terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Girassol, Gira Mundo, Gira Pião...

Eu queria escrever sobre João Pessoa. Sobre os calorosos amigos da amiga que me receberam como se amiga eu fosse. Queria falar da minha síndrome de Teresinha (fui ao chão logo ao chegar mas nenhum cavaleiro acudiu, muito menos com chapéu na mão). Falar da vida pertinho do mar, o cheiro da alegria possível, falar das garrafas de vinho amontoadas no juízo, dos lugares inusitados, de como eu sou sempre tão antiga...Dizer do encontro inesperado e caloroso com outra blogueira querida que estava de visita a JP. Tratar da amizade límpida e constante de minha querida S. Eu queria escrever sobre os dias de riso. E queria fazer de uma forma leve e amorosa. Mas as danadas das palavras me escapam. Mas não escapam a ela, que escreveu este texto tão lindo (e ainda há registro do riso solto).

Não chove, mas devia. Não choro, mas queria. Necessito da umidade. Quero a salgada possibilidade de ver um mundo enevoado.

Uma nostalgia de mim mesma e das palavras fáceis. Gosto quando elas, as palavras, chegam antes de mim, desarrumadas e alvoroçadas, mas já prontas pra dizer. Mas em dias como hoje elas me enervam, certinhas e resistentes. 

Hoje foi um dia sem paradas. Seleção de manhã, arranjos na imobiliária a seguir, compra de material escolar e, logo no momento seguinte, estrada. Clara Nunes cantando tão alto que é quase como se a voz dela viesse de dentro de mim. Estrada, carros, caminhões, estrada, estrada. Nenhum violeiro. Casa da mamys, conversas apressadas, muito a dizer e a ouvir, o vô Zeca anda bem, saiu do hospital, mas cada vez menos lúcido, o tio já está em casa, também já deixou o hospital, tudo corre, tudo corre, tudo corre. Quando, enfim, paro, me dá uma saudade de mim. Onde fiquei? Na estrada, parece-me.

 Uma confissão: quando chego de viagem demoro a desfazer as malas. Deixo tudo ali mais um tempinho como se, assim, pudesse esticar a duração da viagem. Gosto de ver a mala meio aberta, as roupas quase saltando, alguma coisa pelo avesso, um creme pedindo pra sair e lá ficando. Dessa vez não foi assim porque a viagem não acabou. Não, não estou sendo precisa. Dessa vez não foi assim porque eu não tinha onde chegar. Ainda sem casa, a vida em caixas, sacos, sacolas, paradas. Um tanto no quintal da minha mãe, outro tanto no porta-malas do carro, algumas coisinhas espalhadas nas casas de amigos.

 Fui reler o texto que escrevi quando fui, em julho de 2010, visitar minha surpreendente amiga S pela primeira vez. Lembro de como os que gostam de nós (mães, irmãs, amigas) ficaram preocupados e como foi tudo tão fácil. Foi assim e continuou sendo. Eu poderia ter escrito este texto hoje...faz de conta que.

Cheguei. As caixas e a vida continuam aqui. Estavam me esperando com suas perguntas de sempre. Hoje, só tenho uma resposta: S.
Devo confessar, eu não tinha dúvidas. Desde antes é um desde sempre? Pois eu sempre soube. Soube que ia te amar, porque você é tão amável na sua alma que você precisa dizer cínica pra ultrapassar os dias e as dores. Cínica, então, brindemos a isso. Tão amável na sua sinceridade que você precisa chamar silêncio pra ser atravessada pela vida que assusta. Tão amável na sua coragem. Tão amável na sua beleza. Tão amável nas suas perguntas. Inquietemo-nos.
Eu gostei de tudo. Das igrejas, das flores roubadas que vieram comigo na minha necessaire (que comprei apenas para ir te ver), do riso, das conversas infindáveis, das cervejas, dos silêncios, do doce, do porco, dos corredores de banheiro (que lugares tão inexplicavelmente mal utilizados anteriormente), do café e mais café e mais café, das tuas amigas que eu quero bem por elas te quererem bem. Gostei de gostar de você.
Estar com você foi muito certo. Muito fácil. Eu não sou só bondades, amiga. Eu sou um oco do mundo, negros abismos, dores que antecipo. Minha mala é pesada não de passado mas de antigos futuros. Mas quem anda à beira do abismo se acostuma com a vertigem. Fui me tornando, então, a menina com uma flor, nas vozes dos que já me amaram. E me tornei de novo no seu tão gentil carinho.
Gosto de girassóis. Eles têm a certeza do outro dia. São estabanados demais para serem flores. Gosto dos grandes amores. Eles também têm certezas e dias e outros. E eu sou estabanada demais para amar, mas insisto. Gosto de você. Venha. Sejamos meninas. Ou não. Com flores. Ou velas. Com cortes e palavras demais. Amigas.

13 comentários:

Belos e Malvados disse...

Quando chego de viagem também demoro de desfazer as malas, mas é por preguiça mesmo. Não tenho a sua poesia.

Caso me esqueçam disse...

ai, fico animada com esses encontros! provavelmente (sem internet), nos nunca nos conheceriamos. e dai que um dia, aquela ideia de fazer um blog, foi decisiva: bons amigos em AL, PB, CE, SP... que lindo :)

Clara Gurgel disse...

Luciana,esse último parágrafo é simplesmente lindo! De uma sensibilidade...ai,ai...

Clara Gurgel disse...

Luciana,esse último parágrafo é simplesmente lindo! De uma sensibilidade...ai,ai...

Menina no Sotão disse...

Eu acho que as vezes eu não chego de viagem e por isso mesmo não gosto de desfazer as malas. Largo tudo lá no quarto, em cima da cama, no meio do caminho. Porque parte de mim não chega. rs
bacio

HG disse...

E como foi a seleção???

Palavras Vagabundas disse...

Lu,
fazer as malas é uma delícia com toda a expectativa da viagem, desfazer...que preguiça!
Bons amigos é para se guardar!
bjs
Jussara

Danielle Martins disse...

Viajar é sempre muito bom!

Rosa Lopes disse...

Amizade é isso né Lu?
É tão bom se dedicar sem medo.
Bj

Júlio César Vanelis disse...

Nossa, muito lindo madrinha... Queriat ter mais amizades reais que se tornaram virtuais... Um grande abraço minha linda... Até o próximo!!!

Antônio Luiz disse...

Que lindo!!!!!!!!!! Saiba que os amigos da amiga S. também lhe querem muito bem e que volte sempre, portanto já deixe as malas prontas pra seguir viagem. Beijos e abraços.

Ass. Boto Rosa.

cindy disse...

Não tenho o dom de voces duas, o seu e da sua outra amiga daqui...
mas escrevi sobre uma linda borboleta que amei encontrar, e sem medo! rsrsrs

beijo!

Rita disse...

Ainda bem que gost de fazer malas, porque quando viajo vou em bando e arrumo duas, três... algumas vão cheias de ursinhos e livrinhos coloridos. :-)

Bj
Rita

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