segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Da Arte de Convidar

Eu Quero...
E de novo o desejo me faz contar as horas. Tão fácil se pergunta quando, tão rápido eu respondo quero. Como não querer os olhos que me fazem bela, as mãos que me fazem quente, a boca que me faz palavra? Como não dizer os sims que me deixam em vermelha alegria? Eu já sei, não é você. Você lembra, essas palavras foram suas e eu também, porque me dei inteira nelas: 

É só isso que sei: não era você, ainda. Não era sua mão, seu cheiro, sua voz. Não era sua boca e sua saliva, embora tivesse sabor tão parecido. Não era seu corpo, não era sua hora. Embriagada de tempo, abri com chave certa a errada porta. Talvez você nunca seja. Talvez já tenha sido quando eu não disse o possível eu te amo. Talvez eu tenha errado a esquina. A hora. Talvez eu tenha ignorado o sinal e descido no ponto errado. Eu não sei se no ontem ou no depois está o lugar que você ocupa. Mas, na possível incerteza de sentir, digo: você não está no agora. 

E mesmo com as respostas erradas nós insistimos nas perguntas certas. Você quer, com ponto de interrogação. Há medo nas suas letras, eu sinto. Há espera e desejo. Eu não me demoro a dizer: quero, porque eu sei que não há erro, nosso querer não basta. Mas eu vou, há uma plataforma de estação que não precisa de acertos, sejamos um casal só nesse encontro, nesse trem, nessa hora. Nossa hora. Eu vou. 

E Você, Quer?

E continuam, no Olhos da Borboleta, as postagens sobre minha biblioteca, intitulada: Eu, eu mesma, meus livros. Hoje tem de Shakespeare a Nelson Rodrigues, passando por uns livros de psicanálise. 


Quem Vai Querer Crescer?

Eu escrevi o texto que segue lá no Só Miolo de Pote, atendendo ao post da semana. Mas como tem dedicatória e ela geralmente lê este aqui, eu hospedei aqui também. 

Para Rita,
que já cresceu.

Quando eu crescer, usarei chapéus. E lenços no pescoço. E, até, laços de fita em dias de mais cor. Quando eu crescer terei sapatos vermelhos e sonhos azuis e na casa da minh'alma terá um gato chamado Smile que nunca deixará minha angústia sozinha. Quando eu crescer tomarei sorvete com colherzinha vendo cinema nas calçadas e admirando toda gente de bengala. Quando eu crescer serei Senhora e saberei dizer obrigadas e fazer mesuras. No tempo desse quando haverá belezas e bondades e eu nunca mais precisarei dizer que a coisa mais fina é gentileza, porque todos concordarão em ipis e hurras. Quando eu crescer andarei de mãos dadas, com ele ou comigo, e saberei que não faz diferença, somos sempre sozinhos, e isso não me trará lágrima nenhuma. Quando eu crescer, esta solidão, tão grande e tão minha, será habitada pelo amor dele e em dias de ser pequena eu ficarei miúda em sua mão, em seu colo, e saberei a beleza de não ser grande sempre. Quando eu crescer tomarei banhos de chuva até em tempos onde chuva não há e dançarei as músicas que eu inventar. Quando eu crescer meu filho dirá não e sim nas horas certas dele e eu terei a paciência de quem disse sim e não nas minhas horas, certas ou erradas. Ah, no quando do crescer, haverá mar por todos os meus lados, inclusive do lado de dentro. E haverá amigos a rir de eu viver tão em rubro e usar papel toalha quando eu suar vermelhas dores. Quando eu crescer viverei sempre com o coração na mão, sangue nos olhos e o juízo nos pés. Quando eu crescer, saberei o que tiver que saber e saberei que o principal não é saber. Quando eu crescer terei rugas e saias rodadas, quando eu crescer brincarei de andoleta e darei língua e dormirei encolhida em um abraço. Quando eu crescer terei olhos enormes pra ver melhor e saberei histórias de chapeuzinho para netos, filhos e pais, que todos gostarão de vovozinhas saindo das barrigas de lobo. Quando eu crescer trarei saudades no útero e darei a luz a memórias que farão companhias umas às outras. Quando eu crescer não saberei de relógios mas de frutas suculentas, noites estreladas e outras formas do tempo se dizer pronto. Quando eu crescer saberei escrever nas peles e nos olhos e nos afetos e minhas letras serão eu. Quando crescer, recitarei, solene:

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.



Ando onde há espaço:

– Meu tempo é quando.

10 comentários:

Júlio César Vanelis disse...

Adoro suas referncias amorosas, madrinha... São tão poéticas... xD
Esse trecho que você importou de outro post me fez suspirar pela segunda vez, e eu acabei lendo de uma outra maneira, mais próxima...
Já passei lá nos Olhos, para dar mais uma conferida na sua biblioteca...
Achei a homenagem linda, linda demais...

Um beijão... Até o próximo

Júlio César Vanelis disse...

Puts, quase esqueci... Q foto lindaaa que você colocou aí em cima... hahahahahahaha

Mila Lopes disse...

Adorei seu texto, dá vontade de ficar lendo, relendo...adoro! =)
Muito belo o post todo...
Bjs e ótima semana!
Mila

Long Haired Lady disse...

esse post foi arrasador!
o final foi com fecho de ouro, esse poema do Vinicicus é belo, e deveria ser obrigatorio, todas as noites arder...rs

beijo querida!

ps. lembrei-me de Elvis, FEVER!

Rita disse...

Ah, minha linda, como no mundo você pode me dedicar esse texto tão lindo e eu não me sentir privilegiada? Como não ficar aqui com cara de ah,amigos, ah,amigos, ah,amigos... Que lindo, Luciana, que lindo, não consigo dizer mais nada.

Mas eu nunca cresci, né, cê sabe.

Meu tempo também é quando.

Muito obrigada, minha flor. Lindo, lindo, lindo. "Somos sempre sozinhos', mas ó, que coisa boa isso. Né?

Obrigada, muito.

Beijo
Rita

Gui disse...

Ai, marida.

Why so beautiful?

Paulo disse...

Eu sou viciado e fascinado por Shakespeare! Daqueles que se você perguntar por uma peça favorita, não vou saber falar, vou citar várias!

Mas amo de paixão Otelo. A história do ciúmes desenfreado dele me fascina! E não, não me identifico com ele... às vezes é com a Desdêmona, outras como Yago mesmo, hehe...

Atitude do pensar disse...

Estou oscilante: Entre o "você não está no agora" e o "Quando eu crescer, esta solidão, tão grande e tão minha, será habitada pelo amor dele e em dias de ser pequena eu ficarei miúda em sua mão, em seu colo, e saberei a beleza de não ser grande sempre."
Nem tenho palavras...

S. disse...

lindo, my friend. lindo. sempre. como as amizades. "e quem há de negar, que está lhe é superior?"
xero

HG disse...

Lindo, Lu...
Saudades sempre..
Tem presentinho no Travessia pra ti!

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