sexta-feira, 1 de abril de 2011

Eu Não Esqueço: Brasil, Nunca Mais

“A cada companheiro tombado
nenhum minuto de silêncio
mas toda uma vida de luta”

Exposição Direito à Memória e à Verdade -
 a Ditadura no Brasil: 1964-1985
Tenho claras as sensações de quando li Brasil Nunca Mais. Eu nasci nos anos de chumbo e cresci junto com a lenta "abertura política". Cresci sabendo Henfil e o irmão do Henfil. Cresci sabendo "Apesar de Você". Cresci sabendo Mafalda. E o Pasquim. Cresci. Mas nada nunca me preparou pra ler Brasil Nunca Mais. Nada. Nunca poderia estar preparada pra saber do pau-de-arara, não em conceitos - estes eu já sabia, mas em carne de pessoas penduradas. Nunca poderia estar preparada  pra saber dos eletrochoques que faziam perder a noção de si, que agiam onde mais frágil somos: no sexo, língua, dedos - como se os modos de encontro com o outro fossem condenados a priori. Nunca pra saber da pimentinha, dos afogamentos, da geladeira, da cadeira do dragão (quando li sobre ela eu chorava em soluços e espasmos e eu me condenava por chorar assim por tão pouco já que eles tinham sentido tanto). Nunca estaria preparada pra saber do trivial: lesões corporais, palmatória, queimaduras de cigarro, socos, pontapés. Nunca para a tortura psicológica, os dias sem banho nem sanitário, ameças à esposa e filhos, ficar sem dormir, o desespero de ouvir os gemidos dos outros torturados sem saber quem é a vítima da vez e consolando-se por não ser ele e sentindo culpa por sentir este alívio. Como eu poderia estar preparada? Nunca. Nunca. Nunca. Nunca posso pensar em tudo isso e seguir vivendo como se um dia fosse apenas isso: a sequência de outro.

Quando eu lembro de Brasil Nunca Mais eu me pergunto que estranha operação mental nos protege de enlouquecer de arrebatada culpa. Porque somos humanos e permitimos que tanto de mau e cruel (não direi desumano, se é homem que faz, é tão humano quanto abraçar um amigo ou acalmar o filho depois de um sonho ruim) aconteça. E permitimos que fique esquecido. Que seja calado. Que não seja obrigatório ler o livro de D. Paulo e saber das coragens e do medo, saber dos sofrimentos e das pequenas vitórias, saber das perdas, das angústias, das perguntas. 

Como, como, como seguimos sabendo que há mães que sequer sabem onde está o corpo do seu filho (porque está morto, está morto está morto e dói como se fosse filho meu mas não é e não dói igual, claro que não, eu só quero pensar que sim porque se elas sofrem mais que isso...como seguem respirando)? Como seguimos sem imaginar nem gritar em revolta por tantos que ficaram sem seus companheiros de cama, de bar, de planos? Como não pensar em Nelson Rodrigues, tão arrogante, pedindo, perguntando, rastejando pelo filho?

A angústia, ah, a angústia. A angústia dos que se preocupavam claro, morriam de preocupação ou morriam por preocuparem-se como Zuzu Angel. A angústia dos que se calavam. A angústia dos que ouviam os que não se calavam e temiam por eles. A angústia. A dor. O desespero. A solidão. Porque o outro era sempre perigoso, possível delator, possível inimigo. Uma solidão doída e angustiada. 

Há quem me fale das perdas do outro lado. Das lutas armadas, das guerrilhas urbanas. Eu digo que não tenho balança para o sofrimento. Não tenho fita métrica para a crueldade. Não tenho barômetro para a infelicidade. Tenho é, em mim, cicatrizes alheias, invisíveis, que ardem sempre que penso que estão em mim só como memória, mas foram sangue em corpos mortos. Corpos que antes amavam, que comiam, que riam, tinham preconceitos, eram indelicados, brigavam, choravam, viviam. Corpos. Corpos que antes eram gente. Como eu. Só que mortos. E, antes, torturados. 

Não, eu não tenho balança para a dor mas ela me doeu quando li e dói sempre que lembro. Que venham dias em que mais que lembrar possamos saber, chorar nossos mortos e reconstruir um sonho. Porque hoje, quando durmo, é em ausências que esse sonho chega. 

Eu cresci, mas ainda há, em mim, a menina que cantava em suave e sentido desejo, com olhos além do que lhe dava o Chico:


Eu era tão criança e ainda sou
Querendo acreditar que o dia vai raiar
Só porque uma cantiga anunciou
Mas não me deixe assim, tão sozinha
A me torturar
Que um dia ele vai embora, maninha
Prá nunca mais voltar...



Links:
D. Paulo Evaristo Arns lançando o livro Brasil Nunca Mais, em Natal/Rn. Único lançamento conhecido.
Resenha precisa do livro Brasil Nunca Mais.
Prefácio do livro Brasil Nunca Mais.
Modos e Instrumentos de Tortura.
Eu jamais poderei deixar de me sensibilizar com Frei Tito.




Essa postagem foi generosamente acolhida pela Campanha DesarquivandoBR que tem como propósito abrir os arquivos da Ditadura Militar. Este é o terceiro momento de blogagens coletivas e fico feliz de participar. Você sabe tudo, tudinho, com mais profundidade aqui no Blog da Niara: Pimenta com Limão. Lá você encontra também o link para textos muito melhores que o meu. Mas é sempre bom ser formiguinha.


15 comentários:

Long Haired Lady disse...

Não sei o que é pior ler e saber do que aconteceu e ainda não acontece ou não saber de nada.
a desinformação, o não querer saber é a pior das cegueiras.

