quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Começando Com o Pé Esquerdo...

MOMENTO 1: Sobre a brevidade das coisas

Acontece que tem um caroço no meu suvaco (axila, para os phynos) e eu tenho que ir ao médico. Acontece que uma pessoa que admiro muito perdeu uma pessoa querida e tem lidado com isso de uma forma tocante, sensível e corajosa. Acontece que meu avô tem mais de 90 anos e vai fazer uma cirurgia. Acontece que mulheres que amo e que me conhecem com intensidade e antiguidade me disseram que apesar do meu papo materialista sou uma pessoa evoluída e desapegada de coisas e pessoas (não sei se considero um elogio). 

Eu não costumo ligar para a morte. Não, não é que eu não costume pensar nela, na minha morte. Penso até um bocado. E falo sobre ela sem pudores. Já convencionei que ela vem, vai chegar, ok. Tudo bem. Alguns queridos até se sentem incomodados com a displicência e intimidade. Faz tempo que tento convencer meus irmãos pra gente fazer um plano funerária e comprar um jazigo. É que eu não ligo mesmo, não tenho medo nem expectativas.

É sempre nessa hora que as pessoas costumam me olhar meio espantadas ou preocupadas. Eu não me preocupo de ficar bem velhinha ou bem doente e que alguém tenha que cuidar de mim, trocar minha fralda, dar meu remédio e minha comida na boca. Eu não me preocupo com "dar trabalho" pra alguém...eu tenho filho, irmãos, cunhados, primos, amigos que me amam e que sentirão prazer nisso (além de preocupação com meu bem estar). Gente, as pessoas amam e querem cuidar da gente do mesmíssimo jeito que a gente ama e quer cuidar deles. Também não me preocupo de cair durinha amanhã. Sei que há uma porção de gente  (esses que iam cuidar de mim)que vai sentir minha falta, sofrer com minha ausência e talz, mas são pessoas de vida pessoal rica e linda que saberão me amar na memória e seguir vivendo e amando com beleza e intensidade. E eu? Bom, se eu não sei o que acontece depois (se é que há um depois), vou me preocupar com o quê? Creio que a maior conquista e aprendizado da minha vida é aquela oração da sabedoria pra saber diferenciar o que posso e o que não posso mudar.

Mas tem uma coisa que me tira o sossego, ah, tem. É que pela ordem usual dos eventos é possível que a morte dos meus pais chegue antes da minha. E é nessa hora que a porca torce o rabo se não for bicó. Porque eles são minhas referências, minhas fronteiras, meu aconchego e minha vontade de vadiar fora do esquema. Eles são espelho e avesso. 


MOMENTO 2: Sobre a transitoriedade das coisas

Bom, eu relutei em escrever um post porque as figuras do anterior estavam tão bonitinhas e mesmo eu sempre começo o ano tão devagar que parece que só vou pegar mesmo no tranco lá pra março (meu aniversário, né). Além da preguiça própria da época ainda há a preguiça de tratar de um tema que se impôs e que evitei de todo jeito: o discurso sobre a Marcela Temmer na posse da Dilma. Esclareço logo que estou tratando só e apenas do discurso machista e depreciativo. E, esclareço mais, tento não pensar/dizer/avaliar que Fulano ou Sicrana é machista, mas tento sempre discutir se um comportamento (ação ou fala) foi machista. Eu mesma muitas vezes tenho comportamentos assim. De qualquer forma, sobre isso eu só digo:

1. Beleza é uma análise subjetiva a partir de padrões culturalmente construídos (sem falar que é o véu que encobre o horror segundo a psicanálise), assim o discurso da beleza é sempre sobre um outro que é sempre objeto do olhar. Esse debate sobre objetificar ou não quando se fala disso pra mim é redundância. Quando trato do outro como belo é um discurso que coloca o Outro no lugar de objeto. E isso não é mau. Nem bom. É a estrutura do discurso. Eu não assujeito o Outro. Nem nada semelhante. Apenas, naquele discurso, o sujeito não é quem é olhado, mas quem olha no momento do dito. No momento seguinte a dinâmica é outra, apenas. Agora se quero que o Outro se coloque em um lugar apenas de ser olhado ou que se molde ao que eu desejo olhar, aí é violência e o post sobre isso já foi escrito.

