sexta-feira, 25 de março de 2011

O Segredo dos Seus Olhos

"Tem gente que cose pra fora, eu coso pra dentro."
Clarice Lispector


Eu tenho dificuldade com personagens. E com tramas. Não sei escrever diálogos e tenho restrições a meus textos onde monto cenários. Sou assim, escrevo em uma nota só: por dentro. "Eu" já deixou de ser pronome e se tornou verbo na minha gramática particular, que folheio embirrada nos fins de semana em que devia estar brincando de pega-pega ou amarelinha...mas divago. O certo é que meu principal personagem é a [minha] linguagem e o que ela diz de mim. Como espiral, eu escrevo em interrogações. Minha personagem principal está sempre em crise. Ela se expressa verdadeiramente? É capaz de dar conta de si mesma? Ela funda ou fundamenta uma realidade? Ou é sempre invenção? É elo ou abismo? 



 Decidi escrever sobre Elizabeth Taylor, mas não sei fazê-lo a não ser desse meu jeito, sem história e sem roteiro. O que sei dizer: eu amava seus olhos. Amo, ainda, mesmo sabendo que já não estão. Tenho por eles uma devoção de religiosa, um deslumbramento de criança. 




Em todo canto se lê: linda. E era, claro. Mas não era isso. Ou não era só isso. Ou não era o linda apenas de belos traços e corpo juvenil. Era o linda arrogante e maduro. Era o linda sofrido. O linda de corpo maltratado. Lembro de quando vi Gata em Teto de Zinco Quente.  Os diálogos, os diálogos. A intensa presença de Elizabeth. A vitalidade. A angústia. Eu a sabia toda e em tudo me desconhecia. Novamente me revirando em A Megera Domada, o desejo, o orgulho, a ingênua  coragem para o embate, ah, tudo faz deste filme, que poucos mencionam,um grande divertimento. E esse brilho se repete no irrepreensível Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, em Um Lugar ao Sol, em O Pecado de Todos Nós, no discutível e discutido Cleópatra




A morte de Elizabeth Taylor me causou grande tristeza. Uma melancolia de dias em tons dourados. Dias em que o encanto não era raro, em que as falas eram perfeitas e as fotografias e câmeras comprometiam-se com talentos inomináveis. Morrendo, ela leva uma parte da minha juventude qualificada com Sessão de Gala e Corujão, leva a materialidade de filmes com temáticas adultas e viscerais, leva minhas memórias e anseios. Leva a certeza de ritmo e timming em um bom diálogo, leva a interpretação precisa e natural, leva aquele brilho que gente como Marilyn, Ava e ela tinham, um jeito de se fazer luz para a tela. 




Acho, aqui, agora, escrevendo em lilás, que o que mais aprecio em Elizabeth Taylor (e no cinema que ela representa pra mim) é sua capacidade de me dilacerar. A segunda coisa é sua coragem de amar e de mudar. Eu tenho certa simpatia pelos que casam repetidas vezes, eles demonstram uma imensa capacidade de acreditar, uma certa ingenuidade pervertida ou uma malícia inocente. Vinícius era assim, cada amor era o maior e definitivo. Elizabeth também. Sua capacidade de acreditar e entregar-se nos relacionamentos era tão intensa que conseguiu amar duas vezes o mesmo (mesmo?) homem. 




Morreram os faróis em violeta. Morri eu, com eles. Só um pouco, morri. Como vou morrendo cada dia, com maior ou menor compreensão disso. Com maior ou menor deleite. Quando se dizia que Elizabeth Taylor tinha tudo _ era tudo mesmo: amor, admiração, dinheiro, jóias, amigos - ela dizia: "não tudo, eu não tenho o amanhã". Nenhum de nós tem. Mas meus ontens eram tão mais vibrantes por saber seus olhos, ah, era.


