quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sobre a Leitura ou Na Fazenda Do Seu Pai Pode?

Todo mundo sabe que estou aperriada com o tempo, então me perdoem o post miudinho, meio blasé, doutrinário e esnobe. Foi escrito com todo carinho, ok?

Lá pelo fim da década de 80 ou comecinho de 90 o Verissimo escreveu em uma crônica que nunca tinha conhecido ninguém que fosse contra a Reforma Agrária. Que todo brasileiro, se questionado, respondia com ênfase: "claro que sou a favor da reforma agrária!" e alguns, depois, acrescentavam: "mas na fazenda do meu pai, não." Algo muito parecido acontece quando se fala em ler. Quase todo mundo que eu conheço diz que gosta de ler, claro. E que ler é muito melhor do que, por exemplo, televisão, que afinal como espectador se é passivo e como leitor há um comportamento autônomo e tal e tal. Bom, depois de uma pausa, chegam os poréns: não há tempo, livro é caro ou, pior (para mim que sou uma baita esnobe mesmo, podem atirar pedras), começam a apresentar a lista de últimas leituras: um negócio de gente mexendo no queijo, sendo padre, monge ou pastor executivo, uns segredos que é só você pensar num elefante que ele, buffo!, aparece bem na sua frente e por aí vai e eu fico pensando que estou meio fora do compasso. 

Claro que estou falando de pessoas da minha geração e afins. As novas gerações são uma espécie de homo computers que eu irrestritamente desconheço a linguagem comunicacional.  Bom, e tem o meu filho, 13 anos, que não consegue ler meia página do material escolar sem ser acometido por um sono doentio mas devora o livro de 600 páginas, que eu comprei pra mim, sem pejo e sem sono. E aí eu lamento não ter lido o Daniel Pennac antes. Pelo menos pra entender um tantinho mais. Mesmo nessa agoniação sem tempo de nada (e ainda relendo o maravilhoso livro do Ruy Duarte que ainda vou contar pra vocês), às vezes pego-me folheando Como um Romance, revendo as partes preferidas, relendo os trechos doloridos, remoendo a culpa e planejando os próximos passos. 

Como um Romance é uma declaração de amor aos livros, não apenas à leitura. E uma tentativa de fazer da leitura ponte de amor e comunicação com os filhos, nossos e alheios. É irônico e bulina nosso juízo, mas é também poético e sensível. Se ler é um prazer e prazer não se comanda, a leitura só pode se dar em plena liberdade. Não é bonito tentar pensar assim? É um ensaio curtinho, mas me diz muito. Gosto dos direitos do leitor que ele propõe:

1. O direito de não ler.
2. O direito de pular páginas (nunca consegui, mas vamos na peleja).
3. O direito de não terminar um livro (ainda estou tentando exercer esse).
4. O direito de reler (plenamente exercido por mim).
5. O direito de ler qualquer coisa (de Sidney Sheldon a Tolstói, passando por bula de remédio, olha eu na fita)
6. O direito ao bovarismo (segundo Pennac, doença textualmente transmissível).
7. O direito de ler em qualquer lugar (por exemplo no cinema esperando o filme começar?).
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali (eu leio mais de um livro ao msmo tempo, que é que tem?!?).
9. O direito de ler em voz alta (tenho exercido pouco)
10. O direito de se calar (a gente não tem que ficar alardeando, né).

É um ensaio curto, eu encontrei pela Rocco naquele modelo pocket que fica tentando a gente nas araras perto do caixa. 

Estava escrevendo isso e pensando na minha mana que tem um fofoinho de dois anos, na Jussara que lê tanto e é capaz de já ter até escrito algo sobre esse livro (vou já espiar) e na Rita que tem dois fofuchos justo na idade mágica que o Pennac aborda bem no comecinho do texto. 

Pra dar um gostinho e já separar o joio do trigo ou será que vou gostar mesmo deste tal Pennac...

"O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver. (...) Eu nunca tive tempo para ler, mas nada, jamais, pôde me impedir de terminar um romance de que eu gostasse. A leitura não depende da organização do tempo social, ela é, como o amor, uma maneira de ser. A questão não é saber se tenho tempo para ler ou não (tempo que, aliás, ninguém me dará), mas se me ofereço ou não a felicidade de ser leitor."

Quem sabe mais tarde eu volto. 




12 comentários:

Amanda disse...

