sábado, 23 de abril de 2011

Chutando o Balde


Sabe o que eu não gosto? Relativismo cultural. Sabe o que eu gosto? Contexto histórico. Eu não sei no seu circuito, mas no meu é uma combinação perigosa. Bota meu pé no marxismo (o outro já está lá por causa da dialética) e me torna um vistoso alvo para exclamações tais como: "elitismo intelectual", "etnocentrismo" e demais variações sobre o mesmo tema. Não faz mal, há muito aprendi a apreciar "O Samba de Uma Nota Só" (e, sim, eu considero esta canção superior a outras porque eu sou assim: classifico a cultura).

O contexto histórico é o recorte cognitivo com que trabalho. Veja bem: eu amo filmes dos anos 30 a 50. Eu reconheço que a forma como as mulheres surgiam nestes filmes era bem machista para os padrões de hoje. Mas eu não julgo os filmes de 30 com o os padrões de hoje porque eles não foram feitos hoje, ora. Eles foram feitos em 30, uma época em que as lutas e as conquistas feministas estavam em outro estágio. Eu avalio os filmes de hoje pelas conquistas e papel social que as mulheres têm hoje e avalio os de 30 e 40 pelo papel e pelas conquistas da época e, voilá, se vocês querem saber (ok, deve ter um monte de gente que não quer), eu considero que muitos filmes de 30 a 50 são muito mais avançados para sua época do que os de hoje (em relação a hoje, claro) no que se refere à forma como tratam e retratam a mulher.

Só assim, de cabeça, eu lembro uma porção de mulheres fortes e marcantes:
Margo em All About Eve
Johnny Guitar e suas duas antagonistas;
Scarlett O'Hara e seu temperamento forte, seu amor á terra e sua intensa vida amorosa; 
Mae West em todos os seus personagens de alta voltagem sexual...nunca esqueço do vidente dizendo: vejo um homem no seu futuro! e ela reclamando: SÓ UM? - isso em 1933; 
Katherine Hepburn em A Costela de Adão esgrimindo verbalmente com (acho) o Spencer Tracy; ela mesma de novo com Bogart em Uma Aventura na África; 
Ingrid Bergman no lindo A Morada da Sexta Felicidade do qual já falei aqui
tem a Lauren Bacall mandando meu Bogart assoviar
os personagens de Bárbara Stanwyck e de Irenne Dunne como em A vida de Um Sonho e Ann Vickers (uma mulher que trepa antes de casar, faz um aborto, depois vira amante de um homem casado, tem um filho dele...isso em 1933, na verdade em 1917 ano de que trata a trama, hein? hein? e ela é a mocinha, tá).
...E olha que eu nem falei dos outros papéis da minha queridíssima Bette Davis ou do olhar incrível de Truffaut (não por acaso conhecido como o diretor que amava as mulheres) e seu sensível Jules et Jim.


Os filmes de hoje me cansam, quase todos (eu vivo reclamando disso, sou chata). Roteiros esfarrapados, diálogos rasos e personagens toscos...aí basta colocar uma mulher segurando uma arma ou revidando e batendo no marido pra personagem ser considerada forte ou libertária? Pra mim revidar tudo com violência física não é estar à frente do nosso tempo, é estar justamente nele. E não vejo nada de forte ou libertário nisso e sim uma mimetização de comportamentos excludentes e de baixa sociabilidade. Não acrescentam, não apontam possibilidades, não transgridem a moral vigente. Colocar um palavrão em um filme em 1933 pra mim é inovar. Colocar um palavrão em um filme em 2010 pra mim é reproduzir. Nada contra boas reproduções. Mas muito contra a louvação indiscriminada disso como se fosse uma novidade. Mas, pra não dizer que não falei de flores, ontem vi um filme que me surpreendeu e tratou os personagens, homens e mulheres, com bastante sensibilidade. Era uma boba e previsível comédia romântica? era. Mas havia um pai viúvo cuidando de duas filhas, que chorava sem vergonha ou culpa e no fim de semana bebia feito gambá; uma super produtora (pessimamente interpretada pela Cameron Diaz...mas eu não disse que o filme era perfeito, disse?) que tem que escolher entre o amor e o trabalho e escolhe ser feliz que é uma terceira via, pra mim, altamente desejável; tem um casal que se apaixona pertinho do fim e para ficarem juntos ele é que vai pra onde ela está...considero que isso é apontar possibilidades: não o apego a estereótipos nem soluções pré-estabelecidas, mas reger-se pela ética do desejo. Além disso, o filme trata muito simpaticamente os persongens idosos e, com muito respeito, a história do cinema. Ah, o filme é O Amor Não Tira Férias. 