Eu Também Tenho Meu Ùtero

No meu útero a solidão não é perfeita. Porque eu já não volto pra ele, é dele que retorno, exausta ou satisfeita, exausta e satisfeita, espelho espelho meu. Meu útero não tem lugar, anotomia nem geografia. Não tem som, nem cor. Ele é o próprio ruído que consigo emitir e as cores em que enredo os desejos. Meu útero pare memórias e reinventa abismos. Meu útero sangra letras. Meu útero me faz humana, diferente de mim, estrangeira em um corpo que não controlo. Esse útero me expele de mim mesma. Mas e se, eu insisto, eu pergunto, lendo linhas que se dizem sem estranhar-se. Se mesmo imperfeita eu tivesse que dar forma à minha solidão de útero, eu diria que ela - a solidão - é pelo avesso. É o momento mais feliz, o mais colorido, o mais febril que me diz exata e justamente que não é assim o viver: nem febril, nem luminoso, nem feliz. É o belo, o riso, o doce que me diz que sou só, que me diz o meu inexato tamanho. Quando chove aqui dentro, primeiro ou a seguir, foi útero um assim:



Uma Explicação: Dentro de mim mora um anjo, mas é amarrado no porão e raramente o alimento. O que acontece é que leio, agora, um blog incrível. Daqueles que dizem a coisa certa do jeito que, se não é o certo, é sob medida. Daqueles que você quer que todos os seus amigos leiam. Daqueles que você quer guardar só pra você, tem ciúme de cada palavra lá escrita como se fosse sua. Daqueles que você se pergunta se ainda será e estará lá, amanhã. Dividida entre o anseio de dizê-lo, a vontade de guardá-lo e a ebulição do ultimo tema, prometo partilhar assim que tudo se assente (quem for mais atento já sabe qual é e como chegar lá).

Se quiser me saber, estou inteira - na medida do impossível, bem aqui neste Mosaico. 

Promessas: Ganhei um selo da minha amada amiga Dani, lá do Olhos do Coração. Ia postar, mas Liz morreu e se tornou pauta. Breve, será selo. E visita. Melhor dizendo, hóspede. Bárbara Lopes virá às terças e escreverá pra nós na sua coluna Doces Bárbaros.



super update: Um Comentário é para sempre
Chegou agorinha um comentário de me fazer dar rodopios. Quer dizer, chegou e não chegou. O meu querido Sérgio (do fantástico 50 anos de filmes, que eu já recomendei aqui) tentou postar gentis palavras, mas o blogger deve ter mais critério e, considerando os elogios improcedentes, barrou o comentário. Ou algo assim. O certo é que o Sérgio (brigadinha) não levou isso em consideração, mandou o elogio por mail e me pediu pra incluir como comentário. Daí eu que não sou besta nem nada trago pro post. Diz assim:


Cara Borboleta, seu texto está lindo, como sempre, a sensibilidade à flor da pele, como sempre, e o post está visualmente maravilhoso.
Um abraço.
Sérgio Vaz

Aproveito pra agradecer não só a ele mas a todos vocês por pararem um pouco pra conversar comigo aqui. Alegra-me sempre. Obrigada.

13 comentários:

Juliana disse...

quando soube da morte da liz taylor, me senti como se tivesse ouvindo uma piada. em seguida, me passou pela cabeça que ela já tinha morrido. Ambas reações se devem ao fato de q ela já não era mulher, era mito, né? Tipo uma marylin q ainda tava viva.

Nunca vi nenhum dos filmes dela( pode me matar!). Sou da geração de filmes adolescentes,né? =p A Liz que existe no meu imaginario vem da minha mãe, que vivia dizendo qnd eu era pequena que a liz tinha os olhos violetas e eu ficava tentando imaginar como seriam olhos dssa cor vistos de perto.
Aliás, tem cleopatra aqui em casa. Vou ver se assisto.


quanto a esse blog incrível, me senti desafiada a adivihar qual é, porque esses seus posts enigmáticos me matam de curiosidade. hehehehe
ó, o chute: deve ser o blog do qual vc tirou a inspiração pra escrever o seu mosaico.


quanto ao útero, ainda tô absorvendo o texto. nossa!

