segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Eu e Ela: Mais Mortas do Que Vivas

Se fosse possível uma dedicatória...*

Para ele, que me faz querer ver e ser vista.
ou apenas: 
Este post tem dono.


Esse post é sobre um livro que li. Um livro que gostei de ler. Escrever sobre ele é difícil pra mim. Escrever sobre livros é complicado, sempre, pra mim. Não tenho pejo de escrever sobre filmes, gravuras, esculturas, minha vida ou a alheia...bem ou mal, as minhas palavras chegam e vão se organizando da melhor forma que consigo. Mas sempre que se trata de escrever sobre alguma coisa escrita, fico sem saber como proceder. Eu penso: como posso dizer melhor o que já está lá tão bem dito? Porque alguém vai perder tempo lendo o que eu tenho a dizer sobre um livro ao invés de ler o próprio livro? Porque não é o enredo que conta - ou não só. É a própria forma como se escolhe escrever, o estilo, o ritmo, a forma. Este jeito de pensar é meio tolo - reconheço - porque eu mesma adoro ler comentários sobre livros e um dos meus blogs favoritos é o da Jussara: Palavras Vagabundas, que versa preferencialmente sobre livros. Idiossincrasias e pudores à parte, este é um post sobre o livro do Cornélio Penna: A Menina Morta.

Tive vontade de ler este livro desde que o vi mencionado na lista do meu sempre querido e admirável Zé. Procurei e vasculhei em sites, sebos, livrarias, nada. Até que ele chegou, inesperado e desejado, como só as grandes paixões sabem acomodar. E aí, de repente, deu medo. Medo de não entender o livro. Medo de não gostar. Medo de não estar à altura. É isso mesmo: sou uma covarde intelectual. Todos os dias agradeço a minha irresponsabilidade de ler Kafka, Dostoievski e Lacan antes de ser informada que eram bons, mas quase incompreensíveis. Não tive esta sorte com Joyce e até hoje peno com Ulisses (mas ouvi dizer que a nova tradução ajuda, vamos ver). Enfim, deixei a Menina Morta no canto e fui lendo todas as outras coisas que me pareciam menos ameaçadoras. Até que um dia.

Um dia eu tive coragem e comecei a ler. Ah, não é possível descrever o que senti nas primeiras páginas. É tão bem escrito! Cada frase, cada palavra, cada letra parece que ocupa o perfeito lugar, o espaço exato, não há equívoco, não há possibilidades outras. É tudo tão encantadoramente preciso que fiquei lendo e relendo as primeiras páginas por vezes incontáveis. Deslumbrada. Lenta. Não evoluía na leitura não mais por medo - já estava cativa do livro - mas por uma espécie de Síndrome de Tio Patinhas. Eu não queria gastar. Não queria que acabasse nunca. 

E foi então que me foi proposta uma nova forma de ler. Uma que não tivesse pausa. E foi o que fiz. Acordei cedo, muito cedo. E li. Li. Li. Era outro livro. Completamente diferente e igualmente intenso e interessante. Esse outro livro não nos dá tempo de apreciar cada palavra porque impõe a próxima frase. Eu lia e parecia que estava submersa e me faltava o ar mas eu não queria respirar. Terminei arfante e sem definições. Gostei? Sim, gostei, mas esta não me parece uma palavra suficiente pra descrever como um vazio ocupa outro tão absolutamente.

O livro não é "sobre" nada. Há uma história mas, francamente, não é um enredo com reviravoltas e eventos. Há angústia. Há pessoas. Há o interdito. Isso é o que mais me vincula: o que não pode ser dito e que se faz presente a cada página. Há uma sombra, um sentimento de vigília, de alerta. Não é um romance subjetivista. Não é um romance regionalista. Não é um romance intimista. E é o quê? Não sei dizer. Uma experiência de cada um. Não há redenção. Há, sim, uma tensão, um limite que nunca é ultrapassado nem esquecido. 

Há tempo e não há. Há o tempo da perda, do impossível de dizer, o tempo da escravidão de todos às convenções. E não há, como se fosse atemporal o que se sente, as misérias humanas, as fraquezas, as impossibilidades. 

Já são linhas e linhas e eu ainda não consegui dizer que o livro me descascou feito cebola, só há lágrima e vazio. Mas dá um excelente refogado. Dá pra entender? Um livro que não conta nada e diz tanto. Não há uma palavra desnecessária, uma página sobrando, um parágrafo dispensável. 

