quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Esse Seu Olhar

Hoje o meu dia não foi moleza e eu podia me agarrar nisso como bóia e fugir dos assuntos nada tranquilos que ficam querendo aparecer aqui. Seria bom contar pra vocês das desventuras cotidianas e das alegrias que construímos por força da vontade e um bom vento. Daí contei, mas foi aqui. Porque eu estou pensando mesmo é em privacidade. Se a Ivete Sangalo dissesse, bem no meio do show: "quem se importa com privacidade levanta a mão", eu não levantaria. Primeiro porque eu não estaria lá, a não ser que alguém me pagasse muito dinheiro. Segundo, porque demandaria uma resposta conflitante em mim. Tentando explicar. Eu hoje fui pra minha varanda e comecei a dançar. E percebi que se houvesse alguém na casa vizinha - que fica bem em frente - ia me ver. Que se houvesse alguém na rua, andando, sei lá, ia me ver. E que se minha irmã quase vizinha viesse me visitar, ia me ver. E foi o que aconteceu. Lá vinha ela, na rua, riu e disse: ei, tu tá rodando e dando brecha. E eu pensei: e daí? 

Pois é, se privacidade for pudor do corpo eu estou lascada. Porque não tenho nenhum. Quando morava no meu aparatamento, em Fortaleza, passava o dia só de blusa e atendia a porta assim, corpo inclinado pra frente fazendo de conta que a porta servia pra esconder alguma coisinha. Não por mim, mas pelo interlocutor, tadinho, que geralmente ficava meio constrangido. Claro que eu não ando nua por aí (senão estaria presa, né). Nem exponho intencionalmente partes do corpo que do lado de cá do mundo se convencionou cobrir. Mas se rasgar uma calça, abrir um botão, der o vento numa saia estilo Marilyn, precisar rasgar uma anágua pra socorrer um ferimento (ai, tá, faroestes demais) nada disso me constrangeria nem poria cor nas faces. Agora pergunta a cor da minha lingerie, vai. Rubor com a mais absoluta certeza. Quer dizer, fazer pode, falar é que é difícil. Minha privacidade é na minha cabeça. No que eu penso. Na forma de nomear meu desejo. A privacidade é de dentro pra fora, em mim. 

Eu ja disse que sou meio insensível em relação às outras pessoas? Pois é, eu sou (momento confissões de uma balzaquiana). Eu não me importo nadinha com os que os outros pensam sobre mim ou sobre meus comportamentos. Vou refazer a colocação...é assim: se for alguém que não conheço, com quem não convivo, não me importa nada de nada que a outra pessoa me considere isso, aquilo, ou que condene meu jeito de ser. Desta forma, se alguém na rua grita Gostosa! não me sinto lisonjeada nem ofendida. É, pra mim, indiferente. Se um cara me olha com insistência (tipo paquera, termo antigo, eu sei) e eu não estou interessada, não tem importância pra mim que ele passe horas, dias, meses, fazendo isso. Meu espaço subjetivo não registra o olhar, entende? 

Claro que todo esse raciocínio é em relação às pessoas que não fazem parte ativa e cotidianamente da minha vida. E a opinião e julgamentos das pessoas a quem eu quero bem e com quem eu me importo (como vocês, que são tão gentis em virem aqui ler e até comentar)?  Bom, daí eu fico torcendo que estas pessoas já me conheçam e amem o suficiente pra ver mais do que os comportamentos isolados ou pedaços fragmentados de mim. Ou ainda, a presença, o olhar e o dito de alguém que me parece interessante? Da mesma forma que, vindo de quem não interessa, não lisonjeia nem ofende; vindo de quem interessa faz uma coisa ou outra e, às vezes, as duas. Eu gosto de ser olhada, paquerada. Porque, e aí é uma perspectiva muito particular sobre mim mesma e sobre o mundo, eu acho que quem me paquera deve ser uma pessoa interessante. Porque eu não estou bem enquadradinha nos padrões. Na verdade, eu passo bem longe deles, tanto na forma do corpo como nos traços do rosto. Daí que, se a pessoa me viu, viu mais do que uma fórmula ou um modelo. 

Nesse contexto vocês vão entender porque o texto da Wonderwoman desestabilizou todo meu mundinho. Ela apontou, sem dó, que esse olhar (que eu ou ignoro ou que me dá prazer) pode ser (e geralmente é, a não ser no meu mundo de Alice) uma violência. Que esse olhar agride e ofende. Fiquei sem chão e ainda estou. Porque concordo racionalmente (como não concordar? tá tudo lá, claro e lógico) mas eu ainda não sinto assim. Pela minha história, acho; pela minha abestalhação que me faz passar incólume pelas situações; pela minha carência, provavelmente, de querer ser querida...são muitas possibilidades entrelaçadas.

