sábado, 27 de novembro de 2010

Fim da Violência Contra a Mulher - Dia 7

Esta Semana de Ativismo Online pelo Fim da Violência Contra a Mulher, foi uma semana intensa e eu só posso agradecer a todos que com ela colaboraram. Sou grata ao Évio, Teresa, Lica, Gui, Joana e Carla, seus textos foram mobilizadores, interessantes, esclarecedores, provocantes, dolorosos, verdadeiros. E um obrigada a Jussara, Lunna, Aluísio, Rita, HG, Júlio, K., Bela e Má, Sardenta, Mila, Clara Gurgel, Amanda, Riff, Manuel Clemente, Valentina, Lhydia, Mari Biddle...um comentário, que em um blog é sempre uma generosidade e uma delicadeza, nesta semana foi além, deu-nos a idéia da repercussão e importância de nossas palavras. Ainda a gratidão aos silenciosos visitantes e a todos que tuitaram e divulgaram o link das postagens em suas redes sociais.


Eu ainda devo algumas palavras minhas e passei um tempo tentando ordená-las, mas elas são ariscas. Vamos à audácia. Eu conheço uma porção de mulher que não gosta de futebol, não entende futebol, não assiste futebol. Os motivos são variados e o não menor deles pode ser, além dos já esbravejados aspectos culturais, o mesmo dos norte-americanos: um jogo demasiado longo em que o placar quase não é alterado (especialmente se pensarmos nos altos escores do basquete e tal). Então, se alguém dizia, perto de mim, que mulher não entenderia um determinado exemplo porque não entende de futebol, eu não consideraria uma afirmação machista ou preconceituosa, tomaria pelo que me parecia, uma constatação de um dado. Bom, eu assisto futebol, muito. Acompanho desde jogos da série B do Brasileirão a campeonatos como o Campeonato Italiano, Espanhol, Inglês, etc. Eu entendo de esquema tático. Conheço os fundamentos. Tenho minhas preferências clubísticas. Quando alguém desconsiderava ou contestava uma colocação minha sobre futebol sem ater-se aos argumentos mas porque "eu sou mulher" aí eu considerava machismo e me sentia agredida, violentada. Eu entendia como fenômenos independentes e que devíamos ver as pessoas nas suas individualidades. Estou repensando tudo isso.


Do que estou falando? Vou tentar começar de novo. A violência tem várias nuances. Uma delas, que geralmente costuma distorcer e desviar o foco do tema violência contra a mulher, é que a violência é demasiado humana, está em vários aspectos da vida em sociedade, nos relacionamentos íntimos e nos vínculos institucionais, exercida por homens sobre homens, mulheres sobre mulheres, mulheres sobre homens, adultos sobre crianças ou sobre idosos... O fato de ser assim tão nossa não nos obriga a aceitá-la ou naturalizá-la. Mas é preciso reconhecê-la pra agir sobre. Mas o que quero discutir aqui é que a violência de gênero parece estar profundamente entrelaçada ao preconceito. O preconceito, um tipo peculiar de atitude, possui aspectos cognitivos, afetivos e comportamentais.

De maneira bem rasa:


O componente cognitivo se manifesta por estereótipos, crenças e representações de atributos negativos que caracterizariam determinados grupos sociais. Por exemplo o discurso machista cria a ilusão de inferioridade, dependência, ignorância, coisificação da mulher. Mulher dirige mal. Mulher não entende de lógica. Mulher não sabe fazer conta. Mulher não sabe decidir rápido. Mulher deve ser agradável aos olhos.


O componente afetivo apresenta-se em avaliações e sentimentos negativos a respeito do grupo discriminado. Mulher é incompetente, não GOSTO de trabalhar com elas. Ah, mas ela era vagabunda, mereceu! Não confio em mulher no trânsito. Claro que quem vai governar é o Lula...


 O aspecto comportamental materializa-se na tendência à prática de atos hostis ou persecutórios aos membros do grupo alvo do preconceito. Eu pago menos a uma mulher do que a um homem que realiza o mesmo trabalho. Eu empresto a chave do carro pro amigo mas não pra amiga. Eu faço piada sobre a situação da mulher na sociedade. Eu bato, estupro, mato a mulher.


Não importa se o sexismo se manifesta de forma hostil (sua vaca!) ou benevolente (tadinhas, não têm um homem, são mal-amadas). Não importa, repito, é violento.


Ainda não consegui? Se um homem acredita que a mulher é um objeto para sua satisfação, uma coisinha a lhe dar prazer - seja estético, sexual ou conforto no lar - ele sente que ela lhe pertence, não vai sentir empatia mas senso de propriedade e, na lógica capitalista de que um bem seu é seu para dispor como quiser, o comportamento violento emerge sem nenhuma censura. Assim os "crimes de honra" são repetidamente desculpados. 


