quinta-feira, 3 de março de 2011

Antiga

Eu gosto muito de receber. Ter pessoas queridas na minha casa é sempre motivo de alegria. Gosto de cozinhar, preparar o ambiente, procurar agradar. Gosto dos preparativos para que venham. Gosto quando chegam, ruídos novos, novas palavras, risos, papos. Gosto do alvoroço, de um passo além na intimidade. Este mês de março tem me dado isso. Ontem foi a Dai e seu lindo Mulheres, Películas, Amor e Lágrimas. Hoje, a idéia Março das Mulheres trouxe-nos as palavras da Caminhante Diurno para o Eu Sou a Graúna. Trouxe estas palavras em forma de força, em forma de caminhos, em forma de interpelação. Palavras em forma de Ana Terra. Já faz tempo que gosto de ler a Caminhante, tê-la em casa é pura festa. 

Vão lá no Eu Sou a Graúna, leiam, dêem pitaco, digam o que pensam. Ontem foram 92 acessos, tá vendo a Borboleta toda colorida e sorridente?

A minha querida K. escreveu, em um dos seus amigáveis comentários, que ler assim sobre as mulheres permite que ela se conheça melhor como uma. E como gente. Eu fiquei feliz com este dizer porque a idéia deste mês intenso em mulherada é também isso: dar pistas de que A mulher não está por aí, ícone a ser seguido, mas Uma mulher é um fazer-se, um tornar-se, um reconhecer-se. Eu também faço isso, K., em me olho. E o que eu vejo? Vejo alguém que permanece. Tem uma eu que está aqui este tempo todo. E que muda, por vezes, mudando o dizer sobre si mesma.  

Sabe, eu vejo uma mulher antiga. Colorida com intensidade, mas meio desbotada, daquele desbotamento que é conforto de uma ambiente muito usado pela felicidade, sabe? Como uma cozinha daquelas com panelas de bronze e colheres de pau. Pois sou assim, antiga. Antiga na forma de ver a mim mesma, antiga no meu jeito de comprender e agir no mundo ao meu redor. O meu mundo é de outrora. Se não sou exatamente uma estrangeira na terra (e muitas vezes sou), tenho convicção de que sou uma estrangeira em minha geração. O meu mundo é de outrora. E do tempo de antigamente. Um mundo de café coado em pano, cadeira na calçada, envelope e papel de carta, máquina de datilografia, criança brincando de esconde-esconde. Eu gosto de velas. De lampiões. De seda. Até dou meus passinhos em direção ao futuro, estou aqui não estou? Tento aprender os novos recursos, ando nas novas redes sociais, pelejo pra me enturmar. Mas, no frigir dos ovos, eu sou uma pessoa que ainda usa expressões como esta: no frigir dos ovos. Sou alguém que sabe o que é carpideira. Que usa gírias como "tá massa"  compreendendo que está atrasada mas sem saber em relação a quê. Sou tão antiga que ruborizo. Que digo videocassete. Que sinto falta da radiola, do LP, do som tão impuro que varava a alma. Sou antiga a ponto de gostar de ir ao cinema namorar um filme e não que ele me apareça em pequenas e individuais telas. E que seja preto e branco, ah, que alegria me dá. Sou antiga de um jeito que gosta do Zeca Baleiro, mas ouve uma vozinha interna lembrando que não se faz mais letras de música como o Vinícius fazia. Aliás, o tipo de pessoas que acha que não se faz mais nada como o Vinícius fazia, inclusive namorar mulheres. Sou antiga no meu desejo de bem viver e de viver bem. Gosto de conforto. E, no esquema em que vive-se, o esquema é ralar muito pra garantir o tal. E ralo. Mas também sou das que pensa que neste processo há um limite. O limite do lembrar. Não preciso de um carro do ano, não preciso de etiquetas na roupa, não preciso de telas planas em todos os ambientes da casa. Não precisar é uma forma de liberdade. Quero só que haja transporte de um lado pro outro, não andar nua, ver o que gosto na hora que posso. Quero apenas o tanto pra tomar minha cerveja, visitar e receber os amigos, comprar meu gorgonzola. Ah, e pagar a tv por assinatura e ver tanto TCM quanto queira. Quero só poder andar de camiseta larga e descalça enquanto preparo o café da manhã. Quero só não saber que deveria ser sempre jovem e poder  envelhecer tranquila, como minhas rugas lembrando de cada sorriso, cada beijo, cada preocupação, cada noite insone. Sou antiga. Gosto e coisas meio desbotadas e com cheirinho de naftalina. Qualquer dia coloco um balanço no jardim. Sou antiga, e daí? Daí nada que o que eu sonho mesmo é que cada uma e uma possa ser, novo ou antigo, ser. E daí, se esse é um sonho antigo?

