terça-feira, 12 de abril de 2011

Doces Bárbaros #2: O rio

(Oi! Agora eu já tenho a chave da casa e fui entrando. Licença, tá?)

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Eu confesso que gosto de espirrar. Gosto da comichão, gosto do momento de dúvida em que o espirro sai-não-sai, gosto da realização de um espirro bem dado, sonoro na medida. Gosto dos “saúde” e de interrompê-los com outro espirro. Então, quando chegaram os primeiros sinais daquela gripe, eu não me dei conta.

Estava prestando atenção em outras coisas. Nas histórias sobre cobras amazônicas e sub-amazônicas no táxi até o aeroporto. Chegar em Brasília, encontrar um hotel, wi-fi, jantar. No dia seguinte, aeroporto novamente, o horóscopo no jornal que falava sobre buscar “vôos mais altos”, o pequeno Cessna Caravan, monomotor turbohélice, que deixaria a mim e a meu chefe, após algumas paradas, em São Félix do Araguaia, no norte do estado do Mato Grosso.

A ida a São Félix naquele início de setembro permitia ver, do avião, muita fumaça e algum fogo. O padre Paulo Gabriel nos falou das queimadas enquanto nos levava do aeroporto para o hotelzinho na margem do rio Araguaia. Lá também estavam hospedados agentes da Polícia Federal, preocupados com o assunto.

Finalmente, na tarde daquele dia, o primeiro encontro com dom Pedro Casaldáliga, o bispo que denunciou o trabalho escravo e que usou a poesia para se fazer ouvir quando os generais, os coronéis-fazendeiros e a cúpula da Igreja o tentou calar. Paulo Gabriel nos alertara que, além dos problemas de saúde que enfrentava, Pedro estava se recuperando de uma inflamação em um dente, que tornava sua fala mais difícil.

Nesse primeiro dia, dom Pedro falou com dificuldade, pediu ajuda para levantar e apoio para caminhar. Ainda não era a entrevista. Ele nos indicou o arquivo da prelazia, que guarda todos os documentos e, milagrosamente, nunca foi atacado. Ele também falou coisas bonitas, que eu não gravei mas tentei anotar: “muita coisa ficou na reticência”.

Eu vi esse dia entardecer à beira do Araguaia, comendo peixe e tomando cerveja. À noite, no quarto de hotel, não conseguia dormir. Calor, tontura, frio, aquela atenção aos mínimos detalhes da insônia, intercalada por um sono sobressaltado e confuso. Quando amanheceu, a gripe, que até então era apenas ventania e nuvens negras no céu, virou tempestade.

À tarde, começamos a entrevista com dom Pedro. Ele nos esperava no quintal, pediu ajuda para levantar, mas caminhou sozinho até uma pequena capela nos fundos. Sua voz fluía melhor, ele falou das transformações de 1968, ano em que chegou ao Brasil, dos salmos de Ernesto Cardenal, da tortura de moças e rapazes, da repressão que se infiltrava: “Figuras esquisitas que estavam chegando. Umas vezes eram vendedores de tapetes, outras vezes atendiam na saúde. Era espionagem pura, controle”.

Mais Araguaia, mais peixe, mais sono tumultuado e chegou o último dia em São Félix. Tivemos ainda mais uma sessão de entrevista com dom Pedro. Dessa vez, ele praticamente pulou do banco onde estava e foi sozinho, na frente, para a capela. Ele nos falou sobre as amizades e as dificuldades entre cristãos e comunistas e contou que teve um tio, padre, assassinado por socialistas na Gierra Civil Espanhola. “Agora cada vez mais pensar no mundo, na humanidade. Sem cair na pretensão de grandes palavras e não saber pisar no chão de cada dia”.

Na ida para o aeroporto, comentamos com o padre Paulo Gabriel sobre a evolução na disposição de dom Pedro. Ele riu e disse que já sabia como tratar o bispo quando estivesse enfermo: era só chamar jornalistas para ouvi-lo. Falamos sobre as eleições do mês seguinte e sobre o fogo que seguia queimando a Ilha do Bananal.

Chegamos à noite em Brasília, tivemos um jantar com amigos e, sem peixe, sem Araguaia e sem bispo, minha gripe assumiu o controle. O vôo de volta a São Paulo sairia de madrugada, uma espera mais longa do que parecera no planejamento da viagem. O corpo dolorido e o cansaço afetaram não apenas meu bom humor como meus bons modos. Meu chefe se zangou e a viagem terminou assim: lenços de papel acumulados e a sensação de que a Amazônia se afastava muito rápido.

Escrevo isso para distrair a Borboleta e seus leitores do meu atraso e para tentar ganhar alguma compaixão, já que agora meus olhos lacrimejam e a cabeça pesa um pouco. Para me distrair também, pensando no rio e no poeta-herói do Araguaia.


Bárbara Lopes, é jornalista, toma chopp, ama gatos, e escreve no Blogueiras Feministas. A cada semana residente aqui, uma característica a mais na apresentação. Vamos brincar de prazer em conhecer?

3 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Querida Bárbara, não me distraiu, comoveu. Isso de estar ali, ao lado dele, de ouvir suas histórias, ver sua já desgastada energia se recompor um pouco pra melhor partilhar...ah se eu não te quisesse tanto bem ia ter inveja. Você me devolve, com suas histórias, um pouco de mim mesma...e eu só posso dizer: obrigada. Mesmo.

Lílian disse...

Linda história, Bárbara.

Amei o "pisar no chão de cada dia", mesmo que sem "grandes palavras". Coisas da vida simples, de gente de verdade.

Até a próxima!

Cecília Santos disse...

Babi, adoro ler tudo o que você escreve! E admiro muito dom Pedro Casaldáliga!

Beijos saudosos em você e na sua anfitriã.

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