terça-feira, 8 de março de 2011

Cotidiano, por Teresa Font

 Lisboa, 07 de março de 2011,
para a Luciana, em Mossoró,
no lado de baixo do Equador.
Um beijo, 
Teresa

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Eu acordo as crianças, preparo os pequenos-almoços, verifico se as mochilas estão arranjadas e enquanto se vestem, rabugentos, vou acordar o pai deles.

Me sacode às seis horas da manha
Vai custar imenso, não sei porque é que anda tão cansado, porque é que chega tão tarde a casa, sem tempo para nada, para me olhar, para conversar, lembro-me de quando ficávamos horas a falar, a beber um whisky do mesmo copo, sem ligar a televisão, toda a noite …

Me sorri um sorriso pontual
Mas faço os possíveis por sorrir, por fazer boa cara, ele tem que trabalhar, eu fico enfiada nesta casa até dar em doida, que saudades do meu trabalho, que saudades de mim.

E me beija com a boca de hortelã
Dou-lhe um beijo, já dei um jeito na cara, penteei-me, lavei os dentes, não quero aparecer desmazelada, por ele , por mim, lembro-me daquelas mulheres que tomavam café de uma xícara rachada, de roupão enxovalhado e rolos na cabeça, isso é que nunca...

Todo dia ela diz que é p’ra eu me cuidar
Digo-lhe que tome cuidado, ele , as crianças, cada vez há mais assaltos, a vida está horrível, sinto-me numa armadilha em casa, dentro de uma armadilha maior que é este país, que futuro é que espera os meus filhos neste país gasto, espremido, cheio de corrupção?

E essas coisas que diz toda mulher
Parece um filme americano, uma caricatura de filme americano, uma doris day a despedir-se do marido e dos filhos um-casal-dois-filhos-menino-e-menina-na-garagem-um-jeep-para-ele-um-smart-para-ela-marido-executivo-mulher-dona-de-casa-que-horror. Quando é que isto nos aconteceu?

Diz que está me esperando p’ro jantar
Digo-lhe que espero por ele, pode ser que se lembre, que saudades de jantarmos os quatro, os miúdos bem dispostos, agora chegam, comem a correr, enfiam-se nos quartos a pretexto de estudar, ficam horas no messenger, no facebook, ele telefona, sempre atrasado, sempre cheio de trabalho e eu sozinha, a deitar fora os restos da experiência culinária, com lágrimas de raiva, porque é que não encomendo pizza para todos, porque é que me preocupo com esta gente que não me liga nenhuma.

E me beija com a boca de café
Um beijo rápido, não-sentido, ausente, ele já não está aqui, já está na cidade, nas lutas, nas conversas, na animação de que eu não faço parte.

Todo dia eu só penso em poder parar
Li que nos anos 50 a “dona de casa ideal” andava drogada com speeds o tempo todo. Loucas. A fazer um trabalho monótono anos a fio, até enlouquecerem. De tédio, de desespero.

Meio dia eu só penso em dizer não
Se continuar assim vou para a rua gritar. Vou buscá-lo ao escritório e abaná-lo. Casei-me contigo para mudar o mundo, casei-me contigo no meio de uma revolução. Casei-me contigo para não ser igual aos meus pais e agora estou a pagar uma casa a prestações num resort com campo de golfe?

Depois penso na vida p’ra levar
E os meus filhos? Tiro-os do colégio e dos amigos, das festas, das coisas a que dão tanta importância? Mas como é que eu criei estes dois mini-conservadores, estas duas criaturas sensatas, que até à missa querem ir, vestidos de igual aos outros, a fazer tudo o que os outros fazem?

E me calo com a boca de feijão
Mais vale estar quieta, quieta e aguentar. Isto são hormonas, há-de passar, há-de passar.

Sexta à tarde como era de se esperar
Dois dias, convencê-lo a ficarmos quietos dois dias, mandei as crianças para casa dos avós, dois dias sem saídas, sem jantares de amigos, sem as mesmas conversas, os mesmos programas.

Ela até que me espera no portão
Dois dias - Sábado e Domingo só nós, não é pedir muito…

Diz que está muito louca p’ra beijar
…a ver se o que tínhamos ainda cá está, debaixo desta trapalhada toda, destes pesos todos que arranjamos para a nossa vida.

E me beija com a boca de paixão
A memória de quando éramos adolescentes, o sobressalto da paixão, eu sem ele morro, que saudades, que saudades de me apaixonar outra vez.

Toda noite ela diz p’ra eu não me afastar
Temos que achar isso de novo, não se pode ter perdido…

Meia-noite ela jura eterno amor
…onde é que deixamos as pernas a tremer, o coração a bater tanto que parecia que ia saltar pela boca, as mão dadas com urgência.

E me aperta até eu quase sufocar
Tanta pressa que nem conseguíamos tirar a roupa, a tropeçar, rápido, rápido, os teus pais, tens a certeza de que a porta está fechada à chave…

E me morde com a boca de pavor
…que medo se perdemos isto, que medo, o que é que eu faço o resto da minha vida, presa aqui, onde é que está o homem de que eu gostei, gosto, onde? E eu, se calhar ele pensa a mesma coisa de mim, se calhar está tão preso como eu.

Todo dia ela faz tudo sempre igual…
Você não entende nada do que eu digo
Você não vê que eu quero é correr mundo, correr perigo,
Eu quero é ir embora, eu quero dar o fora,
E quero que você venha comigo
Eu quero que você venha comigo.

Este foi meu terceiro presente
Já recebi carinho feito palavras da Rita e da Lu Guedes
Teresa é amiga querida, minha e do Borboletas. 
Já esteve aqui (Entre Amigas) e aqui (Vá fazer a cama),
 com sua escrita elegante e cinematográfica. 
Ela me trouxe o cotidiano com suas perguntas de cada dia.
Gosto das cenas que ela me faz (vi) ver.
Gosto dos olhos verdes que ela me fez lembrar.
Um obrigada vale por um abraço?

8 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Que texto criativo! Uma leitura nova para uma velha canção, belo presente!
bjs
JUssara

Dona Mila disse...

Me angustiou. Juro.

Amanda disse...

Ai meu deus! Nao tive nem tempo de comentar os outros e ja tem um novo! Esse blog da borboleta ta a mil! Quer dizer, so esse não, todos os blogs, né?!

Estou adorando a serie! O post da rita foi uma homenagem linda! :)

beijos!

HG disse...

Belo e instigante presente...
Que tal pensarmos?!

Drixz disse...

Lindo texto, triste destino de tantas mulheres, de tantos casamentos. Chamo meu marido de remédio anti-monotonia e ele diz que eu sou o caos da vida dele. Espero continuarmos assim...

Long Haired Lady disse...

voce merece! voce merece! rsrs

dia 12…hummm , estou pensando...

beijos!

Lilian disse...

Borboleta aniversariante,

Voce tera que achar uma caixa beeeem grande, num cantinho bem especial do coracao, para guardar todos esses presentes!

Esse, agora, me trouxe uma certa melancolia. Mas me lembro que, nao fossem os dias tristes, certamente teriamos menos talento para aproveitar os maravilhosos.

P.S. To emprestando as palavras da Amanda:se deixar de passar um dia por aqui fica dificil comentar tudo! Coisa mais chique, menina, parabens pra vc!!!

Belos e Malvados disse...

Belo presente. E que faz pensar. (Lu estou aqui todos os dias, viu? Mesmo quando não comento). Abços.

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