Drixz disse...

Muitas coisas me fazem mal assim como ler o livro. Como podem os ditos democratas prestarem condolências ao Tuma? Falta de memória ou hipocrisia? Como ainda temos torturadores no poder? Pq tantos delitos impunes e esquecidos?

Juliana disse...

Caraca, que texto!!!

Cáh disse...

"Quando eu lembro de Brasil Nunca Mais eu me pergunto que estranha operação mental nos protege de enlouquecer de arrebatada culpa".


só vc viu!

Consegue transformar textos e comentários sobre coisas que poderiam ser tão simples em coisas tão intensas... rs

Fiquei curiosa pra conhecer :)


O blog ta de cara nova, sofro de uma loucura danada por mudança, a cara das coisas sempre iguais me deixa com gastrite! Mas me sinto bem, me sinto viva e crescendo com isto... A cada nova mudança percebo algo que nasceu - bonito, e algo que era muito pequeno e morreu naturalmente.

Obrigada pelas doces visitas de sempre, e por deixar borboletas por lá...

Um beijo

Menina no Sotão disse...

Dessa fase brasileira, eu só sei o que li e não foi muita coisa porque acho horrível alguém concordar com esse tipo de coisa e sei que muita gente concorda. Lembro de ouvir uma vez uma senhora dizendo que foi o melhor tempo do Brasil. Tinha acabado de estudar sobre o militarismo e não consegui compreender como alguém seria capaz de dizer algo tão tosco. Passou.
Anos mais tarde visitei a China com mio babo e vi de perto a ausência de liberdade que é tão comum, tão normal que se acabar, acho que estarão perdidos. Não sei. Eu tenho medo dessas ausências e desse sentimento bruto que surge no ser humano diante do impossível. Porque pra mim é impossível compreender esses caminhos toscos. Passou, eu sei, mas e as marcas? Essas não passam e não vão passar nunca.
O homem me assusta com suas atitudes. bacio

Atitude do pensar disse...

Eu também não esqueço. E tenho um pouco do que a Lunna partilhou.
Ao escrever me lembrei de como os negros ficaram perdidos e sofreram tanto quando a Lei de Abolição finalmente saiu...
Mas como já disse, minha tristeza maior está naqueles que não lembram - se bem que estes devem ser mais felizes do que os marcados pela época.
Bjin, querida Borboleta.
K.

Palavras Vagabundas disse...

Lu,
não esquecer é maravilhoso, mas o importante é mostrar a nova geração o que foi que realmente aconteceu, sempre.
bjs
Jussara

Patrícia ♥ disse...

seguindo! ...

barbara disse...

Quando eu tinha meus 16, 17 anos, o Brasil Nunca Mais circulava entre meus amigos. Não tive coragem de ler.

Hoje, conheci alguns de seus personagens e alguns de seus autores. Tenho ainda menos coragem de ler, de reconhecê-los ali, de dar rosto às histórias tenebrosas (apenas conhecê-los e ouvir só um pouco do que aconteceu já me jogou em um período de sombras).

Obrigada pelo texto.

beijos

Lílian disse...

Eu já estava prestes a deixar aqui um texto de indignação pela aparente mudança no nome do blog. Borboletas nos olhos era de uma poesia ímpar.
Mas hoje, só hoje, queria que elas tivessem continuado na garganta, e isso é só porque eu acho que é mesmo ali,na garganta, que mora a resistência à toda forma de crueldade. E dói um bocado saber que é assim que nós, humanos, podemos ser.

Sua empatia é preciosa. Sua sensibilidade, rara. E, por fim, não é todo dia que a gente se depara com lágrimas de verdade brotando dos olhos de borboletas.

Bom finde.

Rita disse...

Luciana, Brasil Nunca Mais levou meus dois pés para a esquerda.

Amei seu post, amei vê-lo multiplicado em seus blogs, amei muito.

Beijo grande
Rita

Allan Robert P. J. disse...

Bela inciativa. Também me comovi ao ler Brasil Nunca Mais e acho que fomos em muitos. Já antes tinha o hábito de não acreditar em versões oficiais, mas o soco no estômago veio mesmo dali.

Se ainda não viu, veja esse vídeo, mesmo que aos poucos. As imagens são muito fortes:

http://www.youtube.com/watch?v=jzSmGf0vJgw

Renata Lins disse...

E, nesses encontros de por aqui, que tem seu quê de mágicos, queria te contar que canto Maninha, sempre, e que choro todas as vezes em que chego nessa parte aí. Bem nessa parte aí. Beijos.

Anônimo disse...

Gostei do aspecto democrático desse blog. Mal coloquei um comentário que ia contra o texto desta postagem e foi removido. Competente o responsável. Considere-se elogiado pela rapidez, não pela sua alma democrática. Você é mais um ditador brasileiro, dentre tantos que vemos nesses dias, a outra face da moeda daqueles dos anos de chumbo, Parabéns por nada. Pode deletar esse comentário também. Já coloquei para fora minha indignação.

Luciana Nepomuceno disse...

Deletei sim. Assim como deletei e deleto todos os comentários dos pró-morte das mulheres quando falo de aborto, como deleto os que falam sobre direitos humanos para humanos direitos, como deleto quem me chama de rameira como ofensa, etc.

Eu não ignoro que esses discursos existem. Que essas pessoas existem. E não me esquivo de disputar nos espaços públicos. Mas meu espaço não é para ver os "dois lados". É meu pedacinho de mundo acolhedor. Meu ensaio de mundo melhor. Quem passar por aqui não vai encontrar ódio, é meu compromisso comigo mesma e com minhas utopias.

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