Eu sempre amei ler. Mas ultimamente me encaixo na categoria dos "sem tempo" pra literatura. Tenho lido outras coisas, livros de historia, livros de geografia, reportagens, blogs, muitos blogs. A internet tem sugado todo meu tempo livre, to começando a achar que é vicio. Estou precisando de uma ajuda pra retomar a leitura por prazer. Ja sei, borboleta! Vc é a pessoa indicada pra me salvar! Recomende um romance dos bons que em uma semana eu dou um jeito de achar aqui e depois volto pra dar minha opiniao. Lembrando que não gosto mt de poesia (sim, sempre detestei vinicius, nao me mate!) e prefiro leituras sem muito rodeio. Beijo!

Palavras Vagabundas disse...

Luciana,
gosto muito do direito do leitor.
Eu parto do princípio que não tenho que justificar o que leio. Entre as coisas que as pessoas achariam que é mentira está que eu adooooro livro de banca tipo Sabrina e coleciono HQ principalmente se for do Wolverine ou Batman.
Eu leio em qualquer lugar, mesmo...
Vê lá se eu vou numa consulta médica e leio Quem! Sempre tenho um livro na bolsa.
Eu como a maioria das pessoas também não tenho todo o tempo do mundo, o que tenho é disciplina. Leio uma hora por dia para o meu prazer. Entre as coisas que faço está pesquisa, portanto passo o dia lendo material pertinente ao que eu estou fazendo, assim eu tenho o direito da minha uma hora.
Eu pulo páginas, tem autor que não se toca.
A não ser que seja brilhante lá pela metade do livro já estou lendo na transversal.
Eu sempre acabo o livro, mesmo que seja meses depois, normalmente para ver até onde foi a "masturbação mental". rs
Eu me dou ao direito de não ler auto-ajuda e check-list tenho mais o que fazer.
Não fiz um post sobre Pennac e talvez nunca faça, preciso reler e pensar a respeito.
Ler tem que ser prazer e qualquer texto dado na escola do primeiro grau a faculdade sempre vai dar sono...rs
bjs carinhosos
Jussara

Palavras Vagabundas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Palavras Vagabundas disse...

Lu, foi duas vezes por isso exclui
bjs

Caminhante disse...

Não é que eu leia livros ao mesmo tempo. Eu só leio ao mesmo tempo. É incrível, ou eu não leio nenhum ou leio vários.

Gabriella Maciel disse...

Luuuuuuu, estou de volta no mundo blogueiro! kkkkk
Eu já tinha lido uma entrevista numa resvista desse cara, e achei fantástico! Talvez se ler não fosse uma obrigação, os adolescentes pudessem ler mais!

Amo seu blog.
Como sempre!
Beijos.

Júlio César Vanelis disse...

Nossa, madrinha, fiquei curioso... Eu sou meio rato de livraria, adoro estar em uma, sempre pego alguns clássicos que sempre quis ler, mas a preguiça nunca permitiu, e fico folheando no meio da loja. Vou desde os científcos até os de literatura clássica... Me amarro na bienal, desde a minha primeira, não faltei mais nenhuma... Não tenho lido muito, estou com uma fila de livros na minha estante que ainda não li (pq sou preguiçoso mesmo, kkk), desde de "O manifesto Comunista" a "Madame Bovary". Vou tentar retomar hábito esse mes ainda, e assim vou procurar esse de q vc falou para completar a minha coleção....

Um abração madrinha!!!
Até o próximo!!!

HG disse...

Tou num ritmo alucinado de leituras...

Borboletas nos Olhos disse...

Amanda, já está providenciado, né?

Jussara, é um prazer lê-la, até em comentários vou aprendendo e me divertindo..

Caminhante, pois num é...também sou muito assim.

Gabi, bem vindaaaaaa!

Julio, fico muito feliz de você curtir o post e os livros. Muitos bjs carinhosos

HG...e eu num sei? Bjs

Rita disse...

Oi, querida.
Tenho saudades da época do mestrado, quando lia descontroladamente, comia livros. Não quero usar filhos, trabalho, etc. como desculpas para o baixo rendimento de minha leitura agora, mas é verdade que minha rotina não me permite mais tanta abundância. Vivo com fome. Mas vou indo, do jeito que dá, a vida é longa.

Bj
Rita

Maria Teresa disse...

Luciana, não postei nada aqui ainda, nem as respostas ao quebra-cabeças, porque não acertei com a coisa...conta no google e tal...
Vamos a ver - 123 experiência
mas só para lhe falar no Pennac-que me foi oferecido por alguém de quem gosto muito. E quem me dera tê-lo lido mais cedo - pois as crianças e a leitura...

Anônimo disse...

Si, probabilmente lo e

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