domingo, 27 de março de 2011

O Medo é Branco

"Para a tarefa do artista, 
a cegueira não é 
totalmente negativa,
 já que pode ser um instrumento."
Borges


E daqui, eu só posso me alegrar por não pretender nenhuma literatura além do blog nosso de cada dia. Porque ficar cega é o meu medo mais presente. Medo de todos os dias, aquele que põe gelo na veia. Porque o medo é frio. O medo pede agasalhos, lareiras, amigos. Pede café, vinho, chocolate e pede companhia. O medo é frio e sem arauto, levanta-se, repentino e precisa de espaço para as suas nevascas. 

Há os medos que são brisa, frescos, quase esquecendo de ser: medo de chegar atrasada, de esquecer algo importante, medo de insetos, de desenvolver alergia a camarão, de coisinhas miúdas que não me pediriam galhardia e sim empenho. 

Há os medos mais refrigerados, talvez com climatização externa: medo de ruas escuras, de fazer dívidas, de perder-me na estrada, de túneis e garagens subterrâneas. Esses medos, cultivados na história, alimentados por dizeres, eu os reinvento em calor de dentro pra fora, um grande sorriso é bafo nas mãos. 

E chegam os medos frios, que dão dormência e preguiça no corpo, comprometendo o riso e o andar: de perder pessoas queridas, de uma cultua adolescente absoluta, da relativização acirrada pelo narcisismo das pequenas diferenças. Medos do que não posso evitar, do que escapa ao controle, do que me dá a exata medida da minha irrelevância.

A seguir, o medo de garras geladas: de dormir sempre sozinha, de perder a memória, de desinteressar-me do mundo a ponto de não querer mais reinventá-lo, de uma tristeza que me acampasse no peito e de lá já não saísse. É frio, branco, deserto de gelo esse medo já não de todos os dias mas de dias todos. 

E há o medo de completo frio e desamparo, o medo que me paralisa, que me define por contradição: ficar cega. Quando não enxergo, perco meus outros sentidos. Se não vejo, não escuto. Não sinto sabores, cores e ruídos. 


Eu já fui míope. Creio que, na alma, serei sempre. Ser míope é um jeito de se estar no mundo. Chega-se mais perto, bem perto. Ser míope deu-me cheiros, por precisar do juntos para saber-me. Ser míope deu-me esperas e nuvens. Vida de tempo nublado, mesmo na transparente alegria e iluminados caminhos. Ser míope constrói isolamentos. Muros de não ver. De não ver-se. Ser míope é um franzir a testa que alimenta as idades antigas nas jovens testas. O míope não se sabe com precisão - como de resto, todo o resto - e reconhece isso. O míope tem saudades do que não viu. O míope saberá ver-se por dentro, quando há tão pouco perto pra ele ver(se). 

Mas um dia, ah, um dia quando eu de-crescer, hei de ter uma biblioteca que se leia sem olhos, dedos, sentidos. Quando eu for do meu exato tamanho, viverei nessa biblioteca.Quando eu for exatamente eu, hei de ter uma biblioteca, hei de ser minha biblioteca. Sem olhos. E já não terei medo e já não haverá gelo em meus olhos de míope. Só letras e danças livres. E, talvez, lá haja um Minotauro jogando xadrez com Borges.


Perguntando: qual a cor do seu medo? Você tem medo de quê?

Sobre Borboletas na Garganta: não sei se alguém reparou, mas mudei o título do blog, assim, só pra ver qual é. Foi uma sugestão. Foi mais, foi um dos mais saboreados elogios que minha escrita recebeu. Assim, ganhou o status de pergunta, de tentativa, de ocasião. É que eu falo palavrosamente, justifico e sorrio, quase monalisa. Só digo que a conversa veio em boa hora. 


Perguntando: onde você prefere as Borboletas, nos olhos ou na garganta?

18 comentários:

Danielle Martins disse...

Também tenho muitos medos... medo de perder...

Você será sempre borboleta... nos olhos, na garganta, no ser...

Bjs!

Juju Balangandan disse...

