segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Colcha de Retalhos

 Esse é um texto feito de pedaços e de perguntas. Ele foi surgindo em fragmentos nos outros blogs e se pediu inteiro, depois. Ou eu o quis assim. Nunca deixei de fechar portas. Nunca olhei retrovisores. Nunca tive arrependimentos. Nunca é o outro jeito de dizer sempre?


Era domingo. Acho. E fazia frio, ou era só o que eu já sabia do vazio que se avizinhava? Era domingo e nada havia pra fazer a não ser ir ao encontro. Que não estava marcado. Você me esperava e eu não sabia. Eu nunca soube, é o que sei agora. E, no entanto, de alguma forma eu te encontrei me procurando. Havia o mar batendo nas pedras. Havia? Às vezes invento belezas pra não saber que éramos apenas nós. Nós que dissemos tanto e nunca, nunca ouvimos de verdade. Ou eu não ouvi. E não disse. Como se pode dizer o que só se descobre no tão depois? Mas havia, é preciso que houvesse o mar, o encontro, o domingo. E você. Tão bonito você. Bonito de dente bonito, olho bonito, mão bonita. Bonito da gente querer em ais e febres. E bonito de um sentir tão doce e intenso e de não dar menos do que qualquer coisa. E eu nunca te disse. São tantos nãos e nuncas que nem devia virar história. Mas havia: domingo, mar, encontro, você. E você me disse com as palavras tão límpidas como seus olhos: eu que tanto te amei. E aquele verbo no passado ficou como espinho na planta do pé, quase nada a doer, mas incomodando quase todo tempo. E você roçou a mão no meu rosto, tão suavemente, que eu senti de dentro pra fora, e a vontade da sua mão em mim tornou-se um soluço. Um tremor. E você sorriu e eu soube o que antes era esquecimento, que era sua lembrança e não minha, soube aquele primeiro beijo silencioso e inteiro, soube o seu contorno e vigor me abraçando por toda a noite em uma paciência e gentileza que eu não podia nomear por completo desconhecer, soube as suas intraduzíveis sentenças de saudade, soube a delicadeza dos seus presentes para meu corpo e soube aí o que você estava me pedindo e eu não soube dar. E você respirou asperamente, como cansado, e o ruído me contou a história que devia ser nossa, mas foi solitariamente sua e que agora eu só via pela embaçada janela e desejava como quem reza, mas sem um deus. E você chegou tão perto que eu de repente soube todo o cuidado, todo o anseio, todo a presença, todos os planos e caminhos que eu nunca soube. Todas as impossibilidades. E você fez suas mãos segurarem as minhas e seus olhos aprisionaram os meus e sua boca visitou a minha e tudo teve um sabor de impossível e meu castelo de sal se desfez pintando arabescos no meu rosto. E você partiu e eu, não eu, nunca mais um eu e você.
         E eu não sei como me sentir, agora. Só sei que me dá uma enorme vontade de chorar quando penso simplesmente: eu doí em você. O mar bate por dentro em arrebentações. Não mais ou nunca? Eu olho o espelho e só vejo o que não fiz, o que não disse, o que não sabia. Agora, é você que dói em mim, dói em todas as frases que eu, inconseqüente, não disse, e ficaram por aqui. Dói em mim nos gestos que não fiz, nos presentes que não dei, nas histórias que não partilhei, nos carinhos que negligenciei. Uma dor que permanecerá em fogo brando, ardendo sempre, lembrano sempre. Apego-me ao que resta. Um desejo. E eu desejo que você traga, no amanhã, o seu sorriso à frente e uma certeza nos olhos de uma vida bem vivida. Eu desejo como quem de repente sabe que lhe quis, tão mal, tanto bem. E desejo como quem adivinha um sempre de nostalgia no teu seguir. Aquela nostalgia sem sequer um se, uma nostalgia que não tem desejo, não tem escolha, mas está ali, sempre, pra lembrar o que não foi e fazer de suas palavras menos contentes do que poderiam ser. O espelho me sussurra infâmias e há frio bem dentro de mim. O mesmo frio, o mesmo mar, outro domingo, nenhum encontro. Vai passar, eu sei. Vai passar porque te verei de novo em sombras e ouvirei teu riso ao longe. Vai passar, mas não vou esquecer. Não mais. Prometo. 

10 comentários:

Insana disse...

Muito Lindo doce Borboleta..

bjs
Insana

Rafa disse...

Há tanta beleza na tua dor, não pra ti, que a sentes, mas pra nós, os agraciados com seu derramar.

Bj

ALEX disse...

Parabens

Fazia tempo que não chorava e chorei e confesso que foi bom.

Dedico a seu post e a você

"Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo"

Quando tiver tempo ouça

Canção do Mar / Dulce Pontes

Um cheiro

Alex Ramos

Júlio César Vanelis disse...

Ahh Madrinha... Tem coisas que você escreve aqui que tocam lá no fundo, naquilo que já ficou esquecido (ou que tentou-se esquecer)... Já disse isso, nãoapenas gosto demais com suas palavras, me identifico com elas... A sua subjetividade consegue fazer o que a minha franqueza tenta, tenta e tenta, mas não consegue nunca: tirar isso tudo que tem dentro do meu peito...


Amei madrinha... Quase chorei, só não chorei por que homem não chora, mesmo sendo gay (brincando um pouquinho, rsrs)

Um beijão madrinha... Até o próximo post!!!

Menina no Sotão disse...

E quando você imagina as cenas passando ali ao seu lado e de repente se vê em cada palavra? Ai ai ai. Vou lá confeccionar alguns sentimentos e forma de versos agora. Culpa sua, viu? rsrsrs
Bacio

Rita disse...

" E você me disse com as palavras tão límpidas como seus olhos: eu que tanto te amei. E aquele verbo no passado ficou como espinho na planta do pé, quase nada a doer, mas incomodando quase todo tempo."

ai, ai...

Liliane disse...

Tão linda sua melancolia, como alguém disse, linda para nós que sorvemos suas palavras não para voce que sente as tristezas... Trago voce no calor dos meus afetos!
Obrigada pelas visitas e pelos susurros! Sempre bem vinda
beijinhos!

Atitude do pensar disse...

Percebo que a beleza vem sempre misturada à tristeza. Talvez por isso a poesia nasça da tristeza.
Como bem disse Alberto Caeiro: “Mas eu fico triste como um por de sol quando esfria no fundo da planície e se sente a noite entrada como uma borboleta pela janela”.
Abraços apertados,
K.

HG disse...

Em meio as comemorações do centenário de Noel... eis a dor!
É lendo o seu texto que começo a celebrar os 100 de nascimento de Noel Rosa.
Obrigada!
Texto fantástico!

Renata Lins disse...

Li depois, bem depois, fazendo de conta (porque era tão parecido) que era uma carta da Simone de Beauvoir respondendo ao Nelson Algren.

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