terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Lei do Cão e Outras Conversas

Acontece que meus avós conseguiram manter catorze filhos vivos, mesmo sendo pobres de marré descer e morando no sertão nordestino na época em que isso mais ou menos equivalia a uma expectativa de vida de 30 anos (quem não leu Morte e Vida Severina, deveria). Quando eu nasci, eles já estavam morando em Fortaleza. Na minha infância, com exceção do tio Gatão, que na época morava em Pernambuco e do Tio E. que morava no Amapá, todos os outros moravam na mesma cidade. Aos domingos, de quinze em quinze dias, lá estávamos - todos: filhos, maridos e esposas, netos - na casa do Zeca e da Dilurde. E no começo do ano era feito um sorteio de duplas pra definir quem ia cozinhar (sempre um homem e uma mulher). Ou seja, eram feitas as compras (quem podia mais contribuía com mais) e duas pessoas cozinhavam pra todo o resto que ficava jogando baralho, rindo, bebendo ou fazendo qualquer outra coisa como refazer o vídeo do Michael Jackson. Na hora de comer, muito simples: primeiro alimentava-se as crianças de até cinco anos de idade. Depois, tudo que tinha sido feito era colocado na mesa e dada a largada: lei do cão. Quem chegou, chegou, quem não chegou não chega mais. É preciso esclarecer duas coisas: 1) sempre era feita muita, muita comida; 2) nunca sobrava nada, nadinha, não importa quanta comida tivesse sido feita. Então não tinha nhenhenhém nem ninguém botava banca; se você perdesse tempo reclamando, se você se distraísse na tv, se você estivesse conversando: que peninha! não comia.

Outra: um certo tempo meus avós paternos moraram num sítio num município vizinho. Quer dizer, sítio é benevolência, não tinha uma árvore, não tinha água encanada, não tinha energia elétrica. O chão era tão seco que nem milho e feijão queriam nascer. E, nas férias, todos os netos queriam ir pra lá. E íamos. Corríamos. Chupávamos cana. Jogávamos sinuca à luz de lampião, ouvíamos histórias de trancoso contadas por minha avó, perseguíamos as galinhas, ajudávamos o vovô a buscar água no poço. As maiores ajudavam lavando a louça e cuidando das menores. As menores ajudavam não atrapalhando. Éramos umas quinze crianças, talvez um pouco mais. O riso ainda ecoa entre as paredes, é só passar por lá pra ouvir. 

Sabe, meu avô adorava exame, cirurgia, remédio de gosto amargo. Coisas que enfatizassem o tratamento. Quando ele adoecia, bastava levar uma espetada no exame de sangue que ele já melhorava. Ah, quando ele adoecia, não tirava a barba. Aí meus tios, meus primos e meu irmão (todos eles, juntos, não valem um Cibazol vencido) não faziam a barba na sexta para, no domingo, estarem prontos pra chegar perto do vô, acariciar o rosto e gemer: huummm, doente! Meu avô foi a pé do interior do Ceará até Teresina com meu pai recem-nascido no colo, atrás de uma vida melhor, fugindo da seca. Meu avô gostava muito de comer carne. Meu avô fazia jejum na Semana Santa: ele só comia duas vezes ao dia, em horas pré-estabelecidas, não tomava banho de quinta a sábado, não jogava nem nada assim nestes dias. Meu avô usava chapéu...eu não sei se vou esquecer estas tantas coisinhas miúdas. Eu não sei se logo vai virar bruma. Mas eu sei que sou grata por ter vivido estes momentos todos com ele.

Queria dizer meu obrigada muito sincero e carinhoso a cada um de vocês que vieram até aqui e fizeram, da solidariedade, palavras de conforto. Li cada comentário como um abraço e isso me fez muito bem. No momento em que me sentia mais à deriva, lembrava do carinho de vocês. Eu nunca cesso de dizer o quanto a presença de vocês faz minha vida mais intensa e rica.

