segunda-feira, 7 de março de 2011

Olhos de menina: felicidade temporã..., by Lu Guedes

Ela tinha um pequeno punhado de anos em sua pele. As mãos pequenas alcançavam com dificuldade as mãos daquele homem para quem ela esticava o pescoço para poder ver suas linhas cheias de curvas engraçadas que os adultos chamavam de rugas, mas para ela eram apenas caminhos que mencionavam de forma oculta os passos daquele homem que muitos chamavam de velho. Mas ela chamava aquele homem “gigante” que vivia a bordo de seus oitenta e poucos anos, de avô que vez ou outra era também o homem do bolso cheio de doces, das pernas compridas vestindo calças finas a dar passos pelas calçadas que o conheciam há tempos. Era também o homem antigo que ainda tirava o chapéu da cabeça para cumprimentar as madames com quem se encontrava pelos caminhos da cidade que tinha sua história misturada a daquele homem simples que acordava cedo para buscar o pão e o leite que já não vinha mais até a sua porta, que engolia gema de ovo antes de beber o café preto e comer o pão com manteiga amarela…
Sua idade era um mistério para aquela menina. Ela não tinha dedos suficientes em sua mão para contá-los. Ela sempre parava no oito. Quase duas mãos. Era bastante pra ela que precisava apenas de uma mão para contar os anos que lhe cabiam. Ela dizia pra ele com cara de esperta mostrando-lhe os dedos “eu tenho isso e você isso”. Tudo tão simples e fácil quando uma criança mostra os dedinhos e os dentes. O mundo inteiro parece ser feito de céu azul com bolas fofas de algodão…
Cabia aquele homem que gostava de cigarro de palha mostrar a paisagem que ele tão bem conhecia, enquanto ela não. Tudo era incrivelmente mágico, encantador “olha vovô” dizia ela apontando para algo inusitado no meio do caminho. Correr atrás de um pombo no meio da praça, jogar arroz para eles, vê-los voar pelos ares; equilibrar-se junto as mãos daquele homem que lhe dava asas, fazendo-a voar como se fosse também um pássaro. Ele era um gigante; ela apenas uma pirralha de poucos centímetros com pés e mãos pequeninos e seus punhados de anos bem fáceis de contar.
No final do dia, ela se ajeitava no sofá, cabeça no colo dele e palavras que eram ouvidas enquanto os olhos resistiam. O mundo adormecia e lá ia o homem, suas rugas e seu belo punhado de anos levar a menina para a cama, onde ela crescia. Envelhecendo na velocidade do vôo de uma garça. Logo suas duas mãos não seriam mais suficientes para contar os anos e ele voltaria a sua condição natural de velho com rugas na face e lembranças de uma menina que um dia fez dele novamente, um menino porque a idade do homem está no olhar de quem vê e na pele de quem viveu, mas nunca em sua alma…
Então anos mais tarde, quando o cansaço visitar o corpo da menina mulher, ela encontre um banco de praça e lá descubra uma menina a correr entre os pombos e lembre-se de si mesma e de seu gigante adormecido. Um sorriso percorrerá seus lábios e ela abandonará seus conceitos, modismo e por algumas horas será feliz de novo sem o peso de seus trinta e poucos anos…
Diante de si mesma a pergunta inevitável “quantos anos você tem?” e ela exibe uma das mãos, mostrando apenas três de seus dedos longos que irá fazer a menina sorrir e dar de ombros “eu tenho mais que você”  como se fosse importante aquela soma natural e imediata porque quando se é criança somar é tudo que de fato importa. A pequenina d pernas curtas se apressa, acena e corre entre os pombos e logo se une a eles através das mãos de seu gigante de rugas que ela gosta de contornar com os dedos imaginando os muitos caminhos por onde poderá transitar…


Meus segundo presente. 
Hoje, este texto lindo foi presente
da minha amiga querida Lu Guedes, 
que nos encanta no seu sótão. 
Menina, sim, com seus desbravadores olhos. 
Obrigada, obrigada por tanta beleza.

6 comentários:

Menina no Sotão disse...

Manhã de segunda, com nuvens e paisagem com cheiro de chuva. Quase outono, mas ainda verão...
E eu aqui, com sorrisos de orelhas por ter minhas palavras nessa paisagem de asas e folhas. Grazie carissima por esse prsente que você pensou ser seu. rs
Tudo bem, eu o divido com vc. :)
bacio

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

Tão lindo este texto.
Palavras que voam
pelo céu do coração.
Que nos devolvem tempos
de criança,
ao lado do avô... do pai...

Lindo.
Simplemente assim...

Que haja sempre em ti,
sonhos por sonhar.

Caso me esqueçam disse...

ai, que lindo! ja começou! e eu pensando "por que a rita escreveu esse post?"

gente ligada ta aqui! :D

Long Haired Lady disse...

que lindo! o meu velho e indivisivel avohai marcou minha infancia, ainda sinto seus imensos olhos azuis a me fitarem.

Rita disse...

Ai, que lindo, gente. Que texto lindo. Que amor.

Vou ler de novo. :-)

Rita

HG disse...

Lindo!!!!
Bom fazer anoversário assim, né amiga! Cercada de carinho e belas palavras...
bjs

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