quarta-feira, 23 de março de 2011

Curriculum Lattes



Uma imensa saudade da Luciana. Uma enorme, enorme, vontade de saber mais dela. Eu não a conheci o tanto que devia e, hoje, sinto um enorme vazio de tudo que devia entender sobre ela. Acho que sorria. Talvez muito.

Eu não sei você, mas eu de vez em quando espreito cartas, cartões, telegramas, bilhetes, pedaços recortados de agendas, tudo que me endereçaram. Leio palavras carinhosas, outras apaixonadas, revejo confissões, medos, angústias, projetos. Li agorinha um querido amigo que me comparava com sopa (1) e era tão lindo isso de ser uma colherada de comida. Li a ansiedade de uma amiga criança sobre provas e vestibulares (2). Li alguém que escreveu "eu te amo" com tanto sentimento que reler, agora, é quase escutar (3). Leio desejos que não puderam ser. Plano de viagens que sim, puderam e foram. Leio um telegrama que diz: "Lu, você me faz feliz" (4). Leio tudo isso e tento saber dela, a Luciana que recebia isso tudo. Queria saber como ela era. Como andava, o que comia, o que falava. Como era sua risada? Como escrevia? O que almejava? Porque as pessoas lhe queriam assim? Porque ele (5), tanto e tão, parava pra escrever a ela, esta Luciana, assim: "nega", com tanto sentimento que é quase estar no seu abraço de novo?


Como vivia esta Luciana que recebeu de sua mãe um cartão que, de um lado, tinha a frase: "Bem que a vida vale o poema vivo que é você"; e do outro um espaço em branco e, lá embaixo, com setinha pra cima:"escreva a sua vida, a sua festa"(6). O que pensava, Luciana, o que você pensava, no seu quarto com tantos livros e telefone madrugada a dentro com sua amiga Patrícia?  Quem era você, Luciana, como fazia amigos e tecia amores? Sua mão tremia quando recebia cartas de Salvador (7)? Ria feito boba na alegria de gostar? Sentia saudades na pele? Ou não sabia que isso um dia seria passado? 


Eu sei tão pouco dela. Como era seu rosto? E como carregava aquele corpo tão verde, tão desconhecedor de si mesmo? Como seus desejos sabiam outras línguas e era tão fácil ler espanhol (8) como se fosse linguagem sua desde sempre? Como dizia, tão displicente, "venha" e não sabia recebê-lo, entendê-lo, como era tão irreverente com o querer do outro? 


Quem era ela nas mesas de um bar tão protegido, dentro da Universidade (9)? Como sabia, já, escrever "eu amo você" para quem adivinhava esta amizade pra frente? Como recebia telegramas um dia atrás do outro e não se deixava convencer e ficar no braço que a cabia tão bem, mas não a caberia hoje (10)? Você balançava o cabelo, Luciana? Gesticulava muito? Em que acreditava? Quando corria pra encontrar o mar - isso eu sei que você fazia, corria à praia em tardes de arder por dentro - quando corria, o que a habitava? 


Você lembra porque estas meninas lhe escreviam cartas e falavam de seus amores e diziam que você as entendia(11)? Como podia entender, Luciana, você não podia saber nada. Ou você sabe menos agora? E porque seu autoexilado amigo escrevia-lhe falando de Platão, Sêneca e solidão se você tinha apenas dezenove anos e não sabia do seu morrer de todo dia? 


O que seu corpo dizia e suas letras não, pra que tantas convocações lhe fossem feitas? Como era seu cheiro, sua cor, seu tempo? Você cantava, menina. Mal, talvez. Só podia ser mal. E lia, mas não entendia, não é? Porque hoje eu leio o que seus olhos viram e dói que ele tenha dito: "você pode trair-se nestas palavras e, nestas, atrair-se por homens (...) você pode encontrar-se em homens até apaixonar-se e apaixonar-se por homens até desencontrar-se (...) eu leio tudo, menina, mulher, você escreve muito bem e se esconde em cada palavra (...) procurei você no que escreveu, nas páginas, nas linhas, no início de cada parágrafo, revirei as sílabas". Onde você estava, Luciana, que ele não pôde encontrar? Você não sabia ler? Porque não lhe respondeu?


Quem você poderia ser, hoje, Luciana, se eu a tivesse conhecido? A quem amaria? Como amaria? Teria sorrisos? Seriam livres como eu quero pensar que você era? Como eram suas cartas? Suas dores? Hoje é uma piada dizer que fumou três cigarros e passou a noite ouvindo Bethania, mas como doía a solidão a cada recomeço do Drama 3o Ato? 


