segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

M de Março, M de Mulher

Ser mulher. Eita negócio complicado. E difícil paca. Ser complicado e ser difícil são dois registros diferentes. É difícil ser mulher pelos altos índices de violência de gênero, pelos rigorosos padrões estéticos, pela naturalização dos abusos, pelos maus-tratos culturalmente instituídos, pela distorção na formação das crianças, pelas características do mercado de trabalho, pela supervisão acirrada sobre a sexualidade, pelo silêncio em que tudo isto acima descrito e linkado esteve submetido por tanto tempo (todos os posts relacionados neste parágrafo estão no incrível, consistente e envolvente blog: Blogueiras Feministas, vale a pena conhecer).

Mas ser mulher, além de difícil, é complicado. Porque é um tornar-se sem letreiros, placas, sinalização. O feminino é um furo no discurso fálico, uma tentativa, sempre uma tentativa, de dizer o que não é possível por não ter um significante. Mas é bonito, ao ler psicanálise, saber que tornar-se mulher é uma invenção individual. Ser mulher é ser menina, brincar de casinha, fantasiar filhos. Ser mulher é atropelar bonecas com trator e correr nua no jardim. Ser mulher é ser moribunda, tudo ter apenas na memória. É ser recem-nascida e se permitir tudo de novo. Ser mulher é acordar com doces nos olhos e dormir com sal na boca. Ser mulher é ser não, ser véu, é ser o vazio. Ser mulher é ser tudo e tudo doer. É apegar-se ao externo: colar de pérolas, salto alto, batom. É negar, um a um, cada símbolo de ser mulher e pairar, despida, no imaginário de si mesma. Ser mulher é caminhar, tornar-se, fazer-se. Ser mulher é se adivinhar um dia antes de ser. É reescrever. É reescrever-se. É desenhar a carvão, mas já definitiva forma. 

Ser mulher é ser marias, joanas - francesas ou não, ritas, amélias. Ser mulher é saber-se todas e saber-se nada, caleidoscópio do vazio. Ser mulher é agarrar-se aos exemplos e não os repetir, um a um, como um ensaio às avessas. Ser mulher é difícil, tornar-se mulher é complicado. Mas insistimos. E é por causa da insistência na pergunta, mais do que na resposta, que o mês de março será das mulheres no Eu Sou a Graúna. Mulheres Incríveis serão lá apresentadas por pessoas tão incríveis quanto, sejam homens ou mulheres. Estarão presentes personalidades históricas, personagens literárias e cinematográficas, mulheres do nosso cotidiano, Elas. Não são modelos, não são formas, não são regras. São, como na casa de espelhos, possibilidades. Pode-se ver diferente estando em lugares diferentes. O ângulo e o recorte, eis o segredo. 

Estão, pois, todos convidados a ler, a escrever, a saber mulheres. Começaremos com Amélia, que era mulher de verdade. Dia 01/01/11 no Eu Sou a Graúna. 

Já escrevi sobre ser mulher aqui, neste post: Mosaico (você, afilhado, vai gostar. E K., eu acho que você também).

Uma das mais tocantes leituras que já se fez sobre a mulher: Dezoito mil duzentas e cinquenta mulheres (Cracatoa Simplesmente Sumiu, do Alessandro Martins).

A Campanha do Governo Federal pro Dia Internacional da Mulher.

Março
Alguém mais curioso pode (se) perguntar: porque lá no Graúna e não aqui. Há duas boas razões. O Graúna é o que mais se aproxima de um diário, mas vai além, é minha casa de espelhos particular. Nele me vislumbro e me adivinho. Gosto de levar as mulheres pra lá e saber-me um pouco reflexo. Além disto, quero deixar espaço aqui (e o projeto é abrangente e exigente, ocupará o blog diariamente) para colocar os links de postagens do Blogueiras Feministas e outras manifestações afins. Por fim, março é o mês do meu aniversário e sei que vou querer prosear um tanto sobre isso, sobre mim, sobre, sobre, sobre. Mas, tenho certeza, haverá leitores o bastante lá no Eu Sou a Graúna para prestigiar todas as convidadas e convidados. 

Dos desejos
E eu só fico esperando que, em algum março desses que ainda vão chegar, seja muito comum, simplesmente isso: cada um e cada uma, poder dizer sim e não. Mas poder de verdade, sem ficar com medo de ser chamada de fácil ou que "ele" não telefone de novo. Sem ficar com medo de apanhar. Sem ter medo de ser demitida. Sem ter medo de ser "desleixada". Sem ter medo de ser "péssima mãe". Sem ter medo de ser encalhada. Sem ter medo de ser ridicularizada. Sem ter medo de sorrir e ter rugas. Sem ter medo de comer, de beber, de rir, de amar. Sem ter medo.


16 comentários:

Long Haired Lady disse...

medo e você não combinam!
eu era uma feminista ferrenha, apesar de amar cantar o samba da amelia...rs
um dia me peguei amando cuidar de alguem, tendo prazer em cozinhar, lavar, eita!

