terça-feira, 19 de abril de 2011

Minha Paleta ou Uma Trama de Impossíveis



 "pinto a mim mesma 
porque sou sozinha 
e porque sou o assunto 
que conheço melhor".
  
  

   
  A verdadeira natureza do ser é a angústia. O copo de uísque faz um arco imaginário dispensando réplicas. Só angústia, repete. Sua displicência, claro, é um engodo, seus olhos borrados de esperança espreitam na espera do interesse dele...que nada diz e, no contraponto de seu arco, acena, sério, para o bigodudo com ares de Groucho que reclama dos preços de um artigo qualquer. A verdadeira natureza do ser é a espera, ela pensa, e dá uma risada alta pra disfarçar o embaraço. 

       Ela sabia que tinha um encontro e, por isto, arrumou-se com esmero. Até pérolas colocou. Falsas, é claro, mas é preciso lembrar, colocou pérolas, assim se entende que era uma data importante. Vestido quase novo, guardado desde o enterro da irmã, mas preto sempre lhe caiu bem, um pouco de sol afastou o mofo e ela está bonita, um pouco de água de colônia, um batom bem claro, um pouco de coragem e abre a porta.

      Ele está online, ela vê e ri. Sinal verde, trocadilho barato, mas o desejo às vezes lhe vem assim, querendo ser vulgar. Ela se prepara, como se. E deixa o óleo escorrer nas coxas e se esfrega em lenta antecipação do nada. Barriga, Peitos. Ombros. Ela, escorregadia. Camisola vermelha que lhe roça o corpo. Bico dos seios duros, já, ela espreita a tela. Verde. Olá. Olá. Ela escreve. Ele escreve. Ela escreve. Alinhar letras é como despir-se. Rosto afogueado. Corpo afogueado.

       Você na estrada, o asfalto me enciumando como nenhuma mulher conseguiu. Sim, teus olhos vagueiam em paisagens outras. Queria-os presos ao meu corpo. Sim, teus ouvidos captam vozes e sons que desconheço, queria-os presos ao meu dizer. Queria-te livremente escravo do meu desejar-te.

     Eu me lembro de você. Você é o meu coração batendo rápido, a boca seca, o sal escorrendo dos olhos. Você é o latejar no ventre, o grito interrompido, o sorriso permanente. Você é em mim o tempo todo, como eu poderia esquecê-lo? Recebi seu recado e me entristeci, como você ainda pode pensar que eu o evitaria?

      Está na cozinha, sentada no ladrilho frio e chora. Eu tinha um destino outro, encaminhava-me para um texto mais na frente, buscava palavras para escrevê-lo, mas aquela cena tão pungente e ainda sem explicação, vista em um desatento movimento dos dedos, escravizou meu olhar. Detenho o fluxo de dizeres do outro conto, é ela, seu pranto e o chão da cozinha que me atraem. Ponho-me a tecer conjecturas, recortes de estórias para dar sentido as lágrimas que caem sem soluço. Olhá-la é um espanto. Seus ombros movem-se com uma graça de dançarina, independentes do resto do corpo que se mantém surpreendentemente imóvel. Apenas os ombros e o rosto emitem algum sinal, não necessariamente de vida. Na face riscada de lágrimas, vê-se esporadicamente uma lembrança e um espasmo, o pranto se intensifica, intensifica-se o movimento dos ombros. No momento seguinte, uma nuvem tolda-lhe a fronte, o rosto relaxa, os ombros acalmam-se num embalar-se de consolo, até que a memória lhe fira novamente a vista e, de novo, o corpo já morto, frio e rígido, o rosto em ríctus de agonia de morte. O que será que ela lembra para causar tal espanto e sofrimento?


É assim que surge alguém em mim: em uma frase, um movimento ou uma espera. Eu queria escrever sobre um jovem chinês viciado em ópio. Mas não sei. Não sei escrever sobre mortes que não estão em mim. Só a morte íntima é que sabe se tornar letra. Ou cor, pensando na minha querida Frida que tantos auto-retratos fez - até quando não está neles - e de quem roubei a citação que serve de epígrafe ao post (a imagem aí do lado é uma pintura de Picasso).


Se há alguma possibilidade de redenção pela escrita, eu desconheço. A escrita é entroncamento: por um lado tem função de reconstruir e negar a finitude; por outro ela mesma se apresenta precária trama simbólica com a qual procuramos suturar o vazio que se abre em nós pela perda que engendra a angústia advinda da escrita. Sempre temporária em seu efeito, a rede simbólica com que narramos o indizível não o abarca por muito tempo, a concretude sempre precária da trama textual apenas ressalta os furos e a falência daquilo mesmo que se tentou recompor. Assim, a escrita é a teimosia de não se morrer. Mas não há garantias. Cada texto insistentemente iniciado é uma espécie de renascimento pela palavra - ou pelo ato de escrever ou pela leitura do escritor que se vê retratado ou inventado no que escreve ou pela leitura de alguém que reescreverá, em sua leitura, o texto à sua maneira. Como diz Pontalis - e eu com ele - a linguagem chega sempre cedo ou tarde demais, quando o objeto não está, esfomeada, já que nasceu da perda e nada tem que lhe pertença. A linguagem tudo incorpora, o corpo e mais que ele, mas não esgota, porque não é o que incorporou. 

Assim, todo dia e a cada texto, insisto na vida aproximando-me da morte. Escrever e reconhecer toda falta: de tempo, de corpo, de ser. E é negar em cada traço o vazio. Impossível empreitada de Sísifo. 


7 comentários:

Juliana disse...

ô, que bonito isso sobre a escrita!

por Rapha C.M. disse...

E como você faz tão bem! Confundindo-se entre as palavras, torna-se a própria escrita, descrita com beleza e genialidade!
Adorei!
Bj

Rafa disse...

Lindona, pra mim a escrita é tentar salvar o momento de seu desaguar fatal no nada.

Bj

ALEX disse...

Vida e morte
Morte e vida
Pode um viver sem o outro?
Por isto eu vou vivendo, caindo , chorando, sentido FALTA, ou seria SUA FALTA?

Um cheiro
Alex Ramos

Dona Lô disse...

Também estou no chão da cozinha...

Atitude do pensar disse...

A escrita é uma das melhores artes, pois fala por si só, podendo ter várias interpretações.
Além disso, somente ela - cantada ou letrada, é capaz de dizer aquilo que se está dentro. Assim como é capaz de encher e esvaziar.
Bjin, querida.

Joana Faria disse...

A escrita é a arte mais completa. Na escrita a imagem vem, a música vem, os outros sons e os cheiros.
Mas escrever exige muita coragem. E essa eu não tenho. Por isso que eu amo vir aqui. Você tem e de sobra!

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