Março vem aí e, com ele, aquela idéia que eu falei de um mês, no Eu Sou a Graúna, só com posts sobre mulheres admiráveis. Já sabem, espero contribuições. Aos que já se ofereceram ou foram confirmados por intimação, eis uma proposta de calendário:

Fred Caju- poesia - 03 de março
Menina no Sótão - Emily Dickinson - 07 de março
Clara - Hilda Hilst - 11 de março
Juliana - Jane Austen - 23 de março
Atitude do Pensar - Virgínia Woolf
S. - As Mulheres da Família - 28 de março

Wonderwoman - ????????? - 17 de março
Amanda - ?????????? - 20 de março
Belos e Mal ???? - 30 de março

Minha idéia é que os posts convidados sejam enviados com dois dias de antecedência, pode ser? Enviem pra este email: borboletasnosolhos@gmail.com. Os anexos são bem vindos (imagens, vídeos, desenhos de sua própria autoria...).

13 comentários:

Belos e Malvados disse...

"Jesuis" estou na lista mesmo. Deu frio na barriga agora.

Rosa Lopes disse...

É hora da borboleta deixar as emoções castigarem o corpo.
Elas também são homenagem nessa hora.
E logo as coisas lindas pra se lembrar serão tudo.
bj

Atitude do pensar disse...

Lu, tempo de ser voltar à ser ovo, passando à ser larva, de lagarta a crisálida, até chegar à fase adulta - Borboleta. Isso, querida Borboleta, não deve ser esquecido e, portanto não se tornará bruma...apenas a dor de cada fase será amenizada, mas as mutações não!
Cheiros, abraços, afagos...

Dai disse...

É uma linda história e vc a conta como ninguém. Vontade de jogar sinuca à meia luz e correr para afanar as sobras da mesa. Eu só conheci um dos meus avôs, que se foi quando eu tinha 9 anos. Lembro vagamente da careca dele, de sua simpatia, de que ele gostava de feijão verde com coentro, cebolinha e manteiga da terra - assim como eu. São lembranças que sempre estarão comigo. Já minhas avós, eu conheci bem, morei com as duas e, quando as perdi, doeu bastante. Mas ficaram as histórias, as lembranças, esse pedaço bonito do que somos. Que vc fique bem e possa, em breve, curtir a saudade sem o pesar do luto.

Dai disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
HG disse...

Teu pai é a cara do teu avô!

Menina no Sotão disse...

Eu viajei aqui na sua narrativa. Sabe? Viajei para além de mim. Lembrei de minha infância e fui confundindo com a sua. São totalmente diferentes, mas são tão parecidas. Nem tente entender.
São aquelas coisas antigas que surgem na mente quando você se depara com a lembrança do outro. bacio

Amadeu Neves da Silva disse...

Um avô,que transmite tanta sabedoria,gratidão e reconhecimento aos seus netos com certeza que morreu feliz,por deitar e deixar a este mundo sementes tão generosas e gratas.Paz à sua alma|||

Rafa disse...

Ô lindona, o que aconteceu? Espero que vc esteja bem. História de avós é a coisa mais açucarada do mundo, né não?

Bj

P.S. Como Setembro demora...

Júlio César Vanelis disse...

Ahh madrinhaaa... hahaha... Essa lei do cão é coisa de Cearence... Na casa do Vovô e da Vovó tbm era assim... hahahah, muito legal...
Sabe que vc falu em post sobre mulheres... O meu proximo post vai ser sobre mulheres, só que foram as mulheres que passaram na minha vida, enfim, não são assim famosas... Mas eu vou ver se eu acompanho esse outrp blog tbm... xD

Um beijaço, Madrinha... Até o próximo

Dona Mila disse...

Deu uma vontade agora de correr e abraçar minha avó... a única que ainda tenho por perto. Às vezes tenho a certeza idiota que ela vai durar pra sempre aqui, então postergo as visitas. Amanhã sem falta vou lá tomar um chimarrão com a minha véia.

Obrigada, Borbô!

Anônimo disse...

Mais um texto que vou mandar por e-mail ao Felipe! :D


Mari


ps: Eu perguntei a ele (Felipe) se levaram o chapéu pro velório. Era a marca registrada dele.

Anônimo disse...

O Edmar tá a cara do Zeca nessa foto..


mari

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