sábado, 2 de abril de 2011

Meu Querido Diário


Tenho trabalhado um bocado. E, hoje, trabalhei e trabalhei feito a mulher do sal (conhecem a história?). Nem tempo pra dançar na varanda eu tive. E quando eu já devia ter parado de trabalhar, fui pra casa da amiga e ficamos cinco horas seguidas preenchendo um formulário do PROEXT. Para o bem maior, mentalizei. Internet lenta, questões repetitivas, mas nós ficamos firmes. Muitos itens depois, a combinação: você termina essas duas coisinhas, eu termino essas duas coisinhas e amanhã a gente se encontra pra bater o martelo. Em casa passei um tempinho (tipo uma hora) lendo resenhas dos alunos e daí resolvi encarar a tarefa final do projeto. Abri o sigproj e quede projeto? quede? quede? vasculha daqui, vasculha dali, ligo desesperada pra amiga, pois é, o danado do site engoliu nosso trabalho sem direito a deixar nem penas de fora.



 Aí, querido diário, fiz o que eu podia fazer:

1. Fui até a geladeira e separei uns camarões. Temperei com sal, canela, curry. 
2. Abri uma long neck muito, muito gelada. Tirei a roupa. 
3. Abri a torneira da banheira. Acendi velas, linda velinhas em recipientes em tons amarelo e marrom. Coloquei música: tangos inesquecíveis. Sabonete líquido e tabletes efervescentes que vieram de longe e ficaram esperando este dia (ou noite).
4. Desci e peguei outra cerveja. Os camarões com sede e inveja, dei-lhes um pouco de shoyu. Azeite quente, bem quente. Camarão rosado de um lado, rosado de outro, baixa o fogo. O resto de vinho branco na geladeira? Na frigideira. Uma colher de molho de tomate, uma colher de requeijão, desliguei o fogo (já cozinhou assim, pelada? é libertador). Verti tudo num prato fundo, ficou um molho grosso, camarões macios e completei com batata palha pra fazer contraste de textura. Outra cerveja.
5. Subi as escadas equilibrando tudo (momento de alto risco, estilo esse aqui). Montei a mesinha ao lado da banheira. Reiniciei o cd, apaguei as luzes e entrei na banheira. Liguei a hidromassagem e aí começou a surgir a espuma, igualzinha de filme. Deitei e deixei que tudo fizesse efeito: o camarão morno, a espuma brincalhona, a cerveja gelada, a música provocante. Espremi uns coraçõezinhos com óleo e fiz a mão deslizar me fazendo macia. 
6. Quando o CD acabou, o camarão era só memória na língua e a cerveja já pedia outra a um tempo (lembrete: colocar um frigobar no banheiro), levantei-me, molinha, deixei o chuveiro levar a espuma que insistia em me fazer companhia. 


Eu Só Queria Dizer

Em círculos, eu escrevo em círculos. São os mesmos desejos, as mesmas figuras, as mesmas  palavras. O mesmo ponto final, sempre desejando ser vírgula, intervalo, suspiro antes que, de novo, seja este um corpo feito letras que te desejam. Em círculos, escrevo em círculos, eu não vou a lugar algum, todos os lugares são sempre o mesmo, aquela estação onde seguro um coração em forma de mala e anseio por mãos, cheiros e sabores que sempre adivinhei. Em círculos, eu escrevo em círculos como palavras fossem braços e eu pudesse - em ditos - abraçar-te, trazer teu corpo pro meu. Tento fazer, de círculos, estrada. Ou redemoinho, que te alcance e te arrebate. Eu só queria dizer: vem.

Ou, ainda e de novo, com Adélia, sempre ela: 

O Amor no Éter
Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.



Eu Só Queria Dizer II


A Mulher do Sal
Ele e ela. Sacos de sal pra carregar. Ele forte e de pernas compridas. Ela magrinha, resistente e de pernas menores. Cada um com seu saco nas costas, saem andandao. Ele vai bem na frente, anda um bocado. Quando cansa, senta, ela chega depois, coloca o saco no chão, ele levanta e diz (sem maldade, só falta de empatia mesmo): "opa, descansados, vamo que vamo". E assim seguem, uma, duas, três, tantas paradas quantas necessárias ao cansaço dele e nada de descanso pra ela que chega sempre quando ele já recuperou as forças.



13 comentários:

Juliana disse...

Sem fôlego aqui por causa dos círculos. Que bonito, gente! Q- u-e- b-o-n-i-t-o!

ah, e Charlie Brown,né? Entendo tanto esse contemplador de estrelas!=p

Long Haired Lady disse...

êta mulher pra saber viver!!!!!!

Dona Cor disse...

Meninaaaa que eu adorei isso aqui. Como vc escreve bem..que vontade de comer camarão hahaha. Lindo LIndo.
Beijos

Rita disse...

Em círculos: nossa, patenteia aí, que ficou show.

E, né, tadiiiiiiiinha da mulher do sal.

Bj
Rita

Danielle Martins disse...

Banheira, camarões e cervja gelada... que inveja!
Bjs!

Belos e Malvados disse...

Inveja do seu savoir-faire, identificação com Charlie Brown e achando super triste a hístória da mulher do sal: igual a tantas, né?

S. disse...

o sempre poder de contar-se contando-me. te amo, amo, amo.

Glória Maria Vieira disse...

Em círculos, eu comento em círculos. Já disse que sou sua fã?!

Júlio César Vanelis disse...

Ai, que saudade de você, madrinha... Finalmente consegui uma brecha para vir aqui te vistar... E a visita nunca me decepciona, sem texto(s) Lindo(s)... Fiquei até com água na boca do seu camarão (#guloso)... hahahaha...
Adorei o texto, mais uma vez... E de mulher do sal todos temos um puquinho em alguma época da vida, né? XD

Um beijo procê, madrinha... até o próximo

Dona Lô disse...

Eu fiquei com inveja. Não tenho banheira, não moro só prá ter tal privacidade e desenvolvi alergia aos camarões, de longe minha comida preferida.
Ainda assim, me felicitei com seu merecido descanso.
Eu não queria ser a mulher do sal. Mas eu sou...
Você escreve em círculos. Eu leio em círculos!

Menina no Sotão disse...

O meu diário ontem me contou que teve filme, cama, abraços, beijos e silêncios longos para as lágrimas por causa da comédia romantica. Depois teve queijo, vinho, sorrisos que viraram gargalhadas. Taças vazias e penumbra. Choveu no começo da noite e o cão, abandonado no meio do caminho ficou lá se espreguiçando enquanto espiava a mim e a ele pelos cantos. Soube que tudo apagou e quando dei por mim já era dia e os círculos eram os mesmos de sempre. rs
bacio

Rafa disse...

Ah, essa banheira foi estreiada então em grande estilo! Eu, nesses dias, sou a própria mulher do sal, só que o homem é a vida "vambora"... (reparou no blog parado?)

Bj

Atitude do pensar disse...

Tenho mania de liberdade - isso mesmo mania. Daquelas que me fazem voltar do meio do caminho, somente para estar na sala. Com o som. A gata. As panelas. E eu.
Bju, bju,
K.

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