Você sabia que vivia? Percebia cada momento? Ou passava, apenas, esquecendo-se de si? Como sobrevivia a cada dia? Como dormia, como sabia dormir sozinha, se eu, tão mais velha, não sei? Onde construía seus castelos de nuvens e combatia seus moinhos de vento? Você tinha 16 anos e uma agenda. E tinha figurinhas Amar é. Eu não sabia disso, sei agora que a vejo (a agenda, porque você é quase bruma, Luciana). E, na agenda, não há nenhum compromisso, mas você já copiava dizeres de Sylvia Plath - onde aprendeu a sangrar? 


Eu queria encontrá-la, Luciana, em algum lugar em que pudéssemos nos saber. Eu contaria tanta coisa de mim e perguntaria, curiosa, sobre esse passar de dias idos. Ou, ainda, se no meu currículo não tivesse aqueles artigos e pesquisas e sim todas estas cartas, cartões, bilhetes, telegramas, anotações e recortes, talvez se pudesse encontrá-la, Luciana. Porque eu já não sei se você sou eu, se você nunca foi ou se sou eu que ando não sendo nenhuma de nós. Ou se, na verdade, viver é justamente ir esquecendo-se.


(1) em 1995.
(2) ansiedade vigente em 1990.
(3) olha, eu tinha 19 ou 20 anos.
(4) em 1992 eu já fazia alguém feliz, como, como?
(5) 32 anos de diferença entre ele e eu e um querer bem tão intenso.
(6) em 1996.
(7) por tantos bons anos, como 1992.
(8) em 1994 eu era tão sul-americana quanto se podia ser e almejava uma Buenos Aires ali, na esquina próxima.
(9) Bar da ADUFC, 1992 pra frente. 
(10) tinha tão poucos 16 anos e já decidia?
(11) com catorze anos, o que podia entender?


"Quando foi mesmo que te conheci? Você não me conheceu. Não sabe que eu gosto de ópera e do Chico Buarque. Nem sabe que eu queria ser a Nara Leão. Não sabe que eu tenho medo do vento e te chamo, à noite, o barulho terrível no vidro da janela. O mundo todo dormindo e eu dizendo: estou com medo do vento, meu amor. Tanta coisa separando, quando é que você vai me ouvir, quando é que você vai me conhecer?"
Parafraseando Vivina de Assis 
e seu  conto Plantação




UPDATE: Vocês lembram quando eu me apaixonei? Pelo esloveno? Daí que hoje eu encontrei este vídeo no blog do Milton Ribeiro (blog, aliás, recomendadíssimo, coisa boa demais, meu deus)


UPDATE 2: Morreu Elizabeth Taylor. Dói-me. Amanhã post violeta por aqui. 

17 comentários:

Luana disse...

Que texto maravilhoso! Fiquei som saudades da Luana que não conheci. =)

HG disse...

Tão doce e dolorido post...

Long Haired Lady disse...

estou resgatando a menina que sonhava aqui dentro...

Silvia Varela disse...

"...Porque eu já não sei se você sou eu, se você nunca foi ou se sou eu que ando não sendo nenhuma de nós. Ou se, na verdade, viver é justamente ir esquecendo-se."
Isso é imenso!!!! É lindo e toca lá bem no fundo d'alma. Beijos amiga

Atitude do pensar disse...

Li, e quase re-li tudo novamente. Lu, posso estar enganada - só d epensar nisso, sinto-me bem, pois estou aprendendo. Sempre -, mas somos hoje o resultado de somas e subtrações. Um problema matematico bem complexo. E quanto revemos o que se passou, nos tornamos um outro eu.
Sabe, ontem assinti o filme: Vida de Meninas, impossível não lembrar dele ao lê-las nessas linhas. Outra coisa que lembrei, foi de Ruben Alves, ele utilizou a idéia do Curriculum Lattes, e por coincidência, eu havia lido ontem. Sobre Slavoj Zizek, menina, que homem é esse. Ao ler este post fui lá pesquisar e vi um pouquinho, agora quero ver um possível todo. Espero que não seja ciumenta, pois apaixonei-me...rsrs
Bjus, linda menina mulher.
K.

Menina no Sotão disse...