Considero violento todo pensamento, sentimento e ação que priva alguém da sua humanidade. Matar uma mulher é uma violência (matar um homem também, mas foco no assunto, tá). Esmurrar, chutar, bater, sacudir uma mulher é uma violência. Cuspir em uma mulher é uma violência. Gritar com uma mulher é uma violência. Privar uma mulher do direito de ir e vir é uma violência. Tirar o direito de escolha de uma mulher é uma violência. Escrever uma reportagem sobre quantos parceiros sexuais uma mulher tem porque seu nome termina em A é uma violência. Todas essas ações são legitimadas e potencializadas pelos processos de socialização que reificam as mulheres tais como os padrões moralistas de comportamento sexual, os valores ligados à aparência física, as demandas de posturas submissas, as exigências de convergirem com modelos de "boa mãe", "boa esposa", "boa amiga"...


Então, é assim: não dá pra começar tudo de novo. Temos que reconhecer o que está e procurarmos mudar, de fora pra dentro e de dentro pra fora. Criar espaços e formas de afirmação sim para, na concretude das experiências, novas subjetividades se constituírem. Concomitantemente são as novas subjetividades que possibilitarão mais espaços e mais ações de igualdade de opções e direitos.


Não é porque eu não sou machista, violento, preconceituoso que estou à parte do problema. A violência contra a mulher permanecerá enquanto a sociedade mantiver a idéia de mulher como acessório, complemento, costela, parte do homem. 


Voltando ao começo do texto: eu, Luciana, posso até nunca ter sido alvo de preconceito por ser mulher, mas vivo em uma sociedade que associa valores negativos a pessoas do meu gênero (raciocínio adaptado do lindo texto da Juliana sobre racismo). E isso é inaceitável, indesculpável, intolerável (obrigada pelas palavras, Joana, elas dizem tão bem).

Finda a semana mas, espero, não cesse nossa indignação, mal-estar, mobilização. Não finde nosso cuidado com as ações e com as palavras. Que permaneça a vontade de uma sociabilidade outra, pautada no respeito, na empatia, no direito de escolha, no afeto. 

6 comentários:

so sad disse...

Sabe o que é pior? estamos no Seculo XXI...

beijo!

Palavras Vagabundas disse...

Luciana, linda borboleta...
As grandes violências (estupro, espancamento, etc...) estão na mídia, as pequenas não! Aquelas que ninguem vê, o chefe fazendo gracinha sobre o tamanho da saia, a mulher sendo taxada de vagaba por ir a um bar na sexta à noite,
o feirante que grita "mulher gostosa não paga" e por aí vai.
Eu acho super válido a gente gritar contra a violência, mas prefiro lutar no varejo. Vou a uma oficina mecânica e quero tudo explicadinho e aí se o cara me disser que sou mulher e não entendo!
bjs carinhosos e bom domingo
Jussara

Insana disse...

Você tem meu apoio em seu predido de paz..
mais eu aqui do Rio de Janeiro, Gostaria de completar com o pedido de Paz a todos.

bjs
Insana

Rita disse...

Yes! Good girl!

Beijitos,
Rita

Júlio César Vanelis disse...

Sabe, madrinha, o que me deixa mais triste é como isso tudo ainda é sustentado de maneira amenizada, mas ainda descarada, por meios de comunicação em massa, além dos elementos culturais que as pessoas não fazem questão nenhuma de eliminar. Eu, apensar de não ser mulher, e apensar de não pretender ter uma relação conjugal com uma mulher, eu não posso dizer que estou fora disso tudo. Eu tenho mãe, tenhi irmã, tenho amigas, e, apesar de a maioria delas nunca ter sofrido violencia física direta, cada uma tem pelo menos um grande problema que pode ser atribuído a essa violencia disfarçada de que você falou.

Parabéns pela semana, madrinha!!! Foi lindo, e adorei participar tabém...

Um beijo... Até o próximo!!!!

Lica disse...

Feiosa,

Primeiro, obrigada por me convidar para participar dessa semana. Nós (duas)nunca convivemos com o problema de ser mulher tão de perto, e talvez por isso, me julgasse menos feminista. O fato é que a mídia coloca essas questões de forma tão diluída (quando divulgada), que a situação aparenta ser menos grave do que realmente é.

Não é porque minha veia é a do riso que as histórias não me comovam ou me indignem. Fico sim, ultrajada com a pesquisa divulgada no R7 sobre os nomes das mulheres; indignada com a mãe da garota que estava namorando escondido (com o pai também, mas a mãe!), com a indiferença dos homens (de maneira geral, obviamente) à mobilização feminina.

Ano que vem, estamos aí. Vou começar, a partir de hoje, a pesquisar novas piadas...

Ah, e segundo (porque quem escreve "primeiro, " deve escrever outra coisa, senão primeiro fica sem sentido), parabéns pelas suas amizades, visitas, comentadores (ou caçadosres de borboletas - olha a violência contra os animais...) Pessoas sensíveis e muito, muito agradáveis. Obrigada a eles (e elas) por todos os comentários gentis que recebi.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...