domingo, 20 de março de 2011

Tudo Aceso

Pra gente saber se a chama é verdadeira,
alimente o prazer, põe lenha na fogueira...

A lua, enorme. A fome, enorme. Um viver maior que eu me oprime e mesmo a beleza só será percebida em memória. Por agora, antecipação. Em surpresa, recebo-te na noite. Eu precisava tanto. E vieste. Como um abraço, as boas palavras. Deixo-me em teu colo que é conforto e provocação. Há tanto que não entendo, eu reclamo, mas tu nada me ensinas, em um balançar de ombros me lembras que nada disto importa e sim o corpo que não podemos saciar. Brincamos de poder, claro, insistimos em mensagens que não se complementam. Não há encaixe, não há felicidade. Não há nenhum possível e, ainda assim, perdemo-nos em nós. Queríamos. E o corpo fica morno como se as letras fossem toque, língua, cheiro. Como se as palavras fossem corpo junto ao meu. Como se. Mas não são e se esvaem e permaneço só e vazia. 

 A voz desperta o corpo. Primeiro, o orifício em que penetra. A orelha, receptiva, arde com a passagem da voz que vai ocupando espaços. A voz acende os olhos que se fecham pra melhor ver os desejos que se enfileiram. A voz malina o corpo. Espalha-se. Inquieta. Procura. Promete. A voz não sabe, a voz excita no seu sem-saber de dizer qualquer coisa. A voz pergunta e os pelos se apresentam, ouriçados: nuca, braços, pernas. Pernas, ah, a voz deixa lânguido o corpo e as pernas já não o suportam. Como se o sempre fosse agora, o corpo queda-se ante a voz. Precisa, o corpo precisa mas não há nome para dizer o quê. A voz não sabe, mas as coxas se comprimem um pouco mais quando vem uma palavra risonha. E, quando a fala vira estrito riso, o corpo queima. Sim, faz calor. A voz acende, deixa tudo aceso e morno. A voz vai percorrendo um corpo que a voz não sabe. Desce pelo pescoço, lenta, deixando letras espalhadas como beijos. A voz mordisca ombros, o corpo não sabia que voz tinha dentes, mas tem e tem também lábios úmidos que sabem percorrer costas enquanto a voz aperta, firme, a parte carnuda do braço, cotovelo, mãos. Ah, a voz acorda as mãos. A voz faz, delas, instrumento seu. Já não segue sozinha, a Voz, no seu passeio. Perdem-se, mão e Voz, nas esquinas do corpo. Pontos de encontro, pontos de calor. Rubra, a pele desperta pela voz e pede pele. A Voz segue. Insistente, com mãos que se tornaram suas, separa pele de pele, e desliza, suave. A Voz brinca com os lábios, conhecedora que é desses caminhos. A besta urra. A Voz continua no seu desconhecimento do que causa. Causa do desejo. O corpo lateja. Pede: voz. A Voz o contorna. Aprisiona-o. A Voz suspende a possibilidade da palavra alheia. O que diz a Voz? O corpo quase sabe, quase. Mas pouco entende, o corpo se incendeia. Não há sono. Não há descanso. Há fome.

13 comentários:

Danielle Martins disse...

Com aquela lua tuo pega fogo...
Bjs!

Long Haired Lady disse...

…ouvindo Elvis: FEVER!

Menina no Sotão disse...

Um corpo, refém do universo e as sensações e desalinhando ao longo das laterais. Eu foi contido, através das suas linhas. Inventei os meus próprios devaneios, dancei círculos inteiros e varri pra longe o que eu não queria. Acendi incensos, descortinei sorrisos e amei esse meu lado lobo que uiva para o alto, para ela, a dama de prata.
Delirei, mas a culpa é sua e de suas palavras. rs
bacio

Lílian disse...

Ontem, SUPERMOON. HOJE, O INÍCIO DE UMA NOVA SEMANA. E DO OUTONO...

Então vou deixar aqui o mesmo comentário que deixei lá na Rita. Não é bem a falta de criatividade, é só a vontade de que as duas leiam a mesma coisa. Além disso, nem escrevi, apenas copiei e colei (mas copio e colo do Fernando Pessoa, o que já é alguma coisa...)

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares...
É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

Bjus, butterfly!

Lílian disse...

Não é que resolvi conferir? E é de outro Fernando?... rs... Pois segue:

ANDRADE, Fernando Teixeira
In: O medo: o maior gigante da alma. s/e, s/d.


MAIS BEIJOS!

Barbara Manoela disse...

A lua me trouxe novas esperanças e uma sensação de amor... que há mto não sentia. =)

Barbara Manoela disse...

A lua me trouxe novas esperanças e uma sensação de amor... que há mto não sentia. =)

Atitude do pensar disse...

Enquanto a fome, há vida. E o corpo há confirma. Entre as danças. As vozes. Os sentires - pele, olho, nariz. Um intenso sentir.
Ele é assim por você.
Bju,
K.
P.S. Este tipo de amor é aquele que não morre. Sua força é maior do que a morte. As fragilidades.

Cáh disse...

"eu reclamo, mas tu nada me ensinas"
que lindo!!!


só de ler me deu mais fome ainda.


Um beijo

Rafa disse...

Menina, será que um dia isto sossega?

Acho que não. Tomara que não

Love U

Bj

Danielle Martins disse...

Tem presentinho pra você no coração!
http://olhosdocoracao-danielle.blogspot.com/

Bjs!

HG disse...

Delícia de post!

Lucas disse...

Esta é a melhor anatomia da voz já publicada. Vejo vozes.

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