sexta-feira, 11 de março de 2011

Memória Em Papel de Seda, por S.

Conheci a borboleta amada, a graúna enlouquecida, a Luciana das fotos sorridentes quando voava tal qual beija-flor cibernético, por estas paragens virtuais. Tudo tão lindo. Encantei-me. Sei (e não sei por qual milagre ou destino escrito em que mão) que nossa amizade não ficou só no teclado e nos derramamentos de elogios nos blogs que criamos antes de. Acabou desabrochando de vez e colorindo-se em asas maiores aqui no mundo do lado de fora, em visitas e jardins e praias e segredos. Num blog em comum que também é. Segredo.

Mesmo assim, no meio de tantas histórias, sempre me senti pequenina diante da escrita desta mulher, que... ah... é letra de gente grande, mexe com tudo de dentro e de fora da gente e usa as palavras (e eu hoje disse a própria) como cinta-liga. Seduz, baby. Vai dizer que não?

Então foi surpresa (apesar do amor todo) que dia desses ela me mimou com dois convites de escrevinhações. Como assim? Eu? Certeza? Mesmo?

Ela sabe que manda em mim e é dona do meu corpo por motivos de dívidas não pagas, então fazer o que além de aceitar? Quem é doido de negar pedido luxuoso desses?  

De todos os motes oferecidos acabei escolhendo, ironia das ironias, falar de memória. Logo que comecei a pensar no texto e a lembrar de minhas próprias, escrevinhei algo sobre. Mostrei e ela gostou, o tempo passou e... acabei foi é esquecendo o prazo e não finalizei o tal texto. Talvez seja uma coisa boa, talvez não. Veremos...

Sei que me restou, como quem esqueceu de comprar presente e o comércio já fechou, procurar nas gavetas todas um conto-vestido-bonito (que é o meu preferido e escrito em forma de missiva), já postado lá pelas minhas bandas e oferecer agora como tal. Ele fala de sensualidades e saudades e peles e sim! Sim! memórias. Embrulhei-o com cuidado em papel de seda (a letra da música de João Bosco) e é esta, flor, minha humilde colaboração.

Perdoe sua nega e fique feliz, sei que você gosta dele e sempre te caiu bem, amada, sabes também...

Memória da Pele

“Eu já esqueci você
Tento crerNesses lábios que meus lábios sugam de prazer
Sugo sempre
Busco sempre
A sonhar em vão
Cor vermelha carne da sua boca, coração...”

Querido M.
 Espero que esteja tudo bem com sua terceira esposa (ou é a quarta?). Como é mesmo o nome dela? E os filhos todos, como vão?

Resolvi te escrever, porque ainda nos lembro. Muito. Deve ser por causa do excesso de vinho e uísque barato dos últimos longos anos e a proximidade dos quarenta. Ou porque tenho estado só por muito tempo. Este seria, entre risos, seu veredito final, tenho certeza.

Enfim, essas lembranças são principalmente sobre sua delicadeza e insistência em certos carinhos tão seus. Daqueles do tipo que, depois de algum tempo sendo feitos, me deixavam pronta para enfrentar banheiros em bares cheios ou ruas escuras em locais ermos. Carinhos que até hoje, se por acaso repetidos em meu corpo por outro alguém, me levam de volta ao tempo de nós dois.

“...Eu já esqueci você, tento crer
Seu nome, sua cara, seu jeito, seu odor
Sua casa, sua cama
Sua carne, seu suor
Eu pertenço a raça da pedra dura...”

Por exemplo, quando mesmo entre amigos e cervejas, pegavas minha mão, e exploravas em círculos minha palma, com a língua lenta e morna e molhada e tesa. Eu gostava de ver seus olhos abertos, divididos entre me fitar de soslaio e prestar atenção à conversa das pessoas na mesa que estivéssemos.

