quarta-feira, 16 de março de 2011

Quando Dói ou Se Sempre Fosse Terça


Terça Insana
Isso se repete todas as terças. Saímos, as três L's, depois da aula. Trabalhamos disciplinadamente até 22:20hs e, numa cidade em que tudo costuma fechar às 23hs, aterrorizamos os garçons chegando com fome e sede. Bebemos, rimos, conversamos...sempre insanamente sobre tudo, nada ou qualquer coisa. Ontem foi ainda mais divertido, toda minha falta de jeito exacerbada à enésima potência. Coloquei o carro num buraco, pisei na única poça de água que existia, risquei meu queixo com pincel atômico...quando fico muito vulnerável eu fico ainda mais desastrada e risonha. Como se tentasse sorver - sôfrega - o riso que me sustenta e indica.

Das Perdas 
Eu tenho tentado não falar sobre o que está acontecendo lá no Japão. Não falar da angústia, da empatia, da tristeza. Não dizer do meu assombro porque a vida de todos nós continua a correr, continuo a ir a terças insanas, e há tanto dor a ser sofrida lá. Na época dos terremotos no Chile, meu coração parou em preocupação por um amigo. Havia toda a imensa dor de tantos escombros na alma, mas havia também o meu egoísmo, a enorme solidão que nada podia desfazer a não ser uma notícia dele. Que veio e o mundo voltou ao seu eixo. As enchentes do Rio de Janeiro novamente trouxeram os fantasmas à minha soleira. As tragédias enormes e as pequenas perdas, tudo me chegava em cortes e hemorragias. Todas as dores do Japão me chegam em igual empatia e angústia. E me chega, também, a beleza da reconstrução, a disciplina simples de levantar a cabeça, as mãos, os olhos e fazer o que é preciso. Chega-me o respeito ao outro e a sociabilidade extrema. Não é só a solidariedade (só?) mas a incrível resiliência. A abnegação. A caminhada pé ante pé, como se o caminho e não a chegada é que importasse. Eu queria dizer que estou aprendendo alguma coisa com isso tudo, que a Humanidade, com H maiúsculo está aprendendo, mas não consigo. É absurdo demais, pra mim, agora, fazer algo mais que me doer. Porque há lições que não precisavam vir. Aquela história de que quando o aluno está pronto surge o mestre? Preferia manter-me para sempre ignorante. Então não, não quero que tenhamos que aprender com as perdas alheias, com as amputações e solidões dos outros. Prefiro que fiquemos sem saber, sem crescer, sem mudar, desde que uma mãe possa amamentar seu filho e não sabê-lo em escombros. Desde que um casal possa fazer planos de dormir sempre agarradinhos e não uma morte pra um e solidãodesepero pro outro. Quero risos de domingo no almoço, quero mesmo a solidão dos que findaram um relacionamento, a insegurança dos que vivem sem amigos, a injustiça cotidiana, a pequena grosseria no metrô, a indignação do mau serviço, o fastio do mundo e das pessoas que por vezes se sente. Quero, prefiro, escolho, a pequena miséria humana a essa dor tão aniquilante que não se consegue ver uma a um, vê-se apenas a grande devastação. 

Há um belo texto da Marta no É Tudo Gente Morta. Chama-se 50 e fez - pra mim - real, a idéia de solidão, amor, martírio. Leia aqui. Para entender melhor, você pode ler isso aqui.

Para Continuar Sentindo 
Mas há lugares onde a beleza se sabe. Como no sótão da minha amiga menina Lu Guedes que brincou de enredar palavras e me fez querer fazer também, do jogo, sentimento. Peguei-lhe o mote (que tão bem desenvolveu aqui) e fui traçar minha própria lúdica brincadeira. No ping-pong, veio-me:


para a cabeça: shampoo
para o nariz: seu cangote
para os ouvidos: promessas
para os olhos: sonhos 
para a boca: pele 
para os cabelos: vento 
para o pescoço: mordida
para o peito: esperança 
para as mãos: temperos 
para a barriga: espaço 
para o quadril: movimento
para os joelhos: versos 
para o pensamento: expressão
para o coração: angústias
para os músculos: espasmos
para os pés: caminhos