ALEX disse...

Sobre a morte de Elizebeth, perdemos mais uma diva, musa, a vida é assim...

Quanto a solidão o que posso dizer é

"A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas prima irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,
Causando um descompasso no meu coração"

Sobre o "anjo" ás vezes sinto que há:

“Em meu peito há um Demônio que ruge e um Deus que chora”.

Um cheiro

Alex Ramos

Long Haired Lady disse...

Acho que foi a ultima diva a nos deixar…
as estrelas de hollywood hoje não têm o mesmo glamour de antes…
sempre achei a sua atitude superior a sua beleza, nenhum dos "escândalos" de sua vida particular se sobrepôs ao mito.

Atitude do pensar disse...

Deveria ficar triste em dizer que a dor aqui chegou bem sutilmente?
Não sei. Eu a admirava. Mas não a senti, não a toquei, não fui por ela tocada por meio dos seus filmes. Porém, rechonheço que é um referêncial no cinema. Isso é inquestionável. Mas vou lá terntar conhecê-la melhor. Assistir seus filmes, além daqueles poucos visto.
Lu, seu útero tema força de nos revelar ao nosso. De sentí-lo contraido ao lê-la. Ao sentí-la.
O que dizer da música...a delícia das delícias.
Bjus e abraços,
K.

Juju Balangandan disse...

Prendi a respiração, até o final do texto, pois não queria sequer que minha expiração manchasse suas palavras! Lindo! Entendo esse dilacerar de alma por artistas iluminados. Para mim é Clarice, sempre clara e tão profunda.

Bom finzinho de semana, ainda que sem os faróis violetas, os finais de tarde ainda são rosados.

Rafa disse...

E não é esta a tristeza do existir: Tudo o que é belo morre?

Estamos vivos

Não porque respiramos, mas porque sentimos.

Bj, amor

Ana Duarte disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Duarte disse...

Lindo! Tenho certeza que os olhos violeta viverão "eternamente", pois grandes artistas nao morrem!
Fui la no mosaico, ameiiii o que você escreveu sobre machado, também sou fa dele! ai ai

Borboleta pergunta indiscreta, vc é professora? escritora? poeta? acertei algum?
Obrigada pelas palavras la no blog, fiquei feliz com o carinho, você nem imagina o quanto estou precisando neste momento...
Grande beijo

Rita disse...

Lu, que linda homenagem, que lindo texto seu. Devo dizer que sorri quando li o início porque comecei meu post de hoje justamente falando da dificuldade de se escrever diálogos. Sintonizadas, néam... bom demais. ;-)

Bjs
Rita

HG disse...

Saudade, saudade, saudade... de tu.

Lucas disse...

Estou recuperando o fôlego antes de continuar o diálogo por lá...
Me recupero primeiro do roçar na garganta que tomou conta deste blog, depois deste teu útero, tão mais profundo que o meu. Leio e releio, no momento não tenho palavras (só o roçar das asas na garganta).

Glória Maria Vieira disse...

Eu tenho certeza que Elizabeth Taylor teria amado ler essa definição tão linda de quem foi ela e de quem ela continuará sendo. Sensibilidade é seu sobrenome, meu amor!

E olha... Eu que agradeço, viu?! Sempre.

Menina no Sotão disse...

Não sei, deve ser a tarde, esse calor todo, só sei que fui lendo e me calando e me enfiando aqui dentro de mim. Lembrando dos filmes, das cenas, das músicas e das sensações de juventude que descobria o mundo a partir das telas e das páginas e então fui ficando e quase não volto. Sei lá... As vezes tudo que resta é o silêncio e a morte deve ser bastante silenciosa, não acha?
bacio

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