quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Umas Mulheres ou Aprendendo a Ser...

Minhas avós eram sertanejas. Minhas avós eram belas. Minhas avós eram mulheres de coragem. Tiveram dezessete filhos, cada uma, perderam um tanto deles, maior ou menor, conforme. Minhas avós já morreram. Cada uma de um jeito. No seu jeito, talvez. 

Minha avó materna poderia aparecer em qualquer propaganda de margarina. Cabelos brancos, bochechas rosadas, sorriso afetuoso. Era casada a 60 anos e ainda chamava meu avô de benzinho com um sorriso misterioso no canto da boca. Ela fazia tapioca com nata. E me contava histórias de amor. Histórias do namoro dela com meu avô e como foi preciso uma liberação do Papa para que se casassem. Histórias do amor dos meus pais, os namoros das minhas tias, os casamentos, divórcios e novos casamentos na família. Minha avó materna era lâmina em seda enrolada (como cantaria Mário Mesquita), suave e forte.  Minha avó tinha um colo quente e mãos confortadoras. Esta avó viu seus bebês, tão pequenos, morrerem de desinformação, fragilidade, pobreza. Esta avó viu filha e filho serem assassinados e meu avô levar tiros destinados a outra pessoa de mesmo nome e lado errado da rua. Um câncer a consumiu, foram muitos anos de superações. Foram muitos anos de lenta despedida. Ela ficou careca. Magra. Frágil. Mas nunca perdeu a capacidade de acolher e cuidar. Mesmo muito doente era ela que nos preparava para a saudade. Ela que sempre tinha palavras alegres. Ela que sempre lembrava dos melhores momentos com cada um. Morreu demoradamente, como se só pudesse partir depois que deixasse tudo no seu devido lugar. Lembro da valsa nas suas bodas de diamante. Ela, linda, de chapeuzinho cobrindo seus ralos cabelos, os olhos perdidos nos olhos do meu avô. Ele mergulhado nos perdidos olhares dela. Eles conseguiam fazer isso: encontrar-se um no outro. Minha avó materna era mar, promessa de segredos e encantos. 

Minha avó paterna era ventania. Morreu tão rápida e surpreendentemente que nem nos deu tempo de entender que seus riso alto já não estava mais por perto. Minha avó paterna jogava sinuca e, às vezes, pra enganar meu avô ela colocava ovos no lugar das bolas (isso era possível porque não tinha energia elétrica e usávamos lampiões a gás, assim, à noite, era sempre mais difícil ver). Minha avó paterna rolava nas dunas com os netos. Ela tomava banho de piscina e nos desafiava pra ver quem tinha mais fôlego. Ela fazia mais flexões que eu (e eu só tinha 21 anos). Quando eu ficava gripada ela me dava limão com cachaça e me piscava o olho. Era alta, magra, rija, alegre. Criou catorze filhos, eu nem consigo imaginar como. Esta minha avó foi a pé do interior do Ceará para Teresina na época da seca com meu pai recém-nascido no colo. Esta minha avó deu meu tio pra ser criado em outra casa porque não tinha condições de criá-lo. Ela e meu avô brigavam o tempo todo e não se largavam nem por um dia.  Não adiantava convidá-la pra passar um tempo longe que ela sem cogitava. esta avó contava histórias de trancoso, mas só à noite, pois senão o rabo crescia: a princesa pele de burro, o menino de ouro,  a mágica toalha que bastava ouvir um "põe-te mesa" e todas as fantasias gastronômicas se realizavam. Não nos foi dado a oportunidade de aprender a viver sem ela. Ela foi-se ligeira, como ligeiras eram as suas risadas. 

Minhas avós me inspiram. Encantam. Eu não esqueço como eu me sentia perto delas. Especial. Porque era parte delas e elas eram luminosas. Quando a Dilma disse para olharmos nos olhos das crianças e afirmarmos: mulher pode sim; lembrei-me das minhas avós. Foi isso que elas me fizeram crer desde muito miúda: eu podia, tanto e sempre. 

Minhas avós eram mulheres amorosas. Calorosas. Receptivas. Fortes. Determinadas. Ternas. Elas me inspiraram um desejo de gentilezas e generosidade.

