segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Eu, na Estação

Escrevendo em futuros.
Desejando conjugar o presente.
Ou todos os meus verbos serão no passado?


Eu já disse uma porção de coisas em outros blogs, tempos e afetos. Coisas que já não sinto e já não sustento nem mesmo como idéia; ainda bem que tenho opinião para mudar. E, mesmo não sendo o Fernando Henrique que estaria pedindo pra esquecerem o que já escrevi, devo confessar que muitas águas rolaram, tantos homens me amaram bem mais e melhor...então decidi reformular alguns posts. Como eu já disse por aqui, eu sou dessas que se reescreve. Talvez porque nas palavras vou me estranhando, reorganizando, adivinhando. Quase sempre escrevo pra frente, profeta de mim mesma. 


A Lu, que é uma mulher incrível, tem um blog lindo e vive bulindo no sótão e com o meu coraçãozinho, perguntou sobre o verão (mas não vão lá ver agora não, deixa passar o Natal, senão corre o risco de vocês tomarem meu presente, ops). Fiquei matutando um comentário e daí lembrei-me desta idéia que transformo pela segunda vez. Um dia, quem sabe, fique pronta. Mas não, bom mesmo é caminhar.

Felicidade é viver as estações do amor, sentindo a beleza de saber que elas se substituem numa continuidade que apenas os fenômenos naturais têm e que ao amor é apenas suposto pra se continuar a viver, pois viver sem metáforas é assaz perigoso.

Amar é verão, praia, luz, calor...é pouca roupa, dias longos, suor na pele. O verão do amor sempre traz uma inquietação, febre, ardor, desejo, vontade de fazer coisas juntos, pede movimento e um sair por aí grudados, o mundo a conhecer, transformar, bulir. O verão no amor é todo dia que sobra roupa, falta tempo, pede riso, correria, alegria. O verão é a época da fartura, manga escorrendo na face, frutos por todos os lados. È a plenitude, vida pulsando no corpo e no ar. E tem as tempestades. Chuvas e chuvas que nublam o tempo pra se apreciar mais o calor do dia a dia.

O amor tem inverno, mesmo que o Nordeste não tenha: abraço, dois juntinhos dividindo cobertor, chocolate quente, ficar de bobeira na janela, refletir. O inverno tem dias mais curtos, logo, noites mais longas, mais tempo pra se procurar e se descobrir. Amar é inverno, companheirismo, contato, presença. O inverno do amor traz períodos escuros, algumas dores, perguntas, incertezas. É o tempo de se olhar no olho e olhar o mundo e ver que no olho do outro o mundo é mais bonito e desejável. Inverno é resistência, permanência, constância. O inverno do amor é feito cartão postal: neve por todo lado e um abraço no meio; é todo o dia que se escolhe ficar juntos, ficar a sós, aquecer a cama, fazer comidinha pra partilhar, segurar na mão, apoiar.

E chega a primavera. Cor. Flores. Promessas. Recomeço. Época da reprodução e da construção dos ninhos. A primavera anima, incentiva, provoca. É na primavera que a temperatura vai, aos poucos, aumentando. Não preciso nem comentar esta metáfora, né? A primavera do amor traz o riso fácil, a vontade de andar de mãos dadas, de ir ao cinema, de cutucar o outro, de não pensar nem planejar. É o tempo em que se rodopia nos encontros com amigos, em que as idéias surgem o tempo todo, e quem não bota meninos no mundo, bota experiências. É a primavera do amor que dá coceirinha de casar, construir ninho. Cecília anunciou: "A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la." A primavera no amor é o todo dia em que, sabendo das dores, dos invernos e das tempestades ainda se vê no outro a cor, a perpetuação, a vitalidade, a possibilidade.

Outono. Talvez minha estação preferida - ainda estou tentando descobrir o porquê. Talvez porque seja o tempo das colheitas. De ver o resultado de tanta alegria, reflexão e promessas. É o tempo da certeza. Do encontro. Tempo em que folhas e frutos estão maduros. Plenos. Outono é tempo das cores insuspeitas, dos cheiros inusitados, das belezas reveladoras. Como amar, que é intenso e sempre novo. Surpreendente. O outono no amor traz as mudanças, os grandes passos, a safra que sacia. Traz a confirmação da finitude, a vontade de viver intensamente a vida tão transitória. E traz, também, a paz terna do que já foi vivido em abundância. O outono traz o fim, o corte, a promessa de renovação. Traz, senão um novo amor, pelo menos um novo amar. O outono é o reconhecimento que no maduro do fruto tem a morte, a podridão, mas tem também a semente. O outono no amor é síntese de todas as felicidades miúdas do dia a dia e é a coragem de trocar de pele e de sonhos.