S. disse...

http://mudandoossentimentos.blogspot.com/2011/02/modos-de-usar.html

também isso... sincronicidade???

te amo. muito!

Palavras Vagabundas disse...

Eu tenho a força! Apesar dos pesares é muito bom ser mulher!
Qual dia de março é o anivesário?
bjs
Jussara

Júlio César Vanelis disse...

Madrinha querida, sua linda... Achei lindo seu post, de verdade... Foi além do necessário o seu apelo, foi simplesmente tocante... Tão tocante que até eu me identifiquei... xD
Não sei se posso captar exatamente a dimensão do problema, sabe? Sim, eu tenho consciencia de tudo, é claro... Eu convivo com mulheres, e as amo, por isso sinto parte da dor que elas sentem. Mas eu semrpe tenho a sensação de que é pior do que eu to pensando. O máximo que eu posso fazer é tentar comparar isso com o que eu passo por ser Gay, mas ainda assim não tem como saber.
Por isso gosto tanto do seu texto, madrinha... Ele me (nos) faz lembrar tudo que as mulheres já passaram e passam, e como elas m(vocês) são e foram importantes para essa revolução de ideias que agente vive agora...

Um grande beijo, madrinha
O post sobre a Cássia Eller já está em fase de criação... Logo logo tu recebes meu e-mail... xD

Até o próximo...

natália persi disse...

Você escreve tão bem! Adorei esse último post...
Você está na minha lista de favoritos, espero que não se incomode (:
Vou passar sempre por aqui, beijinhos

Atitude do pensar disse...

Quando criança queria ser menino; brincar de carrinho, pular nas coisas.
Fui uma criança solitária e, minha imaginação foi minha grande companheira.
Hoje - adulta, mulher -, penso no quanto posso "ser", simplesmente sendo uma mulher.
Lendo seu post, Lu. Não tive dúvidas, é bom ser mulher. Pois é um ser tão amplo, de uma dimensão quase nunca percebida e, infelizmente, por nós mesmas - mulheres.
Bjin,
K.

Cáh disse...

Quase morri! rs. De ME descobrir aqui... Faltava sempre alguma coisa que eu não sabia sobre mim, sempre vai faltar, mas hj, especialmente hj, falta menos. Menos.

"Ser mulher é acordar com doces nos olhos e dormir com sal na boca. Ser mulher é ser não, ser véu, é ser o vazio".

Fiquei encantada, fiquei besta, fiquei aqui por um bom tempo lendo, lendo de novo e no final, ganhando uma coragem que sempre nos falta.

Sem medo, hj e sempre, não é?

Um imenso beijo!!! E vai ser uma honra participar deste mês no Graúna.

HG disse...

"vim saudar, cunhãs, irmãs de toda a terra..."
Cunhãs- Karine Cunha. Vale a pena ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=eb8qPvwh-jA
Beijosssssss

Menina no Sotão disse...

Eu tenho que confessar que senti muitas saudades daqui. Foram apenas alguns dias, mas parece que faz um ano que não passo por esse caminho de palavras que parecem ser uma espécie de diálogo entre nós duas. E amei o que disse sobre o Colin Firth. Ele é e sempre será o "meu" Darcy e não importa por qual caminho ele vá...
E quanto a questão da mulher. Acho tão difícil ser mulher com tantos rótulos e coisas mais. Eu escrevi um post sobre isso, não sei quando vai ao ar. Mais vai.
Saudades de ti dona Borboleta.
bacio

Ps. Estou voltando de viagem, uma semana que por alguma razão se multiplicou e ainda preciso desafazer as malas e retomar meu passo por aqui. aff

jacques disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Belos e Malvados disse...

Lu, juro que não tinha nenhum comentário lá, além do que postei agora. De vez em quando o blogger faz isso. Já me falaram antes.

Belos e Malvados disse...

Lu, juro que não tinha nenhum comentário lá, além do que postei agora. De vez em quando o blogger faz isso. Já me falaram antes.

Rita disse...

E que venha o mês das reflexões. Vou ser mais ouvinte que falante, mas toda forma de mulherar vale a pena.

Beijo
Rita

Valentina, uma mulher que fala disse...

O MEU BLOG APOIA A SUA CAUSA.
PARABÉNS E CONTE COMIGO
VALENTINA
BLOG MULHERES FORTES LONGE DE CHUPINS VIOLENTOS
DIA NÃO À VIOLÊNCIA FÍSICA, MORAL E VERBAL CONTRA A MULHER
http://pravocemulheratual.blogspot.com

Valentina, uma mulher que fala disse...

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PARABÉNS E CONTE COMIGO
VALENTINA
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DIA NÃO À VIOLÊNCIA FÍSICA, MORAL E VERBAL CONTRA A MULHER
http://pravocemulheratual.blogspot.com

Cláudia disse...

Estou sem palavras. Você já disse tudo! Parabéns por escrever tão bem, e saiba que você é um grande exemplo para mim. Acompanho o blog há alguns meses, mas só agora que resolvi comentar.

Um grande abraço!

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