2. Gostosa é uma noção decorrente da percepção, logo se quem comenta não lambeu, cheirou, mordeu ou algo semelhante à pessoa em questão, sorry, é apenas vulgar e de mau gosto.

3. Sim, fico feliz e celebrei que a Dilma foi eleita presidentA. Fiquei feliz por nós, brasileiros, termos sido capazes de superar anos de tradição machista e hipócrita e termos votado não por ela ser mulher, mas por ela ser a representante de um projeto melhor para nós e para o país. Mas ela ser mulher - da mesma forma que deveria ter sido pros que antagonizaram e foram oposição: uma coisa irrelevante ante sua competência e potencial de trabalho - é, pra mim, quase irrelevante agora. Que seja uma autoridade de esquerda e comprometida com a erradicação da pobreza, isso é o que me interessa. 

4. Quando eu tinha 17 anos namorei um cara de 50. Eu era universitária e ele era um Professor Doutor. Ele beijava bem paca. Ele era poderoso. Ele tinha bem mais grana que eu (talvez não mais que minha família, mas mais que eu que era uma mera bolsista de extensão). Sim, eu me apaixonei por ele porque ele era velho, inteligente, rico, poderoso e eu o admirava. E beijava e cheirava bem. Prontofalei#. Ele me fez feliz. Eu tive que partir um dia. Ele ficou. E daí? daí nada, minha vivência só serve pra mim mesma. Acho meio impertinente avaliar e julgar os relacionamentos alheios, especialmente em moldes e parâmetros românticos e idealistas. X ama Y? Não me interessa, sinceramente, os motivos que levam alguém a querer ficar com outro alguém desde que sejam motivos advindos da liberdade de escolha. 


MOMENTO 3: Sobre a beleza das coisas


Resolvi dar uma espiada no Analytics. E o resultado foi: alegria! Em números, de 01/01/2010 a 01/01/2011:

- 5.385 pessoas visitaram este blog (uia, que delícia);
- 14.394 visitas (dá pra acreditar?);
- Tempo médio no blog: 4 minutos e 51 segundos (eu sei, eu sei, os posts são enormes);
- Gente de 49 países passaram por aqui (oui, borboleta internacional é o phyno!);
- 28% dos visitantes veio mais de 100 vezes por aqui (vocês gostam hein?);
- Este foi o post mais lido este ano: Mulher da Vida

MOMENTO 4: Sobre a finitude das coisas

Gosto do Oswaldo Montenegro. E ele canta: eu acho que será pra sempre/ mas sempre não é todo dia. É isso aí. Não é todo dia. Não é todo dia que sai um post legal. Não é todo dia que é útil. Não é todo dia que é santo. Não é todo dia que as coisas acabam. Não é todo dia que as pessoas acertam. Não é todo dia que as certezas não aguentam um ponto de interrogação. Não é todo dia.

Esse post não devia ser publicado, eu não gosto de quase nada nele. Nem sei se concordo com tudo que eu mesma escrevi. Hoje, acho que será pra sempre, mas estou aprendendo que não é todo dia.



MOMENTO 5: Sobre as imagens e o sentir


O que realmente eu quero é um mundo assim:


Um Dia a Gente Cuida...

...No Outro a Gente Se Permite Ser Cuidado.



19 comentários:

Ana disse...

Pois pra mim esse foi um dos seus melhores posts. Espontaneo e num borbotao organizado (em momentos).
Cuide do suvaco, fia.
Beijos mis.

Júlio César Vanelis disse...

