domingo, 3 de abril de 2011

A Menina que Roubava Posts III

Eu faço versos como quem morre*
Para o Zé. Não, por causa  dele.

Sou eu. A menina sou eu. Se o termo menina já está resolvido a debalde das "autonomias" e "paternalismos" que aceito, o roubo me fez mais exigências para assumi-lo. Mas, recorrente, nada me resta e não tenho dificuldades de aceitar o epíteto e a função: eu roubo. Na calada da noite ou anunciando em trombetas eu roubo as idéias do Zé. Já lhe roubei bem roubada uma aqui. E me redimo em acusações: a culpa é toda e inteiramente dele. Que se há de fazer se há tal provocação a zanzar no ar: O que é tão bom e ainda assim dá-lhe engulhos? Ah, bem sei que há bem mais belezas assim: 


...mas já captaram a idéia. Primeiro confesso, o que mais gostei ao ler foi poder cantarolar: "nós separados nas arquibancadas, temos sido tão chegados na desolação", se nos gostos há abismos (apesar de Adélia e Cornélio), neste seu (dele, Zé) desgosto, encontramo-nos. Não que eu conhecesse o  soturno Zurbarán. Não. Mas nem li o texto e já as imagens me davam tristes idéias de contenção. E eu sou do prazer e do riso, ainda que insinuado. Depois do uhhuuu inicial por sentir-me ali, perto dele que tanto admiro, passei a lembrar-me das minhas birras de estimação. E logo me chegou tão certinha e límpida de tanto que sempre a acarinhei. Acarinhei reservadamente, adianto, sempre tive vergonha de não gostar (até agora, até agora) do movimento concretista (concretismo?) especialmente na poesia. 

Imagem daqui

Deve-se muito por aqui aos concretistas, para além do seu fazer poético. Eles nos deram a tradução da Ilíada e das obras de Joyce, Rilke, Maikovski, entre outros. E, na produção original, eu aprecio a audácia de brincar com formas, cores, montagem e decomposição das palavras, mas, francamente, a proposta de anulação do eu-lírico me afasta (e já que estou pra revelações Oswald de Andrade também não habita meu top qualquer coisa não). Fico sempre com Paul Valery que afirmou que a poesia é uma hesitação entre o som e o sentido. Gosto de se querer revolucionário da poesia concreta, mas não do que esta revolução me oferece (ou não me oferece, mais exatamente). A poesia concreta me deixa só. Só de mim, ela não me remete para um mais além onde morro, gozo, sonho e em mim retorno. Ela me deixa fria, sem riso nem pranto, não me deixa seuqer sem nada que seria uma forma de convocar a angústia. Ela me deixa ou eu a deixo. Falha tão minha, sei bem que há tantos encantados. Mas, como já lá comentei, nem tudo que é admirável é amável, ou o que seria do amarelo se todos etc. vermelho? 

Para não ficar só nos maus bofes (mas quem quiser ver mau humor mesmo não deixe de ler meu desabafo em Que Passem os Hunos ou Meus Ódios de Estimação) procurei um mimo para o Zé, um mimo que me redimisse do roubo. Pareceu-me bem, em oposição ao sofrimento material  apresentado por Zurbáran, o êxtase enfático da Santa Teresa de Ávila de Bernini:



 Para melhor explicar do que falo:


Detalhe do Êxtase de Santa Teresa de Ávila, Bernini
Imagem recolhida daqui
Mais de perto? Pois seja...


Imagem diretinho daqui



OBS: Este post teria uma segunda parte que relaciona pessoas lindas e cristal, mas não combinou com tantos resmungos, fica para amanhã.


* Desencanto de Manuel Bandeira:


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora 
Não tens motivo nenhum de pranto.


Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.


E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
Eu faço versos como quem morre.


7 comentários:

Menina no Sotão disse...

Aqui é noite, fria, com nuvens e ventos, insensos e velas. A música está se repetindo a horas e eu não colhi remungos e esse "roubo" foi supremo. A mim chegou como eco porque já resmunguei coisas parecidas (bem semelhantes) dias atrás. rs
bacio e boa semana

Juju Balangandan disse...

Esses versos de Bandeira, que delícia, estavam perdidos em algum canto da minha memória. Adorei o resgate. Obrigadinha!

Long Haired Lady disse...

Uma vez um grande arquiteto, o Mario Botta, disse que nunca inicia um projeto em uma folha em branco, ele precisa olhar para algo e se inspirar.

Cadinho RoCo disse...

Existem roubos e roubos que nem chegam à dimensão daqueles roubos que constituem verdadeiros roubos.
Cadinho RoCo

Cáh disse...

vc só sabe ser linda Borboleta.... até nos teus roubos e resmungos...



Um beijo!

Rita disse...

Minha relação com a arte é uma de encantamento. Gosto ou não gosto, compreender seus propósitos é outra coisa. Tem que arrebatar. O concretismo nunca me encantou, mas nunca olhei de muito perto. Vá saber.

Quanto à escultura de Bernini, em que mundo é possível a indiferença, não é mesmo?

Mas bom mesmo é o Bandeira que esperou a morte por longos anos desde que se conheceu por gente. Longos anos. Aprimorou-se em falar dela, como bem se vê.

Beijo grande
Rita

Atitude do pensar disse...

Eu li tudinho, mas lendo, só conseguia lembrar de uma história real contada ontem na palestra de psicopatologia. A cena: Os "loucos" em visita a um museu somem de repente. O psiquiatra que os acompanha os encontra ao iniciar uma performance...a santa, os loucos, o sangue, e a crença.
Arte para mim só não entra quando é muito subjetiva, pois de subjetividade já basta minha mente.
Beijocas,
K.

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