Sabem, eu mudo. Mudo por causa de conversas, de exemplos, de aprendizados. Mas tem que vir de uma demanda minha, da reconfiguração do desejo. Não pelo julgamento moral, mas por uma necessidade ética. Quem tem idéia é pra mudar, penso eu, até passar a pensar outra coisa. O certo é que minha tolerância ao outros é enorme, eu realmente não me chateio com muita coisa alheia não...Isso não vem, recordo, de uma bondade essencial ou de uma generosidade, mas desta distância entre o que ocorre e o que me chega efetivamente (vocês já estão com medo de mim? please, eu sou o inverso da Greta Garbo: I don't want to be alone!). Assim, esse post não tem fim. Não tem moral da história. Não tem verdade de bolso. Tem que o olhar do Outro ofende, mas define. Que o desejo do Outro deforma, mas também informa. E que eu não tenho espelho em casa porque gosto de me ver no olho alheio. 

E eu tenho um meme fofo da Dani pra responder e uma idéia hiper criativa pra roubar do Blog da Clara... mas vai ficar pra amanhã.

9 comentários:

Atitude do pensar disse...

Queria ser mais assim...leve!
Sou tolerante e, as vezes, até demais.
É engraçado, pois apesar das mutações eternas, vou me reconhecendo - nas pessoas, nas escolhas, nos gostos -, isso é fácil pra mim.
Mas acabo por esperar que as pessoas me enxerguem - penso ser transparente -, e me decepciono com os que não são capazes.
Abraços límpidos,
K.

Long Haired Lady disse...

minha querida você está certissima.
essa historia de se importar com os outros sob esta ótica é pura bobagem.
nada melhor que você estar bem consigo mesma.
beijos linda!

Palavras Vagabundas disse...

Lu, sou meio como você...mas sempre achei que não ligava (ou não via) por que era meio lesada!
bjs
Jussara

Ana Duarte disse...

Borboleta, Ola,

Vi no seu texto, e na sua auto-definiçao algo que eu gostaria de adotar pra minha vida.
Sabe, as vezes me pergunto porque me importo tanto com a opiniao das pessoas, que como vc mesma disse nao tem nada a ver com a nossa vida...
é "engraçado" isso, e com ctz menos divertido pra quem se importa realmente... como eu.

Agora se vc me perguntar pq sou assim, nao saberei te responder.
Quem sabe o tempo e as experiências do dia a dia mudem isso em mim...
Porque acho que essa atitude deixa a vida mais leve.
Nao é?

Bjos e so nao passo mais por aqui porque minha vida esta uma loucuraaaa!!!

Júlio César Vanelis disse...

Madrinha, você consegue provocar efeitos inimagináveis...
Esse foi um dos posts até hoje com que eu mais me identifiquei, mas também foi o que eu menos me identifiquei... haha
Eu me importo muito (mas muito) com o que as pessoas estranhas pensam de mim. Eu tento afastar isso de mim, porque eu não acho que isso seja saudável, sabe? Mas quase uma caracteristica minha... Não dá pra simplesmente parar de me improtar.
Mas aí você chega e começa a falar dessa coisa de se sentir desejada...Nossa, você não sabe como eu tbm adoro isso... Acho que não é um pecado, é? Se o outro tem a intenção ruim, não importa... O que importa é o efeito que isso causa no Ego... hehe

Um beijão, dinda... Até o próximo

Rafa disse...

Que post-espelho! Você tá aqui em reflexos que mostram e escondem. Adorei. Eu preciso me importar menos, desaprender a dar importância...

Bj
P.S. Setembro já é semana que vem?

Rita disse...

Eu sou de não ligar também. Meio rebeldia adolescente aperfeiçoada para o bem, hehe. Importo-me com a opinião de quem faz diferença pra mim, e mesmo assim procuro me manter honesta comigo mesma. Mas não gosto das cantadas grosseiras, pode?

Ei, eu quero crescer e ter o tanto de fôlego que você tem para escrever tanto tanto tanto tanto tanto....

Bj.
Rita

HG disse...

l.i.n.d.a!

Ana Paula disse...

Eu tenho esse querer de ser querida!... Como você escreve gostoso, que lindo!...me vi ai!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...