Oi madrinha...
Por favor, veja esse negócio do caroço na axila (suvaco) o quanto antes!
Um dia, quero ser como você, quero ver a morte do jeito que você vê. Eu tenho medo da morte, e me preocupo... Não apenas com a minha, mas com a sua, com a dos meus outros amigos, com a de maus pais, da minha irmã, sobrinha... enfim, das pessoas que eu amo. Pode parecer egoista, mas eu sou mesmo... Sou fraco nesse ponto, conviver com a perda é uma lição muito dificiu, e eu demoro a resolver as lições dificeis. Mas eu sempre entrego as lições em dia!
Eu achei muito falta do que fazer falarem tanto da Marcela Temer. A inveja da oposição é tão grande que o veneno deslilado atingiu até mesmo a esposa do vice-presidente.
Fico feliz, mas não surpreso, com o grande sucesso do seu blog. Como estaria surpreso, afinal? Eu estou enchendo boa perte dessas estatisticas, e com orgulho, porque seu blog já faz parte da minha rotina, ou faz parte de mim talvez, tanto que até te promovi a parenta sem nem emsmo te pedir permição... xD
Esse post me deixou com uma sensação de sucata. Veja bem, são coisas que precisavam ser ditas, e que ficaram ali guardadas. Certo dia você chegou e juntou tudo e nos disse. Não era para ser bom (mas foi), é pra ser dito, ou escrito, e com certeza lido, e agora comentado... Sem a obrigação de ser perfeito, mas já sendo...

Um beijo, madrinha... Já estava com saudades de suas postagens quase diárias...
Até o próximo

Caminhante disse...

Disse a mesma coisa sobre a Marcela Temer aqui em casa. Também namorei homens mais velhos. Um homem da sua idade fica naquela coisa de talvez não ligar o dia seguinte, de achar ruim que você tenha uma gordura acolá e te trata mal. Aí um homem mais velho a trata como princesa, te adora, quer algo sério. Não tem comparação.

Claro que é uma pena pensar que ele não dá esse tipo de atenção à mulheres da idade dele, mas quero dizer que também não olho para uma diferença de idade e acho que é interesse. Pelo contrário, ela ainda passa por um preconceito que não precisava.

Long Haired Lady disse...

minha querida eu compartilho com voce esse nao medo de morrer.
mas nao quero ser cuidada, nem tenho por quem...rs ja disse ao maridao que pague uma clinica pra mim, rs.
mas tambem nao quero ir logo, nao tenho pressa, rs.
tenho medo de ser enterrada viva, isso tenho.
veja esse caroço o quanto antes tá,de qualquer modo precisamos nos cuidar e pessoas que nos amam tem medo de nos perder...

beijos!

Clara Gurgel disse...

Ai,ai,ai...nuvenzinha de preocupação! Vc que é uma mulher "esperta" sabe: "MENS SANA EM CORPORE SANO" Anda, vai logo ver esse caroço,vai!! Beijo!

Rafa disse...

Linda Lú,

Se cuida moça! O mundo precisa de corpos e almas vibrantes como o seu. Eu preciso de suas postagens e de nossa amizade em ainda hiatos de encontros reais. Ah, e que saco este negócio da Sra. Temer. Temos uma militante de esquerda quie lutou tanto pela democracia, primeira mulher presidenta e só se fala da esposa do vice porque ela é bonita? Aff...

Bj

Glória Maria Vieira disse...

Primeiro: Vá logo ao médico, viu mocinha?! (Isso é uma ordem! hihi)
Segundo: Eu tenho medo da morte. Não queria morrer... :/ (Bobinha eu, né?! Mas eu sinto dessa forma...)
Terceiro: Marcela... Hum, concordo plenamente com você.
Quarto: "IUPI!" ... Quanta alegria não foi não, Luh?! DILMA LÁ!
E por fim: Olha só... O Borboleta nos olhos arrasa muito! E eu tenho o prazer de ser um desses visitantes assíduos!

Gosto tanto, tanto de você!

Palavras Vagabundas disse...

Lu, nem vou repetir o que o povo já falou, qual é o dia da consulta?
Não vou discutir Marcela Temer isso é assunto inventado, a favor dela está o fato de ser discreta e não ter aberto a boca até agora.
Seu blog é ótimo, sou sua fã, e merece todo o sucesso.
bjs carinhosos
Jussara

Mila Lopes disse...