Como eu já disse (ou melhor, como já me disseram) sou uma pessoa desapegada. Contraditoriamente, como eu disse uma vez, eu sei que a dor não passa, a alegria não passa, a saudade não passa, o prazer não passa...o que sinto não passa, fica em mim, passa a fazer parte de quem sou, de como vejo o mundo, de como ajo no mundo. A Menina Morta ficou aqui, em mim. Quando terminei, um outro medo: como escrever o que quer que seja se aquilo tudo já havia sido escrito? Como ainda tentar dizer o que quer que seja?

"Talvez as ondas rápidas, amarelas, contassem umas às outras a história muito curta e risonha da menina vestida de cetim brocado, com a pequena coroa de rosas que era prisioneira entre paredes de madeira rude, escondida pela seda branca, sobre ela esticada.”



* As outras, ainda menos possíveis:

é sempre com olhos de gato de botas 
ou 
Gosto mais do que digo porque digo para você
ou
Toda a intimidade é bem vinda
ou
Como dizer obrigada pelo que nem sei dizer o quanto gostei?

De resto, se você chegou até aqui, importa menos o que dedico e mais o que você gostaria de receber. E, ainda assim, insisto, porque querer bem é este leva e traz de sentidos. 

9 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Lu, eu te entendo e como! Tem tantos livros que eu ainda não consegui escrever, por que me marcaram, por que são sobre tudo e nada. Já ouvi e li bastante sobre o Menina Morta, mas não li, ele está numa lista que espero diminuir este ano.
Eu também economizo livro, rs ...pois nao quero me separar e ficar o vazio da falta ...
Também tenho sérios problemas com Ulisses de Joyce, e agradeço ter lido vários autores com a irresponsabilidade da juventude.
Posso estar doida, mas eu entendi tudo de seu post.
bjs carinhosos
Jussara

Rita disse...

Luciana,

a imagem da menina coroada de rosas entre paredes de madeira... você faz ideia? Do quanto? Faz?

Já leu The Dead, do Joyce? Conto inesquecível, um bom exercício, talvez.

Beijos,
Rita

BsVoxx disse...

Borboleta,
Tb já me disseram que sou uma pessoa desapegada ... mas tenho enorme dificuldade de me desapegar dos livros que gosto ... Fiz uma faxina geral, tirei três caixas grandes de livros para doar, mas 51 ficaram para ser relidos ... eu acho que é mais ou menos pelo que vc falou no post ... " A dor ñ passa, a alegria ñ passa, a saudade ñ passa, o prazer ñ passa. o que sinto ñ passa, fica em mim, passa a fazer parte de quem sou" ... e no meu caso,também certos livros não passam ... Eu essa tua frase tão linda ... pensei até em twitta-la, mas não coube em 140 caracteres, Risos ... Bjs

Glória Maria Vieira disse...

Luh! Para mim, você é uma escritora nata. Tipo: É tanta informação nessa sua mente brilhante que quando para pra pensar em como descrever um livro à la Luciana, não consegue, mas não por falta de conteúdo. /rum

"Gosto mais do que digo porque digo para você"

AAAAAAAAI QUE LINDO! Juro que tô aqui... com os olhinhos marejados!:'~

S. disse...

amiga, me acorvadei geral. hj já te contei, só leio um livro "denso" (qd leio) com sub-literatura do lado para casos de emregencia. sei n... e eu amei os irmãos karamazov aos quinze.
eu era burra e n sabia??

te espero.

Júlio César Vanelis disse...

Ai ai... Fiquei curioso... kkk
Não sei se tenho coragem de encarar um livro desses... Quem sabe um dia? xD
Mas a parte da Síndrome do tio patinhas, me identifiquei total... kkkk. Eu sou muito apegado aos livros que leio, parece que parte da minha vida está neles. E, confesso, eu gosto de nostalgia (como se minha vida já fosse tão longa a ponto de eu ter tantas lembrabnças assim... xD)

Beijão Madrinha... Até o próximo!!!

HG disse...

Curiosa, curiosa, curiosa...

Rafa disse...

Há livros que são encontros incríveis.. se bem que eu tô frustrado. Fui todo snob ler Grande sertão: Veredas e fui nocauteado... nem as primeiras 50 páginas!

Bj

Menina no Sotão disse...

Terminei de ler dois livros esses dias e fiquei aqui comigo, no meu canto. Quero falar deles, mas ao mesmo tempo não quero dizer nada. Gostei e pronto. Sei lá, deve ser a lua e toda essa chuva. rs
bacio

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