A resposta da minha mão, quando me era devolvida, longos minutos depois, era pegar em você por cima do jeans sujo que estivesses usando. E era como se com tua língua tivesses lido que meu futuro próximo era fazer amor contigo noite adentro.

Gostava também quando com tua unha comprida de violonista coçavas engraçado por trás do meu joelho, um sinal de que logo depois, irias com uma leve pressão de dedos apertando minha coxa até enfiar-me dedos. As calcinhas foram abolidas, os vestidos se tornaram meu uniforme na nossa batalha diária. Alguém chegou a vencê-la, querido?

“...Quando enfim juro que esqueci
Quem se lembra de você em mim
Em mim
Não sou eu sofro e sei
Não sou eu finjo que não sei, não sou eu...”


Encontrei a Ana dia desses num boteco aqui na cidade louca, e ela me lembrou que foi você que me fez beijá-la a primeira vez. Disso eu não lembrava, mas ainda sinto o gosto do riso que te acompanhava quando eu acordava em nossa cama e enlouquecia de ciúmes, expulsando a mulher que por acaso estivesse conosco. E então, quando eu voltava para o quarto e começava a quebrar coisas, você me derrubava no chão e prendia minhas mãos e sufocava meus gritos com um beijo agressivo e antes de se meter entre minhas pernas contava-me acidamente mentiras sinceras. Eu sempre acreditava em você. E gozava. E gozava. E gozava.

“...Sonho bocas que murmuram
Tranço em pernas que procuram enfim
Não sou eu sofro e sei
Quem se lembra de você em mim
Eu sei, eu sei
Bate é na memória da minha pele
Bate é no sangue que bombeia
Na minha veia
Bate é no champanhe que borbulhava
Na sua taça e que borbulha agora na taça da minha cabeça...”

Enfim, lembro principalmente quando você correu atrás de mim numa rua alagada, no meio de uma chuva infernal, quando decidi que aquele estado de eterna ânsia e desejo só poderia acabar nos matando. Lembro quando eu finalmente cansei e sentei naquele banco de praça e você estava lá logo depois, e me obrigou a sentar no seu colo e agarrou-me seios e coração e cabelos com força, puxando-me para ti. E quando me sabias preste a ser tua novamente, me empurrar para longe de ti e de volta à minha decisão.

Me deixaste sozinha. E desde então, nunca mais parou de chover, querido.

Daqui a três dias estarei de volta à nossa cidade, e marquei com alguns de nossos velhos amigos no mesmo velho local. Se puderes aparecer, te prometo minha mão em cima da mesa, novamente à espera de tua língua. Irás?

“...Eu já esqueci você, tento crer
Nesses lábios que meus lábios sugam de prazer
Sugo sempre
Busco sempre a sonhar em vão
Cor vermelha, carne da sua boca, coração.”

Intenso presente o de S.
Já estivemos em igrejas juntas.
Já estivemos em cervejas.
Vimos o mar ser janela em Canoa.
Já choramos, rimos, reclamamos, apontamos calos e fraquezas.
Já conversamos uma noite inteira.
Ela já me emprestou vestido que fez de Recife meu turismo favorito.
E, agora dá-me tão rubro presente.
Bem, bem na hora.


E é possível uma semana ser tão linda e diversa?
Hoje o erótico e delicado texto de S.
Já passaram por aqui:
A inteligente reflexão de Rafa (e seu, ah, luxuoso final).
abraço feito riso da Luci, xará.
desnudar do real em explícita angústia da Teresa Font.
E, por lá, ainda ganhei o afetuoso texto da Glorinha.

E alguém consegue reclamar da passagem dos anos? Eu quero é mais.

3 comentários:

Long Haired Lady disse...

borboleta que voa muito é assim, todo mundo quer em seu jardim!

My disse...

hummm como é ruim sentir saudade as vezes...mas quando as lembranças são boas ainda se pode sorrir e esperar algo bom...
bjs flor*

S. disse...

rs. bj. te amo.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...