terça-feira, 5 de abril de 2011

Fruto

Porque as águas do desejo são turvas
e o que percorro tem cheiro de sexo.
Aqui, eu o tenho nos olhos,
mas o sinto entre as pernas.
E lateja o corpo.
A pele pede mãos,
 pede língua,
pede sonhos.
Porque em vermelho eu sentiria seu gosto
e lamberia sabores, em rubro, em rubro


Mordi a fruta aqui



Vento morno de fim de tarde, rede na varanda, o vai e vem quase à revelia, a perna escapando do pano, o pé em ponta buscando manter o movimento. Meio cochilo, suor escorrendo na pele em arrepios. A presença veio antes, antes de eu ouvir a voz que veio ferindo fundo, o corpo reconhecendo o chamado que me desconhecia. Moça? Levantei, rápida, as alças do vestido querendo ficar, escorregavam e ofereciam ombros que o olhar alheio logo aceitou. De novo: Moça? e eu, tonta, embaraçada como se pudesse saber o desejo que não sentia. Antes, antes não sentia. Agora: tonta. É que a voz. Olhei pra ele enquanto ele se olhava no meu olho. Estranho, como se sempre tivesse estado aqui. Estrangeiro de tudo, dele mesmo, aportava no meu querer assim, de uma vez. Moça? Uma terceira vez. Aí eu disse: Sim. Sim era tudo que eu queria dizer a ele. Sim.

Disse sim e esperei. Parecia ouvir suas perguntas, mas só ouvia o sangue que batucava anseios que eu nem sabia nomear. Ele perguntava e perguntava e eu respondia como quem não pensa, eu era só corpo, a besta no ventre, rugindo, ansiando, as mãos frias antevendo pele, o rosto quente, o sangue querendo, querendo, querendo. Pouso? Escuto, enfim. Quarto é o que ele quer. É o que eu quero sem nunca ter sabido nada deste querer. Seu olhar me olhava em espera, eu por fim possibilitei que ele deitasse mala no quarto que lhe cabia na Pousada e fugi pra escapar de mim mesma. Desejo queimando até onde eu nem sabia que se podia querer.

Éramos de poucas palavras. Não as trocávamos, antes as entregávamos em desafio. Eram seus olhos que diziam. Não, engano-me, seus olhos perguntavam. Perguntavam em línguas que eu traduzia e entendia, dando em repostas sempre o mesmo sim.  Eu o encontrava: corredor, varanda, rua, saleta, cozinha. Ele estava sempre lá, seu olhar adivinhando meu corpo, antecipando o passeio das mãos, planejando o caminho da língua. Ele me sabia, eu sentia o que nunca sentia, eu já não era, o desejo é que era.

Seu olhar ensinou o meu. Ensinou o querer. A cobiça. Olhava e queria. Olhava e despia. Olhava o corpo dele como se os olhos fossem mãos, como as minhas que me acompanhavam mesmo com luzes apagadas. Agora eu vivia em vertigens. Olhava meu abismo e queria cair, queria saber, queria ceder ao convite que não se fazia, o corpo pedindo numa fome que me atormentava. Até que. No corredor as mãos chegam antes dos olhos. Empurrada contra a parede, o gemido é de desejo. Ele é todo olhar. Suas mãos me olham, sua língua me olha, seu corpo todo me olha entre as pernas que mal me sustentam. As roupas não evitam que eu sinta: quente, quente, quente. Suor escorre no corpo que eu já reconheço dele, só me resta o olhar que chora, eu toda úmida: rosto, corpo, sexo. Eu, em possibilidades: sim!

Ele me aperta, abre, desvenda. Ele quer mais. Eu quero tudo. São seus olhos que eu sinto bem dentro de mim. Em vôo livre, o corpo é o mistério do tudo sentir. Como se o corpo contasse uma história. Cantasse? Meu corpo sem controle aperta os seus olhos e goza.

