingar na lingua mãe me fez lembrar no hotel em NY, o recepcionista me atendeu mal, e eu mandei um monte de xingamento em portugues , tanto que o gerente veio loguinho resolver! rsrsrs

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