Esse é o modelo de análise que eu uso. Sabe, alguém me dizer hoje que uma mulher pode trabalhar fora desde que mantenha sua casa limpa vai levar risada na cara. Mas se alguém disse isso no fim do século XIX comecinho do XX pra mim era um puta libertário. É assim que eu entendo: as pessoas dão conta do seu mundo na medida em que o mundo dá conta de si mesmo e vice-versa. 


Um PS. No Olhos da Borboleta eu vou me divertindo inventando letras que contem histórias outras sobre escritores e suas máquinas. Na Noite 01 há uma arma e um bilhete que não está;  na Noite 02 tem um muro feito espelho. Se apetecer, vai lá visitar, vai. Isso claro, por causa do Lucas, né.


Outro PS. Se você quer ler um post inteligente e bem humorado sobre os papéis femininos nas séries, passa lá no Blogueiras Feministas, no texto da Danielle Cony... Feriado: um certo tédio, alguns seriados e personagens feministas.

13 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Lu,
só para constar, detesto revisionismo em arte. Que adianta dizer esse diretor era preconceituoso, aquele não respeitava mulheres hoje, quando eles filmavam em 1920 ou 30?
Já assistiu "Mocambo" com Ava Gadner? É claro desde a primeira cena que ela quer o Clarck Gable e vai passar por cima de quem tiver na frente.
Infelizmente, a década de 20/30 do século 20 foi muito mais libertária e moderna do que somos hoje, principalmente no cinema e no teatro.
bjs
Boa Páscoa
Jussara

Long Haired Lady disse...

amiga desse jeito vou precisar de um dicionario pra vir aqui!!! hahahaha

mas concordo contigo, sempre temos que ver o contexto, eu faço muito isso.
acho que tanto o cinema quanto a tv perdeu o jeito de fazer filmes e principalmente tramas romanticos…

eu incluiria na tua lista a Anna Karenina, que deixou o marido, pelo amante mais novo…(qualquer semelhança é mera coincidência!) rsrsrsr

Belos e Malvados disse...

Concordo com tudo que você disse. Antes e agora. Inclusive com a parte do Jude Law chorando.

Dona Lô disse...

Anna Karenina e Ana Cunha, que deixou Euclides prá viver com Dilermando...

Mas vou falar de algo muuuuito mais popular. Liga a tv de assiste o comercial da Bombril. Mulheres "general" ameaçando os maridos, comparando-os a cachorros e querendo dar "jornalada na fuça".
Não vejo nada de revolucionário nisso...

luci emocionada disse...

caralho, eu te amo! eu nao li o post todo (nem deveria ter aberto o blog! tenho que estudar), mas li um paragrafo que muito me emocionou, coisa que eu pensava e tinha vergonha de dizer hehehe nao vou estragar o post fazendo leitura superficial. ja ja volto aqui pra comer esse post.

BEEEEEEEEEEEEEEEEEEIJOOOOOOOOOOOOO!

Amanda disse...

Aiaiaiai, parece que esse post é você me dando um puxão de orelha. E sem querer, ainda por cima. Eu não assisto filmes velhos (ok, classicos) por varios motivos: qualidade da imagem e do som; acho tudo meio ingênuo demais; e sim, acho machista, porque justamente era uma época machista. E mesmo colocando no contexto da época, ainda assim me irrita. Não entro no clima, so consigo ficar puta da vida e passo o tempo todo fantasiando como seria legal os tais personagens pularem no tempo e darem de cara com as mulheres de hoje. Penso em toda a indignação nos olhos deles. So assim pra eu ter algum prazer assistindo esses filmes!

Borboletas nos Olhos disse...

É isso, Jussara, fico doidinha com as comparações - pra mim esdrúxulas, tipo: hoje ela não faria isso - blá, e amanhã se faria o que faz hoje? E eu amo Mocambo (e amo Ava Gardner)...filmaço! Também acho que o começo do século foi muito mais intenso e libertário!

Baby, eu gosto de Anna Karenina mas é meio moralista, né?

Dona Lô, eu detesto essa propaganda, é bem maniqueísta e parte de falsas premissas né?


Luci, xará, tô esperando...

Amanda, magina se eu ia puxar sua orelha. Mas, olha, dá uma espiada nos filmes da Mae West e da Bette Davis e nesse que falei da Irenne Dunne e compara com os de hoje e me diz se são machistas...

Dai disse...

Nossa, sabe que também acho. Eu não consigo imaginar um filme mais feminista do que Johnny Guitar, acho que se levamos em conta o contexto, hoje lidamos com personagens bem anacrônicas, totalmente cabíveis num roteiro dos anos 50. Mas, mulher, tu também pegaste pesado com nossos filmecos contemporâneos, nem tudo está perdido também, risos. Eu gostei muito desse filminho com a Kate Winslet (diva), O amor não tira férias. Principalmente da relação dela com o roteirista da era de ouro de hollywood. É dos filmes antigos que ele extrai o conceito de gana feminina que tanto queria apresentar à nossa personagem fofa - muito lindo esse momento, que já vale o filme, além de ser uma aula de cinema. Beijos!