Ganhei um lindo selinho da So Sad. Repasso para minha xará, do Caso me Esqueçam, para a Ultra do Subbacultha e, especialmente, já que não tem memes nem nenhuma exigência, para a Belos e Mal



Daí eu estava lendo o blog do Milton Ribeiro e me deparei com essa beleza (que é de  um escritor português chamado Francisco José Viegas).

"Eu bem os compreendo. O mundo seria perfeito, mas não é. Não vai ser. Pensamos que basta dar o exemplo, ler, ouvir música, oferecer livros, sermos honestos – e generosos, educados, prestáveis, interessados, tolerantes. Com isso o mundo seria melhor. Mas não basta, infelizmente não basta. Com isso, os adolescentes das escolas seriam pessoas melhores, não usariam aquela gramática de grunhos, não faltariam às aulas, não desdenhariam dos professores que se esforçam e lhes ensinam a diferença entre o culto e o inculto, o cru e o cozido, o bem e o mal, o frio e o quente. Mesmo dos outros, que não acreditam que existe um bem e um mal. O mundo seria perfeito. As famílias seriam honradas, pacíficas, passeariam ao domingo, fariam piqueniques, todos ajudariam a arrumar a cozinha e dormiriam a horas. Os nossos filhos leriam Dickens e Eça – ou, na pior das hipóteses, arrumariam os livros nas estantes. Eu bem os entendo – mas não basta. É necessário ser cruel, é preciso usar a autoridade quando não se quer, é indispensável dizer não quando até poderíamos dizer sim, pensar no que significa, de facto, a palavra exigência. A vida não é fácil. Não nos basta sermos o que somos; é sempre necessário sermos perversos e sentirmos culpa."

22 comentários:

Juliana disse...

tô arrepiada aqui, hein? Com ambos os textos.

Chorei demais com o que vc escreveu. Puxa!

HG disse...

Também me emocionei demais com ambos os textos... mas como suas avós eram lindas!!!
Saudades de tu, amiga!
Beijo na alma.

Palavras Vagabundas disse...

Estou com olhos salgados, muita saudade de minhas avós! Ambas guerreiras, mas a materna deve estar apaudindo de pé o país que elegeu uma mulher! Ela se formou no Normal em 1918 e foi morar sozinha e se sustentar, só se casou aos 27 anos!
Diz um ditado que "quem sai aos seus não degenera".
bjs
Jussara

Shuzy disse...

Que triste nostalgia...! Triste mas boa!

Lica disse...

I hate you! falou lindamente das nossas avozinhas, mas agora como é que eu elaboro minhas provas, com os olhos pingando??

Caso me esqueçam disse...

"Lembro da valsa nas suas bodas de diamante. Ela, linda, de chapeuzinho cobrindo seus ralos cabelos, os olhos perdidos nos olhos do meu avô. Ele mergulhado nos perdidos olhares dela. Eles conseguiam fazer isso: encontrar-se um no outro. Minha avó materna era mar, promessa de segredos e encantos"

aaaai, que descriçao linda! meus olhos se encheram de lagrimas! primeiro, pela beleza da coisa. segundo, porque eh isso que eu espero pra minha vida. espero muita coisa, mas desejo profundamente ter camilo no final da vida pra chamar de benzinho. coisa linda! adoro historias lindas assim, me derreto mesmo. eh quando deixo de ser grossa e fico soh chorona...

Caso me esqueçam disse...

e eeeeeba! selinho! brigadissima pela indicaçao hihihi adorei! vai pro proximo post! :D

beijoooô

Iara disse...

Nossa, tão lindo isso. Eu não conheci minha avó paterna, nem meu avó materno. Já meu marido tinha os 4 avós até o ano passado. Eu me apeguei especialmente a uma das avós dele, ela me adotou como neta já, porque avós são tesouro. E minha ambição não é ficar rica: é ficar velhinha tendo alguém pra chamar de "meu bem" e de "amorzinho".

Rita disse...

Olha, Luciana

De tudo que li em seu blog até hoje, esse é de longe meu texto preferido. Tão lindo. Linkei no Estrada e vou reler muitas vezes.