Um Mês Que Se Escreve no Feminino I
Como vocês sabem (sabem, né? e lembram né?) este mês lá no Eu Sou a Graúna estamos tratando de conversar sobre as mulheres que admiramos. E é um entra e sai de brindes e conquistas e dores e amores de fazer gosto. Tão admirável quanto o que se narra é quem narra. Estou gostando muito das visitas que escrevem e das que tornaram-se hóspedes permanentes. Todas um tanto Graúnas, a Graúna se fazendo um pouco outra com elas. Até agora:


Um Mês Que Se Escreve no Feminino II
E no site super bossa nova (ou seja inovador e que vai fazer sucesso mundial) Blogueiras Feministas, há muita coisa boa pra ler, refletir, discutir, disseminar. Especialmente as postagens do #8demarço, quase todas construídas coletivamente a partir das discussões na lista das blogueiras feministas. Hoje a Bárbara Lopes traz uma reflexão sobre As Mulheres e a Reforma Política. Pode-se ler também:


E pode assistir os vídeos irados da Thayz e da Vanessa, aqui e aqui.


10 comentários:

Lucimere disse...

Bem, muita informação de uma só vez... preciso de mais tempo para conhecer tudo; Contudo pelo pouco que li, já virei fã.
Cheguei aqui pelo blog de uma "borbeleta", amiga sua, que me visitou.
bjo
Prazer, Lucimere ou se preferir Mere.

Menina no Sotão disse...

Fui lendo e lendo e pensando sobre mim e sobre o mundo e me bateu um cansaço. Sei lá, eu tenho tentando também estar ausente dessa onde de estranhezas. Tão difícil ser humano numa hora dessas. Uma amiga estava na California no dia que deram o aviso e pronto. Aquela tensão toda a espera de notícia.
Enfim, o post de hoje foi mesmo pra descontrair e acabou me permitindo alguns olhares sobre mim e sobre os outros que não eu. rs
Adorei...
E eu me lembro dos posts (todos) e já li quase todos. rs
bacio

Rafa disse...

Se estiver tudo seco e uma micro-poça a dez metros visível, creia, eu vou acabar pisando nela. Quase chorei hoje ridiculamente almoçando estrogonoffe na faculdade e vendo as imagens do Japão.

Minha rima: Para o coração: Você

Bj

Rita disse...

Ah, Lu. Hoje quase escrevi sobre o Japão, sabe. Mas me dá uma coisa esquisita e eu ainda ando tão apequenada na minha perda pessoal, tão limitada, tão. Mas aí venho aqui e, olha, que coisa linda que você escreveu, que boas palavras.

E que triste tudo isso, que enorme, que absurdo.

Beijo, querida.

Rita

Amanda disse...

Ai Borboleta, quanta coisa legal num post so! Acho que tenho que comentar a medida que leio, senão acabo esquecendo tudo que queria dizer, ja que o assunto muda e muda novamente.

Dessa vez eu so digo que foi um texto super lindo sobre o Japão. A gente não pode tomar todas as dores para si. Mas tbm daria tudo para que ninguém tivesse que passar por isso tudo...

Long Haired Lady disse...

o mais admiravel no povo japonês é a capacidade de enfrentar tudo com calma e ordem, parece que catastrofes sejam elas naturais ou não, são digeridas por sua milenar civilização.

Atitude do pensar disse...

Na infância era imensamente desastrada; daquelas que caia na frente do menino gatinho da escola. Bem, agora - na idade adulta...será?? -, diminuiu, mas vivo esbarrando nas quinas.
Perdas: Ainda não digeri toda essa história do Japão, na verdade, ainda estou lá em janeiro, quando a chuva devastou nosso país.
São tantos tormentos que, as vezes, o melhor é afastar. Desde que não seja algo fixo. Apenas passageiro.
Adorei o post na menina do sotão, deu aquele gostinho de ser adolescente...
Março tem me feito refletir acima do natural. Me ver dentro do mês M. de Menina, mulher, mim...
Bju, querida.
K.

Allan Robert P. J. disse...

Os nossos sentimentos se assemelham, mas acredito que não somos os únicos. Nunca prestei atenção em como os meses são, mas Março está sendo doce e irresponsável. Muito divertimento e muita dor. E a vida segue (ou quase).

HG disse...

Japão... Impotência!

Terça Insana... Que barato!

Emoções disse...

O amor é a sabedoria dos loucos e a loucura dos sábios.

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