Vizinha querida, meu maior medo é de amargar, perder o doce saboroso da vida. Por via das dúvidas, venho aqui emprestar uma xícara de açucar. Um dia de muitos vôos para nós.

ALEX disse...

O que posso falar sobre o medo...

“E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em “Salvador””

(Drumond)

Sobre "enxergar" "ver"..

“Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão.”

(Seixas)

Um cheiro

Alex Ramos

Palavras Vagabundas disse...

Lu, tenho muitos medos... o pior deles é perder a lucidez.Prefiro Borboletas nos olhos, é o olhar sobre tudo e qualquer coisa que nos distingue nesse mundo de meu Deus. Na garganta as borboletas ficam escondidas e podem ser contidas.
bjs
Jussara

Clara Gurgel disse...

Tenho medo de "ter medo". Ter medo me paraliza...e muito. Lú, prefiro Borboleta nos olhos. Na garganta me dá a sensação de incômodo. Ainda mais para mim que tenho hipotireodismo, "borboleta na garganta" me remete imediatamente a "glândula da tireóide" que no meu caso funciona mal e incomoda. rsrsrsr Nada romântica,né?!

Glória Maria Vieira disse...

Foi a primeira coisa que reparei, Luh! E adiantou que sou, já fui logo tuitando. #hihi Antes que eu faça todos os comentários pertinentes ao poste de hoje: QUE SINTONIA! kkk \o/ Quando eu li o título do poste de ontem depois de ter acabado de assistir ao filme "O segredo dos seus olhos", imaginei logo: CARAMBA! A Luh e eu pensamos em tratar do mesmo assunto. Mas hoje quando fui me deleitar com seus poste, vi que o segredo era outro. Lindo isso, né?!

Respondendo:
Eu tenho medo de tanta coisa, Luh. Tanta! Acho que a cor do meu medo é uma mescla tão uniforme que não consigo ver até onde é preto, vermelho... rosa, azul. :~

Eu prefiro a Borboleta nos meus olhos, mas não reclamo se um dia ela resolver borboletear pela minha garganta, viu?! hihi

Atitude do pensar disse...

Lu, jamais tive uma percepção tão positiva da miopia - tenho meus medos, entre eles o de não enxergar aquilo que deve ser visto. Percebido. Sentido. Vivido. Os medos estão tão arraigados em mim que as vezes travo. Saber disso trás pesar. Tristeza. E é um medo de coisas tão pequenas - que no fundo sei que não o são, apenas refletem ali.
Borboleta nos olhos ou na garganta - difícil pergunta...Bem, eu as tenho no peito. Mas primeiro foram os olhos que as captaram, por que não tê-las na garganta? Se rodopiam, passam por todos os lados. Saindo pela boca e voltando para o peito.
Bjus,
K.

Juliana disse...

lu, tenho medo de enlouquecer, de ficar sempre negando os meus desejos e de escuro. Tenho PAVOR de escuro.

Borboleta na garganta me parece engasgo. Não gosto da imagem. Os olhos já têm as suas próprias asas, os cílios. Sempre que leio o nome do teu blog, penso em gente que fala e pisca e se move inteira! heheh

Lucas disse...

Eu tenho medo de instantes que parecem eternidades, e é só nesses instantes que sinto medo; fora disso, como agora, definir um medo ideal é algo que nunca vai ser comparável ao medo mesmo, quando ele vier. Eu poderia dizer que temo ficar surdo, mas quanta coisa nova eu não poderia aprender passando a perceber a realidade de uma forma completamente diferente? Eu poderia dizer que temo ficar paralítico, perder minha autonomia física, mas e se esta fosse a oportunidade para descobrir uma força na proximidade com o(s) outro(s), que eu ainda não conheço ou não valorizo? Então estes não são realmente medos. Assim como, na solidão, tem-se medo de ficar só, e na opressiva proximidade com os outros tem-se medo de perder a solidão. Também não são medos, talvez covardias. Na minha realidade de animal eu engulo os medos junto com o almoço, como se fossem manchas verdes e amareladas, e quando eu penso demais eu dissolvo os medos no amanhã, como aquarelas de brilho alaranjado. Covardias, sim, eu tenho-as aos montes, mas do medo eu só sei quando ele chega.
Eu lembro da última vez que senti medo, há uns meses; medo totalmente físico, enervante, de tremor e suor; era o medo de uma briga, de um embate a socos, de uma agressão sem controle. Era um medo vermelho, sem dúvida.