Todas estas estações às vezes, são também como estações de trem, onde se decide quem vai prosseguir, quem vai ficar. Na plataforma é que sabemos a dor de deixar ir, a dor de deixar ir-se. Mas é também lá que descobrimos, muitas vezes, que já não é possível ficar, que é em outro canto o lugar do nosso encontro. Quase sempre tenho convicção que amar é um ato de vontade, uma certeza cega, uma escolha. Não no primeiro momento onde hormônios, objeto a e identificações fazem barulho por todo o corpo. Mas depois, no sossego da cama partilhada, amar é uma opção. Escolhe-se não ir pra rua, não ver outros corpos, não buscar identidade de idéias e sonhos. Escolhe-se não se incomodar com os esquecimentos cotidianos, com as pequenas indelicadezas, com as imprecisões. Escolhe-se ficar. Escolhe-se, ainda mais, não ir. Não ir ao encontro do desejo de outra coisa que, esta sim, completaria. Escolhe-se, como disse Kundera, não o amor perfeito, mas a compaixão (sentir com o outro). A compaixão faz com que a dor do outro nos seja insuportável, assim escolhemos sempre ficar (o prazer do outro, que partilhamos, também é um motivo bem convincente). Escolhe-se enquanto se pode, ou seja, enquanto hormônios, objeto a e identificações não fazem barulho por todo o corpo. Porque em alguns momentos amar é rua de mão única. Não se escolhe ficar, simplesmente não há pra onde ir. Como as mulheres de Atenas, não tenho sonhos, só presságios. Algumas vezes, amar é como escrever. Uma coragem, um ardor, uma imposição.



Quem Não Sabe?


Vai ter presente de Natal no Borboletas. Idéia inspiradora, mais detalhes e inscrição, regras estão aqui (aperta que chega lá). 

Resumindo: farei sorteiosDois, pra ser mais exata. No dia 23 de dezembro, que sou dramática. Um dos sorteados ganhará um livro como mimo de Natal (que só chegará em janeiro, hohoho) e a outra pessoa sorteada nos presenteará com um post sobre o que quiser. O que quiser mesmo (só não pode ter conteúdo que me obrigue a mudar a indicação do blog para conteúdo adulto porque tenho a maior preguiça). O post será publicado também em janeiro, no dia 22. Quer participar? é só deixar um comentário neste post contando alguma coisa da sua relação com o blog Borboletas nos Olhos (tipo: como conheceu, o que gosta, o que não gosta, porque vem aqui, o que gostaria de encontrar aqui, sei lá, use a imaginação). 


10 comentários:

Juliana disse...

Só digo uma coisa: Aff!

"Porque em alguns momentos amar é rua de mão única. Não se escolhe ficar, simplesmente não há pra onde ir. Como as mulheres de Atenas, não tenho sonhos, só presságios. Algumas vezes, amar é como escrever. Uma coragem, um ardor, uma imposição." PERFEITO

Júlio César Vanelis disse...

Madrinha, nem sei o que dizer. As vezes eu me sinto tão dono de mim, mas outras vezes eu me sinto tão... despreparado, ingênuo, perdido, inexperiente... Suas palavras entraram de maneira tão brusca nas minha ideias que ainda tento reorganiza-las. É justo isso? Rua de mão única? Não dá pra ir na contra mão? Não posso escoler antes? Por que eu não consigo calar os barulhos que fazem os hormônios, objeto a e indentificações??? O mundo anda tão complicado...

Um beijo madrinha... Até o próximo!!!

Caso me esqueçam disse...

ai, borboleta, queria que tu narrasse o inverno daqui pra ver se ele se torna agradavel como as estacoes descritas aqui. do jeito que tu fala, a gente fica em duvida sobre qual eh a mais aconchegante!

friô.

Atitude do pensar disse...

Oie! Não gosto de verão (mas já deve imaginar isso, né)...rsrs
Amo mesmo o inverno, depois o outono, a primavera... O sol encontra-se em último lugar. Talvez por isso goste de amores dramáticos. Pesados. Sobrecarregados. Mas também frágeis. Talvez passageiros, já que tenho a sensação que o inverno passa tão rápido que nem consigo vivê-lo o quanto gostaria.
Quanto ao que sou, como diz a Paulinha: Sou várias releituras de mim mesma.
Bjin,
K

HG disse...

Minha Borboleta amada... cada dia melhor!
Vou reler muitas vezes este post, tenho certeza e (re)significar o inverno daqui.
Só via neve, frio, escuridão... Mas agora... Estou amando no inverno, precisamente.
Olha... fiz a escolha do amor e estou muito feliz por isso! Foi, de dúvida alguma, a melhor escolha que já fiz.
Obrigada!

Gui disse...

Acho que pela primeira vez eu senti uma simpatia pelo verão africano que está começando hoje. Brilhante a forma como você conseguiu definir algo tão difícil de se definir, não?

Beijos

Danielle Martins disse...

Tem selinho pra você! Bjs!

Menina no Sotão disse...

Fico eu pensando aqui comigo, será que agora o verão deixa de ser esse monstro que eu desenho aqui? Duvido, mas em todo caso, me perdi pelas estações de trem e fiquei em certas paradas para apreciar melhor e quase me esqueço do próximo trem.
Bacio

Ps. Dei muita risada com o inicio do post. Egoísmo pouco é bobagem. Adorei. Ai ai ai dona Borboleta (farfalla) seus vôos sempre me deixam a deriva.

HG disse...

Presentinhos pra vc no Travessia...

Cáh disse...

Vc é incrível, fala do amor como se ele fosse todo o ar, depois como se fosse fácil de se administrar, é tudo tão belo!!

eu gosto tanto dos teus comentários, das tuas palavras, da tua visão!

Um beijo

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