segunda-feira, 28 de março de 2011

Dos Suspiros ou Meus Sapatinhos Vermelhos

Um Salto Para o Abismo
Passei um tempo, muito tempo, sem pensar na clínica que deixei. E ponho-me a pensar se, afinal, isto não se deu porque, de alguma forma, algo ficou. Aqui, talvez. Interpretar, como escrever, é possibilitar sentidos antes insuspeitos. Manifestas na linguagem, interpretação e escrita caracterizam-se por não serem unívocas, ou seja, não dizem, nunca, exatamente tudo Porque há, sempre, o impossível de dizer (isso não é novo, of course, de Lacan e seus intérpretes à Clarice, um vasto mundo de melhores ditos sobre o tema se destacam em relação e este meu). Escrita e interpretação insistem, emergem nesse terreno: justamente o que não pode ser todo dito, não pode, de todo, deixar de ser dito. É no impasse que escrevo. A escrita tem vezes de tirana, impõe-se. É estéril perguntar para quem escreve? Porque escreve? Para que? Não há resposta para isto senão o ato mesmo de fazê-lo. Uma de minhas mais queridas escritoras, M. Duras, diz (diz? escreve!) que a escrita "permite ao escritor dizer para si mesmo que não é preciso se matar todos os dias, visto que é possível matar-se a qualquer dia" (quanto a isso tem sempre o delicioso texto de Verissimo: O Suicida e o Computador, eu, se fosse você, lia). Assim, vir aqui diariamente é escolher do que não quero morrer hoje. 

Ou, talvez, do que quero. Porque viver é justamente isso: um dia a menos. Eu lembro - ou gosto de pensar que sim - de quando aprendi a suspirar. Você lembra? Suspiros são pequenas morte, menores que os orgasmos, maiores do que nossa impávida e maquinal ação de inspirar/expirar. Suspirar é admitir. Admitir uma falta, uma ausência, um erro, um limite. Suspirar é indicar a medida do impossível. Há toda uma gama de ensaios de suspiros na minha infância, eu imagino: a primeira fome, o primeiro brinquedo guardado, a hora de dormir, o primeiro não. São ensaios, são ensaios. O primeiro suspiro que devo ter dado, eu lembro (lembro? claro que não, mas gosto de reinventar-me assim) foi para Bogart. Ou por ele, melhor dizendo. Em que filme? Em qualquer. O olhar cansado, a capa de chuva - sim, devia ser marlowe; o andar tão firme, as tristezas tão grandes. Meu primeiro suspiro deve ter sido por ele, quero que tenha sido. O Bogart  de uma mágoa que nos obseda, esse é o apelido do meu primeiro anseio. Mas ainda não é Bogart que vem ocupar este post. 

Meu suspiro mais profundo, o que não foi o primeiro mas é paradigma de todos que lhe sucederam e referência pra todos que o antecederam, este suspiro se fez ao ver Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes, 1948). Qual Cisne Negro, foi o que tive vontade de exclamar algumas vezes e o faço agora. Porque não há um olhar sobre o palco e a dança como este. Não há um horror infantil mais adulto que este. E não há cores, nem passos, nem impossibilidades e escolhas, ah, não há sapatilhas como estas. Pode haver tema mais atual do que a pergunta: ou isto ou aquilo? O amor ou o trabalho? Uma hora pergunta-se: "porque você quer dançar?" ao que se responde "Porque você quer viver?" [já havia, talvez, neste meu gosto, o motivo deste post: porque você quer escrever? porque você quer viver?].

Sapatinhos Vermelhos é um filme sobre a paixão. Sobre o que ela nos dá. Sobre o que nos cobra. É um filme sobre uma febre. Um filme de dolorosa beleza. O que são aquelas cores, senhor? O vívido vermelho, o denso preto, o azul profundo...cada cor tem algo a dizer. O Techinicolor enriquecido de sentido. Há tudo aqui: a busca da perfeição, o extremo esforço diário, o cansaço dos longos ensaios, a excitação ante o público, o arrebatamento que a arte propicia, o vazio que acompanha todos os "depois" conhecidos. Há momentos expressionistas nas cores, cenários, pequenos efeitos visuais. Um filme de direção forte e sensível, a cena do ballet é primorosa. Não há medo, nenhuma tentativa de agradar, nenhuma infantilização da linguagem. 

