terça-feira, 29 de março de 2011

Doces Bárbaros #1, por Bárbara Lopes

Era uma vez uma menina/mulher: eu. Daí que comecei a escrever por aqui e logo vi-me assim: nós. Algumas vezes: elas. Outras: ninguém. Quase sempre: encontros. Ou alegrias. Encontros e alegrias. A gente se acostuma com o bom. Por exemplo: visitas. Adoro. Porque elas não ficam mais? eu me pergunto. Passam, deixam letras e seguem. Fiquem, eu penso. Porque não ficam? Ficam. Ela ficou. Foi assim, eu conto. Era uma vez outra mulher/menina. Ela. Ela que sabia contar histórias e contou linda Valéria em graunês. Perguntei: e borboletês, não fala? E ela: arrisco. Todas as terças, bárbaras terças, teremos histórias. Visita que não faz cerimônia. Passou a hóspede. 


Podem marcar no seu caderninho: Bárbara Lopes, às terças, no Borboletas nos Olhos. Doces Bárbaros com ela. 


...E o Vento Levou! 
Doces Bárbaros #1, por Bárbara Lopes

Ser jornalista, apesar de todos os pesares, tem duas vantagens irresistíveis: a primeira é poder reclamar da profissão o tempo todo e cada vez mais; a segunda é a licença para ser enxerido e conhecer as histórias das pessoas. Eu comecei a reunir uma bela coleção dessas histórias, mas nem todas têm espaço no resultado final do trabalho. Assim, com o espírito ecológico de combater o desperdício, a doce Luciana me abriu este espaço, onde vou reunir os extras, as sobras, as aparas, enfim, o que realmente importa.

Borboletófilos, preparam-se. Tal qual o Império Romano, este singelo blog também vai receber uma invasão bárbara!

Semana passada contei lá na Graúna um pouco sobre a irmã Valéria Rezende, mas sua vida é muito longa para a minha breve arte. Por isso, volto a seu baú para a história de hoje.

Em 2000, Valéria foi procurada por um grupo de americanos que tinha estado no Timor Leste e que lá ouviram um pedido por educadores populares brasileiros. Ela chegou enquanto o país ainda vivia o processo de independência da Indonésia. “Ainda tava saindo fumaça das casas queimadas”, lembra. Lá, ela conheceu a história de Sa’he.

O jovem timorense Vicente dos Reis foi estudar em Portugal no começo dos anos 1970. Lá, ele conheceu e se apaixonou pela obra de Paulo Freire. Em 1974, abandonou os estudos e voltou para Bucoli, o suco onde nascera – suco é como se chama a unidade administrativa local timorense, que pode compreender várias aldeias. Começou a organizar grupos e cooperativas, implementando o método Paulo Freire de alfabetização. Mudou tudo de lugar. Adotou o nome de guerra de Sahe, que significa o vento.

Em 1975, acontece a Revolução dos Cravos em Portugal, que fez o governo se retirar do Timor, que então foi militarmente ocupado pela Indonésia. Sa’he, como outros opositores, se refugiou nas montanhas e de lá lutou contra a ocupação. Ele foi um dos líderes da Frente Revolucionária do Timor Leste Independente (FREITLIN). Mas o exército indonésio impôs muitas baixas entre os guerrilheiros e só deixaria totalmente a ilha no século 21.

Quando a irmã Valéria chegou no Timor, seus anfitriões contaram a história e disseram que ainda haveria um sobrevivente da guerrilha. Ela decidiu procurá-lo. Encontrou. Seu nome é Silvério, e ele havia sido um dos jovens que, com Sahe, tinha começado a organizar os grupos de alfabetização. Esse encontro, segundo Valéria, “foi uma das coisas mais emocionantes que eu já vivi”.

Essa é a história do Sahe, contada pela história da Valéria. A minha história é que, ao pesquisar informações para complementar esse texto, descobri mais um detalhe impressionante. Ao longo dos anos 2000, enquanto o Timor finalmente independente se organizava, surgiram rumores que Sahe estaria vivo. As informações que se tem dão conta de que ele foi morto em combate em 1978 ou 1979. Houve até uma cerimônia fúnebre simbólica (como se fantasmas se desfizessem com tanta facilidade).

Não é de se estranhar que, em um país que foi colônia portuguesa por tanto tempo, haja quem ainda espere que Sahe, o vento, desça das montanhas. Mas não é necessário. Hoje há muitos grupos inspirados em Sahe (e aproveitando a experiência de Valéria) trabalhando com educação, construindo o Timor.  Que os novos ares lhes tragam boa fortuna. 


Bárbara Lopes, é jornalista, toma chopp e escreve no Blogueiras Feministas. A cada semana residente aqui, uma característica a mais na apresentação. Vamos brincar de prazer em conhecer?

6 comentários:

Long Haired Lady disse...

e eu que estou sempre por aqui bato palmas!


ps. e o nome ficou mesmo borboletas na garganta?

beijos!

Cáh disse...

Olá Borboleta linda....
Como vai?
estou ausente, andei numa confusão de tempo danada!

Adorei isto, adorei conhecer Bárbara, (que é uma jornalista Bárbara então, rs) e Valéria...

muito bom!


Um beijoo

Lílian disse...

Seja bem vinda, Bárbara, e meus parabéns: seu idioma é bastante fluente, um borboletês da melhor qualidade!

Bela história, também. Tema importante (já tinha lido sua incursão na Graúna)e, ao final, pertinente - agora você será uma nova borboleta no Sahe local...

Boa sorte, bjus!!!

S. disse...

prazer! seje bem-vinda...

Atitude do pensar disse...

Super apoiada essa presença da Bárbara.
Bem, tenho dois amigos que foram ao Timor para desenvolver alguns projetos. São dois irmãos - uma moça e um rapaz.
Infelizmente, em 2006 Edgar foi atingido por um facão, ao passar de carro no local de uma manifestação de ganges contra o exército australiano e veio a falecer.
Sua irmã permanece realizando esse tipo de atividade - em outro território -, e meus sonhos de ir nessas regiões para colocar em prática o projeto do mestrado estão bem alicerçados.
Bju para as duas,
K.

Menina no Sotão disse...

Estou cada vez mais interessada nesse fascinante idioma. Ao menos arrumei um bom pretexto para esperar pela terça...
bacio

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