8 comentários:

Amanda disse...

Acho bonito ser antiga. Mas é bom lembrar que o passado não é tão cheio de virtudes como o cinema tenta mostrar. Ser mulher no passado, então!

Eu tenho esse sonho doido de viajar no tempo. Mas tipo, viajar e voltar. Quando viajo no espaço (principalmente aqui na europa) fico imaginando como deve ter sido aquela rua ha um, dois, cinco séculos atras. E tbm fantasio muito com a cara das pessoas do passado vendo nosso mundo hoje. Dai me lembro que se eu mesma fosse pro futuro, provavelmente voltaria traumatizada.

Quando era adolescente achava que devia ter vivido nos anos 60 e 70, mas hoje eu tô bem no século 21. E se pudesse escolher mesmo, acho até que preferiria ter nascido no futuro - quem sabe nossa sociedade não estara um pouquinho mais evoluida?

Borboletas nos Olhos disse...

Amanda,

já disse que sempre amo seus comentários? Pois é, amo. Sabe, eu não queria viver antes não. Nem depois, provavelmente. Acho que ser desadaptada é característica minha mesmo. Gosto de viver hoje mas com esta ressignificação do que é antigo. Esta antiguidade é minha, da forma como vejo um passado, como se eu "lesse" uma fotografia e a recriasse, sabe?
Eu também já tive vontade de viajar no tempo, mas desisti. Porque ir ao passado e desmistificá-lo seria triste e ir ao futuro, temo, possa ser assustador. Tem muita coisa que a gente desconstruiu (ainda bem) mas não colocamos nada no lugar (infelizmente). Daí a minha angústia ante o vazio da moral/ética. Enfim, eu já disse que amo seus comentários? ;)

Long Haired Lady disse...

não é saudosismo, nem romantismo, mas o tempo nos dá uma cor diferente, passamos a ver as coisas com um distanciamento que nos permite notar a essência das pessoas , o significado das atitudes, nos permite também escolher entre o saber fazer e o já encontrar tudo pronto.

HG disse...

Antiga e linda!!! SEJA.... O QUE QUISER.

jacques disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Lílian disse...

Liga não, borboleta, é lindo ser antiga.

Ser antiga é só um jeito de não ceder à "pasteurização". À obrigação imposta sabe-se lá por quem de que tudo tudo tem que ser muito rápido, indolor, repetível e totalmente eficiente, entre outras características do mundo pós-moderno. E se você não acompanha, olha só, alguma coisa está errada. É você quem deve ter algum probleminha...

Estão se esquecendo da velocidade de nossa matéria, do tempo de nossas células, do mover único de cada alma. Porque nem nosso corpo foi 'programado' prá isso. Prá tanta radiação,pra tanta 'comparação', pra tanta 'evolução'. E será mesmo que todos os valores têm que ser mudados? Modernizados?

Dia desses eu soube que na Suíça pretendem descriminalizar o incesto - afinal, se são adultos, qual é o problema? Que mal pode haver? Cada qual que cuide de sua vida, não é mesmo?

Não é saudosismo. Certamente há um quê de romantismo. Mas, diante de tudo isso, não tenha a menor dúvida: eu também prefiro ser antiga.

Grande abraço!

Atitude do pensar disse...

Sabe, desde bem novinha gostava do velho...e eu, confesso ler-me nele.
Não consigo lidar tão bem com o novo. Tento. Assim como tento viver.
As vezes, chego a pensar que não sou desse tempo. Mas aí, lembro do que ele me propõe. Em sua plenitude.
Então volto pra cá. Vivo o hoje. Mas confesso, sou saudosista. Talvez mais do que devesse.
Mas sou. Me vejo assim. Me leio.
É bom nos enxergar, Lu. Mas somente quando o espelho não mente...assim, fica menos sofrivel. Pois lidar com a verdade dói, porém, mais ainda com a mentira que contamos pra nós mesmos, e sobre nós.
Bjin,
K.

Rita disse...

Luciana, falei com você mais cedo a respeito desse post, de como adorei. Não sou assim não, acho que me enquadro bem nos dias de hoje, apesar de ter lá meus saudosismos e algumas idealizações.

Mas gosto do Baleiro, ah, sim. Hoje mesmo ele cantou pra mim.

Amanda, outro dia escrevi lá no blog que morria de medo de entrar numa máquina do tempo e acabar parando la no tempo da história da Condessa do filme, já viu? Ui, que medo. Deixa quieto, assim tá bom. :-)

Beijocas procês.

Rita

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