Bom, cheguei por aqui a pouco tempo, mas já posso brigar em?! rs ...Se cuida menina!!!

Gostaria de ver a morte como você!
Parabéns pela força...

Bjs

Mila

HG disse...

Hoje, quero cuidar de ti... Me permite?
O que posso fazer? Cafuné, dengo, chamego, "ir" contigo ao médico e segurar tua mão???
Cuide-se bem...
beijos

Amanda disse...

Gente, tem tanta coisa aqui nesse texto que eu tô perdida! Acho que da pra fazer uns 15 posts diferentes. Olha, eu não quero que cuidem de mim, mas tbm não quero cuidar de ninguém. Quando chegar minha vez vou feliz pra um asilinho. Bebê a escolhe cuidar, velho não. Não quero dar esse trabalho pra ninguém.

Pensamento positivo pro seu suvaco. Não é nada, mas é melhor ter certeza, né?

Beijo!

Rosa Lopes disse...

Ai Lu, eu tô tão feliz com o teu post.
Tem o caroço né? Estranho isso, dá notícias, tá?

Mas eu estou feliz por suas posições, eu teria que me trabalhar muito pra reagir assim à morte, por exemplo. Eu gosto dela lá, bem mortinha no lugar dela.
Bj

BsVoxx disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
BsVoxx disse...

Borboleta,
São tantas coisas e as vezes é muito dificil nao misturar as coisas que disse com as minhas ... Tive enormes batalhas de saude nos ultimos meses que até comento com humor no blog ... eu entrego a Deus e tento encarar tudo com otimismo ... Ja tive medo da morte, hoje não mais, mas ainda tenho medo de ficar dependendo de alguém ... Oremos para q seu caroço seja só um ganglio ...
Qto a Marcela Temer e a posse da Dilma é horrível ver que muita gente ainda insista em revestir de machismo um momento mágico desses.
Feliz 2011.

Gui disse...

Ai, querida, você sabe que também é uma referência pra mim, não sabe?

Eu te admiro pra caralho, mesmo.

Se cuide, se não eu te arrebento toda depois de morta! E nem adianta falar em Lei Maria da Penha!

Beijo enorme em você.

Menina no Sotão disse...

Fiquei aqui sem saber exatamente o que dizer. Primeiro: vá ao médico. Pode não ser nada; eu tive um caroço na minha axila e sumiu sem maiores preocupações porque as glândulas as vezes inflamam mesmo...
Mas é melhor previnir porque morrer todo mundo vai, mas é preciso dignidade.
Eu não gosto do Lula, tão pouco da Dilma e acho que infelizmente a política é uma grande decepção pra mim dos dois lados do atlântico. Por isso, lamento, mas dou de ombros pra essa gente que não merece meu olhar. Eu não gosto da palavra "presidenta" acho feia o som e a desculpa dada para o uso da mesma fere o pouco que conheço da gramática. Da mesma forma como ofende a palavra poetisa.
Enfim, estou melancolica e pensando na chuva que virá logo mais. kkkkkkkkkkkkkk
bacio

Ana Duarte disse...

Ola Borboleta,

Nunca comentei aqui, e achei o seu blog pelo da Rita, da Estrada Anil.
Confesso que gostei bastante da sua forma de ver as coisas e com certeza vou voltar.

Bjos
ps: Va ao médico sim!!! :-)

Rita disse...

Oi, linda. Falar sobre a morte, sobre cuidar... quero e não quero. Tudo acontecendo comigo agora, talvez meu foco não esteja bom, estou dentro da coisa. Mas quero dizer que adorei o post, as imagens do final, achei tão doce. E estou sendo cuidada agora e é bom. E minha mãe teve anjos que cuidaram dela também e foi tudo. Tudo. A vida é isso, de certa forma: cuidar das pessoas e é o que mais importa. E vá à médica ou ao médico, tipo hoje.
Beijos cheios de carinho pra você,
Rita

Atitude do pensar disse...

Clarice Lispector com certeza se enxergaria nesse post.
Sobre ser e querer...

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