Foi aí que aprendi a suspirar. Que aprendi a reconhecer que algo falta, sempre. Que aprendi a viver morrendo e a fazer de cada automático respiro uma tentativa de beleza. Que aprendi que há um compromisso em calçar as vermelhas sapatilhas. Que é uma escolha. Que é uma escolha,  repito, todas as vezes que paro e escrevo. Cada letra, cada dito, uma opção. Um suspiro feito post, feito texto. Um reconhecimento, também, de que não é tudo. E de que se há de prosseguir tentando, mesmo já se sabendo do impossível desta empreitada. Que é o mesmo que viver. Minúscula piada que adotamos a ferro e fogo.

O vermelho voltou-me ainda aos sapatos e suspiros quando O Mágico de Oz aportou nos meus olhos, mas esta estrada de tijolos amarelos eu percorrerei outro dia.



Pela net, achei coisas. O trailler, delicioso. Trechos do filme, hipnóticos. Informações de uma cópia restaurada que preciso ter. E há, claro, a cena do ballet, que trago pra cá, pra habitar entre as Borboletas, hoje, todas elas vermelhas. Como meus sapatos:


Esperando que a Caminhante Diurno goste.

10 comentários:

Long Haired Lady disse...

o balé foi a primeira arte que me fascinou, ainda lembro da minha alegria quando comprei minhas sapatilhas cor de rosa…talvez se tivessem sido vermelhas…

um dia um menino bonito apareceu na minha vida e me tentou com um par dessas…eu os calcei e saimos por ai, bailando, na vida.

Juju Balangandan disse...

Hum, acho que escrevo para transbordar e não me afogar, se possível vestindo sapatinhos vermelhos.

Rita disse...

Certa vez escrevi assim: escrevo porque preciso. E não é?

Beijos, querida, que ótimo início de semana.

Rita

p.s. Preciso aprender a calçar os sapatos assim...

Atitude do pensar disse...

Adoro sapatos vermelhos - eles refletem esse meu lado explosivo. Cheio de vida. De tesão por ela - a vida. Acho que parte desse gostar veio do sapatinho vermelho de Doroty - lembro-me do dia e hora exata de quando os vi pela primeira vez.
Não conheço o outro filme citado, mas já sabe, né...mais um que vai para a lista.
Bjus vermelhos, querida.
K.

Menina no Sotão disse...

E eu aqui pensando que suspiros são versos e eu versifico porque suspiro. Não conhecia sapatinhos vermelhos, mas o balé não é uma arte que me agrade. Já tentei, mas me inquieto e procuro pela saída a fim de imprimir meus movimentos insanos. Mas vou ver o trailer.
bacio

Caminhante disse...

Eu adorei, caso a resposta seja mesmo importante ;)

Eu não vi essa filme. Alias, tenho uma resistência muito grande a filmes de dança. Pela época que as cenas não me atraiam e agora que atraem já tenho um monte de preconceitos cinematográficos.

Engraçado o quanto ódio e amor andam tão juntos, mesmo que a gente só saiba a conexão uma vida depois.

S. disse...

os sapatinhos vermelhos me lembram do livro mulheres que correm com os lobos. todo mundo que lia dizia que esse era o MEU conto. kamikase? levantemos a mão, baby!
Te amooooo!

Rafa disse...

Eu ia escrever "como eu entendo o que escreves", mas não. Não é entender, é: como eu sinto o que escreves.
Escrevo ora pra tentar dar sentido ao inexorável da vida, ora só para celebrá-lo sem motivo.

Bj

Dona Lô disse...

Meus suspiros são de reflexão, às vezes de cansaço, às vezes prá recuperar o fôlego prá recomeçar... Às vezes são o que me sobrou do sopro de disposição depois do dia de labuta imposta pela necessidade.
Sempre me fascinei e me irritei com a leveza das bailarinas, e isso me levou a gostar muitíssimo da arte e a administrar minha inveja por não poder ser uma delas.
Não é fascinante como as sapatilhas ermelhas despertam o desejo da moça graciosa? Só o vermelho faz isso. Ele parece despertar todas as emoções ao mesmo tempo, e esse turbilhão incrível de sensações é tão inebriante que ninguém consegue desviar os olhos de qualquer rubor que lhe atravesse o caminho. Ele te anima, te felicita por vê-lo. Foi o que atraiu a Bruxa do Leste.
O vermelho me tem. E me contém.

Lílian disse...

Oi, butterfly.

Suspeita pelo encantamento que as imagens me trouxeram, evocando em mim uma emoção toda particular. Esse post me fez voar um pouco. E me veio à mente a ideia de que suspirar é voar para dentro...

Bjim. Quando visitar João Pessoa,venha me ver! Ah sim, porque quando for a Fort, com certeza tomarei um café com sua pessoa!!!

Lílian

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