Sardenta disse...

Ai, nessa você me pegou. Sou apaixonada pelos clássicos!
Aqueles preto e branco, mudos, esses eu amo!
É fato hoje em dia os filmes são violentos, mas eu sou fã do Tarantino, então vou ficar bem quietinha aqui. hehe
Uma coisa devo concordar, era muito mais transgressor ser uma mulher forte (e feminista, pq não?) naquela época. É uma reflexão que também quero fazer.

Beijos

Rita disse...

Eu também acho, mas não concordo, hahahahahaha!

Assim: ninguém ainda mandou melhor que Scarlet, vamos combinar!

Mas... eu gosto do relativismo cultural, hahahahahahaha O que NÃO me impede de sempre tentar levar em conta o contexto histórico, uai. Ok, acho que vejo os problemas que você vê no relativismo (tô falando pelo papo lá da lista), mas pra mim eles são mais pontuais mesmo. Sempre acho meio, hum, limitado(ai!) não levá-lo em conta. Enfim, depois.

Eu adorei O Amor Não Tira Férias. Eu adorei a Camerom cantando Killers, hahaha, sou boba. E adorei todo o resto, papai presente, a Kate-maravilhosa-da-silva toda se superando e tal. Delicinha.

Beijucas.
Rita

Atitude do pensar disse...

iiiiiiii, Lu. Relativismo cultural e contexto histórico são exatamente as duas abordagens que tenho que trabalhar. A primeira irei utilizar muito enquanto futura antropóloga - por mais que tenha minhas críticas ao exagero no uso do conceito -, e a segunda utilizo a cada instante em análises, enquanto assistente social.
Olha, assisti "O amor não tira férias" por diversas vezes - isso sem exagero.
Alguns criticam a participação da Kate, pensam que o papel é pequeno para tamanho talento.
Eu, particularmente, gostei de tudo no filme, até da Cameron, pois acho-a comicamente natural. Não sou capaz de imaginá-la em outros papéis, mas acho que tudo se encaixou bem, até o par da Kate, que inclusive, não tinha nada a ver com ela, e por isso mesmo me conquistou...

Caso me esqueçam disse...

vou fazer uma comparacao besta: meu (antigo) amor por pin ups. ah, meu deus, teve uma epoca que eu soh via isso na minha vida, queria ate fazer uma tatuagem, comprei livros lindos, mas sempre ficava um pouco incomodada por ver que elas eram meio mongois, frageis demais, com uma "inocencia" exagerada e pareciam ser soh um corpo e nada mais. mas eu gostava mesmo assim. depois descobri essas milhares de fotos das mulheres dos anos 20-30 nuas e foi uma revolucao na minha vida. eu achava o MAXIMO que elas tirassem a roupa numa epoca em que mostrar o tornozelo era um escandalo. mas finalmente sinto que nao preciso ficar tao puta com pin ups e esse contexto machista, sei la. eh arte. arte pode? eh como as musicas de jorge ben que eu adoro mas que tem umas passagens que poderiam ficar de fora. nao sei, nao sei o que pensar, mas gostei de ter lido o que li aqui :)

e vou baixar os filmes que tu indicasse aqui, porque faz seeeeculos que tou tentando entrar no mundo dos filmes classicos e nunca avanço.

Joana Faria disse...

Antes havia mais espaço pra coragem. Tudo tinha o potencial de chocar. Hoje em dia é difícil inovar. Oque é uma mulher verdadeiramente moderna? De que forma se pode arriscar na hora de criar uma personagem? Eu não faço a menor idéia.

Eu concordo com você. Ás vezes eu também fico irritada com os filmes que assisto. A grande maioria dos papéis femininos são verdadeiramente patéticos. Chego a ficar ofendida.

Mas ok, outro dia vi um filme bastante interessante: "The kids are all right", com a Anette Bening e a Julianne Moore. É um filme novo (estava concorrendo para os oscars desse ano) e se trata de um drama numa família homosexual (mãe, mãe, filho e filha). Achei que as duas personagens principais foram retratadas com um olhar muito sensível e o fato de elas serem gay is not really the point.

Não é nada revolucionário (e me fez lembrar "As Horas" um pouco. Deve ter sido por causa da Julianne Moore), mas mesmo assim, é uma tentativa honesta de retratar a mulher de uma forma mais relevante aos nossos dias.

Mas de fato, impossível existir outra Bette Davies. Sad, but true.

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