Rita disse...

Oi, querida.

Ai, tanta coisa. Vamos lá: que belo texto, por que será que você anda recebendo elogios, não é mesmo... hein, senhorita? :-)

Tenho medo de ver quem amo sofrer. Tenho medo de meu comodismo.
Tenho medo de baratas.

Borboletas nos olhos são como um filtro para seu olhar sobre o mundo. Borboletas na garganta me lembram mais de sua voz que de sua escrita. Você pode escrever muda, então seu texto pode não ser sua voz, mas seu pensamento - que sempre sofrerá (já que você pode ver) a influência de seu olhar - e isso pode parecer sem sentido, mas falo do lugar de alguém que nem sempre consegue trazer à boca aquilo que vem na escrita. Então prefiro nos olhos, mas como vejo que você já optou pela mudança, também registro que não a acho ruim. Se tivesse sido assim desde sempre, eu diria 'que ótimo título'; mas como não é o caso, voto nos olhos.

Glorinha, também O Segredo de Seus Olhos há pouco tempo e,nossa, gostei taaaaaannnto. Bj.

Rita

Long Haired Lady disse...

eu nunca tinha pensado em classificar muito menos dar cor ao meu medo…o medo é meio gelado mesmo, gela a alma, os olhos , a gente congela…talvez a cor escolhida fosse gelo…

eu adorei a sua explicação sobre o nome do blog…gostava dele…mas se agora te identificas mais com este ,ai vamos nós!

Allan Robert P. J. disse...

Talvez seja apenas o hábito, mas prefiro o título anterior. Falta ouvir sua risada. :)

Tenho muito sangue frio: o elevador caía, todos gritavam e eu calculava como reduzir o impacto, caso o freio de segurança não funcionasse. Funcionou. Mas quem é pai sempre tem medos.

Fred Caju disse...

Eu tô ficando cego pra poder guiar, disse um certo Tom Zé. Mas aí vem um Fred Caju e fala besteira:

UM SOL PARA TI

Se pudesse dar
meus olhos (são míopes,
eu descobri há pouco),
seriam seu presente.
Porém, são tão meus
que não posso dá-los.
Resta-me, portanto,
um nascer do sol
para minhas cores
também serem tuas.



(Fred Caju)

Menina no Sotão disse...

Estava eu no meu reader atualizando a leitura e eis que "ouço" o som da brisa, das tempestades e das rajadas de vento. Não sei se tenho medo. Devo ter. Quando era pequena tinha medo de me perder e não mais me encontrar. Dizia pra quem quisesse ouvir "e se eu me perder de mim?" A professora como resposta, mandou-me a terapia. kkkkkkkkkk
Ao longo dos tempos fui me afastando das pessoas, não por medo, mas por desprezo. Odeio aquela sensação de ser julgada e condenada por um olhar ou por uma atitude que se estranha e não se reconhece. Eu sou assim e gosto de ser. Hoje eu acho que tenho medo de pessoas. Esta aí, acho que esse é o meu maior medo e fiquei completamente amendrontada com a imagem em minha mente de "borboletas na garganta"...kkkkkkkkkkk
bacio

Rafa disse...

Tenho medo de que as coisas não dêem certo ao final de muito, muito esforço.

Ah e prefiro a Borboleta nos olhos é tão mais poético. Na garganta ou você engole ou cospe pra fora... rs

Bj

Rafa disse...

P.S. Existe cuspir pra dentro? rsrs

HG disse...

Nos olhos...

Elaine disse...

O medo é sim frio, muito frio. E me assalta o tempo inteiro.
As borboletas na garganta são muito, muito mais adequadas, ao meu míope ver, bem de perto, sem as lentes.

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