segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O Menino, A Curuminha

E aí, o menino. É uma surpresa, tantas vezes, todas as vezes, esse amor. Quase sempre eu o esqueço, miúdo e calado, brincando sozinho. Conta histórias para si mesmo, repetindo as palavras, doces ou não, que ouviu – geralmente de mim.

Mas, é preciso buscar o princípio. E no começo era o verbo: estar e a surpresa: grávida. Uma barriga enorme e o conforto. Nada de enjôos, cansaços ou pernas inchadas. Ele estava aqui, mas era possível não saber. Não saber ser mãe. O mundo todo mudando, a vida toda mudando, o corpo todo mudando ainda mais que tudo e, ainda assim, só no corpo é que eu permanecia a mesma. Era a hora de nascer, mas ele não sabia. Eu não sabia.

Nenhuma dor, nenhum incômodo, nenhum anúncio. Ele estava aqui, quase ali, mas era possível não saber. Não saber ser mãe. Luzes, uma dor estranha e externa na espinha, cosquinhas na barriga. Parecia que não era comigo. Vozes, homens tão brancos, puros do pecado de dar à vida mais uma oportunidade de errar: outra pessoa que nasce. Ele chegou aqui e era possível não saber. Não saber ser mãe. Olhá-lo, pequeno e sujo, em mãos alheias que permitiram um breve contato, um peso ligeiro no peito e o adeus firme; era a agonia, um aperto, um gemido, uma lágrima talvez, porque o rosto estava molhado, mas era, ainda mais, nada saber disto, nada compreender: ser mãe.

Ah, os dias seguintes, a glória do constante repouso, os mimos e cuidados, a luz sempre escamoteada. Nada precisar saber. Ou quase nada. Porque, em espasmos constantes, a hora da amamentação. Uma boca que suga, uns olhos que sugam, umas mãos que sugam. Uma prisão. Eu o segurava e ele me prendia. Mas, também aí, eu nada sabia. Ele estava aqui e era possível, quando ele determinava a hora de parar de sugar minha alma, dele mais nada saber. Não saber ser mãe. 

O que pra mim era tempo, nele foi se fazendo corpo. E atos. E, principalmente, palavras. Ele foi se fazendo, ainda que disto, eu nada soubesse. Não saber ser mãe. E agora, ele brinca no canto do quarto, sozinho, deixando no silêncio a oportunidade de eu ser eu, ser qualquer coisa que me impede de perceber: não saber ser mãe. É possível ele estar ali e eu não saber.

De repente, um som, parece-me um grito: ma mãe! Ele diz, eu não sei porque ele diz e corre para mim, num abraço que é um crescendo na aproximação, aquelas mãozinhas quase num aceno, o equilíbrio forçado da corrida, o calor e a doçura de sua pele.

E aí, o menino. É uma revelação. Ele me consola. Ele me ensina. É possível ele estar aqui e eu saber: ser mãe. É possível ele estar aqui e eu saber: amor. É possível ele estar aqui.

Curuminha

E o Chico Buarque consegue dizer tanto e tão lindamente...cito três, poderiam ser tantas. 

Esta canção que se segue se chama Uma Canção Desnaturada. Há canções que me rasgam de dentro pra fora, como se facas afiadas habitassem suas letras e notas.



Há, claro, Você, Você...que sabe ser doce e cruel. Forte e gentil. Sabe ser indefinível, como as relações sabem ser. O Édipo, onde sou eu a que parto. 

E, por fim, tão estruturante do meu jeito de ser: As Minhas Meninas. O Édipo, quando sou eu a que fico. 

13 comentários:

Amanda disse...

Muito lindo!!

Insana disse...

Tao Doce

bjs
Insana

Thaís . disse...

Que delícia Lu!! Nunca tive dúvidas sobre as delícias únicas de ser mãe! =)

Long Haired Lady disse...

só posso imaginar...

fica marcado em julho ok?

beijo!

Menina no Sotão disse...

Com toda certeza é possível não saber coisa alguma, nem sobre ser mãe e tão pouco sobre ser filho e menos ainda por ser alguém. Nossa. Como saber? E vamos ouvir o Chico, minha favorita nos dias atuais é "fantasia".
bacio e uma linda semana

Ps. Estou em compasso de espera, viu???

cindy disse...

tão triste (so sad) aquela que tem medo de borboletas...

sobre o rudy:

http://preteritomaisqueperfeito.blogspot.com/search?q=rodolfo+valentino

beijo!!!

HG disse...

Emocionada...

Caso me esqueçam disse...

que post lindo do cacete! vai num crescente massa! oow!

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

Lindas as palavras,
quando grávidas de ternura.
Coração de mãe,
espaço de ternura...

Que sempre haja tempo para os sonhos
em tua vida.

S. disse...

lencinho, por favor???
beijinhos docessssss

Rosa Lopes disse...

Vc é menino e eu sou meninas e o Chico cabe pra todo mundo, como é isso, né?
Mulher vc ficou pelada? Eita, nem pergunto se é bom pq li os links...
Essas coisas não dão pra mim, eu sou muito curiosa...
Bj

Júlio César Vanelis disse...

Ai madrinha, eu fiquei emocionado... Lembrei da minha mãe, de como eu lembro dela quando eu era pequeno, de como eu me lembro só dela e de mais ninguém, antes de uma certa idade. É um amor tão forte que eu nem sei explicar... O que seria de mim sem ela??? Lembrei de como eu quero ser pai, e apesar de nunca ter esses momento tão únicos que só mãe e filho tem, eu vou ama-lo e ensina-lo a ser uma pessoa maravilhosa... Vc me emocionou...

O Chico Buarque é um gênio, sabia??? kkkkk

Beijos madrinhas, até o próximo post

Juju Balangandan disse...

Oh, boniteza de texto! Suga a gente para um desejo doido de ser mãe. Um perigo, borboleta!!
Beijo

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