Não sei do tempo, mas logo há a necessidade de restaurar o olhar tão nublado. Minhas mãos escorregam em carícias. Não, ele diz. Não?, meu olhar pergunta. Não acabou, suas mãos respondem me levantando, me conduzindo, me abrindo portas e botões, no quarto dele só vejo cama. Agora, lento, ele me delineia, artíficie do meu anseio. Desejo também é riso. Tudo ele toca, tudo ele cheira, lambe, morde, esfrega, ri. Tudo ele vê. Eu, senhora absoluta do desejo dele. Eu, entregue. Pedindo, pedindo, pedindo. Mas antes, seu olhar diz e ele toca. Mas antes, seu olhar diz e ele cheira. Mas antes, seu olhar diz e ele beija. Vermelho talvez seja o céu.

Vou embora hoje. Seus olhos se fecham, Como eu posso ouvir sem os olhos? A partida imediata prolonga-se na frase não entendida. Como? Vou embora hoje, mais forte, mais rápido, dessa vez. Pra ter certeza. Pra dar certeza. Estrangeiro. Mas partiu cego. Levou meus olhos e deixou o corpo. Queimando.


16 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

prosa BEM poética mesmo, e a fruta coma borboleta têm tudo a ver com a reprodução: a vegetal e a animal.

Menina no Sotão disse...

Respirando fundo... rs
Bem, ainda estou por ali, junto a soleira da porta, ausente de sons e carente de movimentos. Nem mesmo um aceno. Ele dizendo que vai, ela nada dizendo. Nem mesmo um pedido "fica". Nada. Eu sei, eu fiquei ali, na soleira da porta. Quer por favor me mandar embora. rs
bacio

Clara Gurgel disse...

Ui,ui,ui...

Cáh disse...

Ahh, puta merda viu! (perdão a palavra, mas digo isso quando estou emputecida! rs)
Tudo bem vc colocar textos sempre tão perfeitos e cheios de curvas invisiveis, mas daí... a deixar minhas narinas entupidas e meu peito estufado buscando ar depois deste?? tsc tsc tsc, sacanagem!

"Sim. Sim era tudo que eu queria dizer a ele. Sim".

SIMMMMMMMMM, eu tbm diria hj!


"Seus olhos se fecham, Como eu posso ouvir sem os olhos?"

verdade! Porque por aqui eu ouço, sim, eu ouço....

Talita Prates disse...

gostei muito do que vi por aqui.

um abraço,

Talita
História da minha alma

Rosa Lopes disse...

E eu estou insuportavelmente apaixonada...
Bj

Atitude do pensar disse...

Lu, li ouvindo-a na voz de bethânia. Entre a multidão de vários sins. Olhares. E o não.
Nas linhas da despedida. Do desejo. E o vermelho do céu.
Casou tão bem...você e ela.
Você e o estrangeiro.
Fico aqui, sentindo...
Bjin,
K.

Dona Lô disse...

Eu provo o texto vermelho, o gosto rubro do desejo é picante e doce...
Os estrangeiros levam consigo pedaços de nosso coração, sabe?
Mas eu também pego minhas 'lembranças'... A este estrangeiro, no último encontro, deixei claro que traria comigo um pedaço dele, um de cada vez, até que ele se veria por completo em minhas mãos como já se encontra em minha pele.
Estou deliciada!

Silvia Varela disse...

amiga... amiga...
acho que precisamos conversar...

Danielle Martins disse...

Tem selinho pra você no
http://olhosdocoracao-danielle.blogspot.com/

Bjs!

Júlio César Vanelis disse...

U-A-U...
Eu juro que fiquei até tonto com esse texto... Caraca, madrinha, sinestesia é o seu nome... Nunca vi alguém expressar tão bem sensações de tamanha complexidade... Por isso que eu sou seu fã... Você consegue nos dar o que muitos tentam mas não conseguem: sinestesia...

Um beijão, madrinha... Até o próximo

Glória Maria Vieira disse...

UAU!:O

Arrepiada, emocionada... Queimando estou eu! Que leitura fantástica do olhar, do corpo, dos sentimentos, Luh! :'~

Você é incrível!

Long Haired Lady disse...

hummmm
quente por aqui...

Allan Robert P. J. disse...

Ziguezagueando sedução. :)

Rita disse...

Gente, que calor é esse, hein, hein, dona bor-bo-le-ta?

:-D

beijinho,
Rita

by Rapha C.M. disse...

Oiii!

Tenho um selinho para vc lá no blog, a minha mais Doce recém descoberta!

BjOosss....

http://eaivaificarnessa.blogspot.com

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