(Tenho a nítida impressão de já ter dito isso antes - meu texto favorito - mas é normal: você sempre se supera.)

Beijos
Rita

Belos e Malvados disse...

Obrigada pelo selo, Luciana. Parece que você adivinha quando estou meio mal: sempre me resgata com sua gentileza.
Um abraço.

Gui disse...

Posso dizer que me apaixonei pela sua vó porra louca?

Vai ver a capacidade de fazer as pessoas sem apaixonarem assim, sem conhecer, seja de família mesmo.

Júlio César Vanelis disse...

Olha... Eu achei lindo, vc acaba se embelezar a minha noite com as suas lembranças...
Adorei :D

Bjs

Glória Maria Vieira disse...

Ai que lindo! :'/ (Só pra variar, né Luh?!)

Bateu saudade dos meus "velhinhos"... Que bela descrição, viu?! Emocionante...

Glória Maria Vieira disse...

E ah: PARABÉNS PELO SELO! :D

Borboletas nos Olhos disse...

Juliana, fiquei emocionada ao escrever...Bjs e grata pela visita/comentário. Venha sempre!

HG, vou me contentar com o beijo na alma mas queria mesmo era abraço de verdade e cheirim...

Jussara, espero ter um tantinho da beleza e generosidade delas...

Shuzy, eu gosto muito de olhar/saber da história da minha família.

Lica, vou cobrar dos seus alunos...

Xará, eu já disse lá, o seu cantinho...só pra complementar, você merece demais o selo, eu simplesmente amo seu blog,ele me faz bem (e seus comentários aqui, então, ai, delícia).

Iara, eu diria que voce tem as prioridades certas. Eu também quero. E quero (posso?) receber sempre suas visitas.

Rita, querida, queridíssima. Fiquei numa satisfação só ao me ver linkada naquela estrada tão linda. Sua generosidade é como sua inteligência e humor: enorme!!!

Belos e Mal, eu gosto tanto de você! Deve ser por isso, né? Gosto de ir visitá-la, gosto de recebê-la. Selo merecido pela enorme admiração que sinto. Fica bem, viu?

Gui, eu já aceitei o pedido, é só marcar a data porque a paixão é recíproca (você não grila com a diferença de idade, né?)

JC (enquanto não sei se vc prefere Júlio, Julio Cesar ou só Cesar), amei sua visita/comentário. É tão bom saber que de alguma forma se toca alguém...

Beijos a todos, seus comentários me deixam muito, muito feliz...

Borboletas nos Olhos disse...

Glória, vou nem mentir...estava sentindo falta do seu comentário. Aí quando postei o meu é que vi você. Como sempre, animada e gentil. Thanks pelo carinho. Muitos beijos pra você, minha querida...

Amanda disse...

Borboleta, lindo seu texto!! Tbm me emocionei pacas! Que avozinhas mais doces e guerreiras! Veio bem a calhar com meu texto tbm: como alguém tem a coragem de criticar os nordestinos depois de conhecer suas avos???! Um beijão!!

Amanda disse...

So pra completar, minha avo paterna morreu um dia antes de eu sair do Brasil. Meu ultimo dia la foi so pra eu me despedir dela.

Clara Gurgel disse...

Lindo Luciana! Quanta sensibilidade!
"Ela, linda, de chapeuzinho cobrindo seus ralos cabelos, os olhos perdidos nos olhos do meu avô. Ele mergulhado nos perdidos olhares dela. Eles conseguiam fazer isso: encontrar-se um no outro. Minha avó materna era mar, promessa de segredos e encantos."

so sad disse...

que lindo amiga! essas historias de familia se eu soubesse escrever...
beijo!

ps. estou esperando teu email...

Renata Lins disse...

Não tinha visto este.
Chorando aqui com a perda da avó que eu nunca tive.
Com a perda da avó que eu tive.
Com o avô que eu só conheci depois do derrame.
Com o outro avô, que me botava no colo na rede, me contava histórias e desembaraçava o cabelo da minha irmã.
Meu avô, que sempre falta naquela mesa.

Anônimo disse...

Minhas avôs.... obrigada feia por este reencontro com elas e comigo mesma.... doces lembranças!

Luana

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