Caramba, eu nem posso dizer que e seu melhor post lido por mim porque seria repetitivo, sempre chego aqui e encontro algo que me cala, exatamente como agora. Fiquei imaginando você e eu, os anos, as vidas, as histórias e fui me apaixonando, doidamente, intensamente e vou fazer um post. Me aguarde. O silêncio sempre vira palavra e eu volto pra ler tudo de novo porque esse é um daqueles posts que precisa ser lido e lido e lido etc etc etc
Bacio carissima, grazie por este silêncio...

Cáh disse...

A melhor parte de vc, seja esta que vc nem se dá conta que existe, e que vejo, entre tantos comentários amigos, revelar-se.

Uma doce alma, colorida, cheia de palavras que servem de alimento para estas outras borboletas famintas...



Um beijo!!!

Danielle Martins disse...

ainda bem que tgenho você no meu (tímido) curriculum.
Beijinhos!

Lílian disse...

Oi, borboleta!

Lindo, este post! Pensei de imediato no trecho da música cantada pelo Dori - "eu guardo em mim tantas canções(...)". O tanto do belo que vem à tona quando a gente se deixa parar um pouco e experimentar de novo certas emoções. Faz bem ter saudade boa...

Quanto ao esloveno, ainda não poderei levá-la aos ciúmes (kkk): essa máquina não me deixou ver direito o material. Porém, já adianto que gostei de graça, só por perceber, de relance, que as legendas estavam em espanhol. AMO!

Bjim. Seja bem-vinda de volta ao seu próprio lugar.

Belos e Malvados disse...

Um dos posts mais bacanas que já li. Ainda estou absorvendo. Beijos.

Palavras Vagabundas disse...

Tem dias que a gente acorda assim... com saudades de nós mesmas.
bjs
Jussara

BsVoxx disse...

Luciana,

Também tive agendas e tudo mais ... mas elas se perderam na vida ... muito legal ver teu texto integrando vários periodos de sua vida ...

Rita disse...

Sabe outra frase daquele livro? Que somos contados por nossas histórias e não elas por nós. Algo assim.

Nossas histórias nos fazem, olha que ideia doida a tão sedutora, né. Tanto sobre a escrita aí, sobre a forma como nos lemos, como tentamos nos resgatar da forma que você fez aqui. Tentar, só o que nos resta. E viver não é isso mesmo? Você o faz lindamente e suas histórias contam uma pessoa linda.

Beijo, estou sempre aqui.

Rita

Rozane disse...

Bem, depois de ler em geral me dão algumas sensações: prazer, dor, alegria, tristeza. Mas ler vc é sempre diferente, das duas uma: vontade de nunca mais escrever ou impeto incontido de dizer. Bem .... é bem assim, desta vez vontade incontrolaver de gritar ao mundo.

Eu conheci tantas lindas Lucianas, soube tanto e tão pouco de tantas delas. Mas tem um coisa fantastica nelas (Lucianas) é que sempre a ultima edição é mais bonita e colorida, não importando quantos tons e sons ficaram pra trás, eles hoje possuem uma caracteristica absurda... ser mais do que era possivel imaginar ser.

Me perguntei qual delas amei mais, e não sei dizer, não porque as palavras me faltam, mas por elas sobrarem... amei cores, tons, palavras, cheiros, toques, gostos tão distintos em cada uma delas, que seria no mínimo injusto uma analise, em que a LUCIANA que amo não seja a melhor de todas... dessas que aLUCIna e iLUmina.

Vargas disse...

O que voce acha de um site como esse :

www.sexstarsocial.com

homens aprendendo a seduzir mulheres

Shuzy disse...

Você me recortou em pedaços. Se estou mais sensível ou mais triste hoje, isso não sei, mas que me atacou uma nostalgia, uma saudade impossível de coisas que também não sei. Esse teu jeito, que mágica é?
Como já li por aí: 'Eu te leio, mas você também me lê'
Arrisco: Você lê minha alma...

ALEX disse...

Eu encontrei com “Luciana” nestas idas e vindas da vida, Linda Inteligente, Personalidade Forte, mas Doce e Meiga...
Lembro de conversas, planos, trocas,...
Seu sorriso é contagiante e irradia a todos!
Mas tive o privilégio de ver seus OLHOS, antes de beijá-la, e É ESTA IMAGEM, que SEMPRE VOU CARREGAR COMIGO, passe o TEMPO, PASSE TUDO...
Bom caso encontre com “ELA” digo que não a ESQUEÇO...
Cheiro Alex Ramos

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