sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Fim da Violência Contra a Mulher - Dia 6

Desde que fiquei sabendo da Semana de Ativismo Online pelo Fim da Violência Contra a Mulher, e resolvi nela me engajar, eu decidi que o último post não seria no dia 25/11, o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher.  Eu não queria ter a sensação de que, passada a data, passam as preocupações com o tema. Sei que isto não é necessariamente verdade e que muitas pessoas dedicam muito do seu tempo a mudar esta realidade tão cruel. Mas sei, também, que as atribulações diárias exigem nosso tempo, nossa atenção, nossas forças. Assim, ainda temos convidados. Ou melhor, convidada: minha querida Turmalina. Há muitos blogs que sigo e mais ainda há os que me divertem, ensinam, provocam. Entretanto, há cantinhos especiais, aqueles que nos proporcionam sensações específicas e indispensáveis. O blog da Turmalina, o Carta de Tarot, sempre me tranquiliza e me faz refletir. Turmalina escreve com entrega, ética, ponderação. Pode-se não concordar com tudo, mas não há como ignorar. É com esta mesma régua e compasso que ela nos indica...

Reagir Gera Violência, by Turmalina
Esta semana é dedicada ao Combate à Violência contra a Mulher.
Agradeço à doce Luciana o querido convite para participar deste movimento, entre tantas pessoas tão gabaritadas. Por exemplo, eu não sei escrever bonito quanto a Teresa e a Eugénia, minha escrita é dura, mas gosto de colocar no papel o que penso. E gosto mais ainda de imaginar que alguém pode pensar através de mim.
A Luciana disse que costuma gostar do meu posicionamento à respeito dos fatos e eu digo que muitas vezes me sinto na contramão. E em outras não sou bem interpretada.
Me considero absolutamente normal, mas tem quem ache que eu penso diferente. Então vamos lá:
Vemos esse tipo de violência desde os tempos mais primitivos. E me parece que nos dias modernos e na sociedade mais civilizada em que vivemos, as notícias de agressões contra as mulheres mostram cada vez mais violência por parte do agressor.
Antigamente as mulheres ficavam presas em casa, eram chantageadas e eram obrigadas à praticar sexo sem vontade e muito menos consentimento. Era ruim pacas, não? Claro que sim. Mas hoje, que a grande maioria adquiriu o direito de ir e vir, as agressões parece que ficaram mais pesadas e os óbitos, infelizmente, mais freqüentes.
Existe uma teoria que diz que o que mudou é que hoje existe mais divulgação. Eu prefiro acreditar que anteriormente a violência era menor, apesar do respeito à condição feminina não ser o forte das épocas passadas. E ainda existem aqueles que dizem que a violência contra a mulher é cultural. Cultural é o escambau!  
Hoje, muitas e muitas mulheres apanham sem nem um motivo que tente explicar tão disparatada reação do parceiro. Parceiro sim, porque estamos falando de violência doméstica. De quando aquele suposto amor acaba e tudo vira somente raiva e vingança. 
A maioria dos agressores, que não estou aqui defendendo em hipótese alguma, costuma abusar no "carinho' em momentos de descontrole emocional. Pelo menos é essa a justificativa que a grande maioria utiliza na delegacia para explicar a porrada que deu na mulher, esposa, amante ou namorada. O Évio explorou perfeitamente bem esse tema, mas vou voltar nele. Meu foco para o dia de hoje é a Não Reação.
Tenho duas amigas que foram vítimas de violência doméstica. São amigas muito antigas.Cada qual mora em um Estado e elas mal se conhecem, mas suas histórias são extremamente parecidas. As duas demoraram para casar, escolheram bem, segundo elas mesmas. Casaram e trabalharam até a chegada do primeiro filho. Os maridos as convenceram a parar de trabalhar para cuidar da casa e dos filhos, prometendo o sustento da casa e aqueles pequenos luxos que toda mulher gosta. Até aí ia tudo bem. Embora eu achasse, e na época tenha até comentado, que elas deveriam retomar suas atividades, nem que fosse por meio período. A não dependência financeira é essencial para a harmonia de uma casal. Infelizmente o dinheiro estraga muitas relações. 
Uma era publicitária, a outra atleta e tinham bons empregos antes do casamento. Mas a promessa de uma vida tranqüila, cuidando da casa e dos filhos e sendo feliz era muito tentadora. 
Os maridos, numa certa altura, começaram a cobrar um segundo filho. Ao ser comunicada da intenção alheia eu disse que elas deveriam ter muita certeza se queriam mesmo o segundo filho. Isso seria desistir definitivamente da carreira profisssional por pelo menos uns 7 anos. Mas elas estavam confiantes, afinal eram tão felizes!
Tiveram seus segundos filhos. Agora cada qual tinha um casalzinho em casa, como uma típica família padrão. Casa própria, carro do ano, marido bem empregado, cabelereiro semanal e fartura na cozinha. O que mais podiam querer? Ai, meu Deus, tem horas em que penso que não nasci mulher, nasci extraterrestre.Uma conversa dessas nunca me convenceria, mas enfim, vamos adiante.
As crianças estavam crescendo que era uma beleza, assim como as contas. Era escola particular, festinha em buffet, novamente a troca do carro novo, uma casa maior e o marido mais horas fora de casa. Porque nos finais de semana eles queriam sair para arejar e sem a família, afinal de contas eles trabalhavam tanto para manter aquele status que eles tinham direito ao lazer também. Aliás, pensavam, cuidar da casa e das crianças era um eterno lazer mesmo...Aí começaram as cobranças e em seguida as desconfianças.
Uma me ligava para contar que o fulano chegou em casa tarde outra vez, bêbado e com cheiro de perfume barato. A outra que descobriu uma amante, ou melhor várias, invadindo o e-mail do marido, provavelmente as mesmas que andavam deixando recadinhos na caixa postal do celular. 
E vocês devem estar se perguntando o que tudo isto tem à ver com a violência doméstica.Pára a fita. Vemos duas mulheres insatisfeitas, dependentes economicamente dos maridos, preocupadas com a estabilidade familiar e que resolveram falar umas verdades. As ofensas normalmente começam leves, mas ao serem provocadas partem para o ataque. E uma fera ferida sabe atacar e muito bem.
Tentei alertá-las do perigo e aconselhei-as o caminho da justiça. Mas que nada, elas tinham a certeza que podiam conversar, ter um dialógo saudável com o parceiro e que em breve tudo estaria resolvido. Vamos pular um ano de ofensas e histórias sórdidas e ir para o resultado final: 
A publicitária acabou com um murro no olho e o marido com a mão quebrada, quando na segunda tentativa de esmurrar-lhe o rosto, acertou a parede. Ela pegou as chaves do carro e foi para a delegacia mais próxima. Enquanto estacionava o veículo ele emparelhou e ameaçou acabar com a vida dela, caso ela fosse adiante. Ela me telefonou e eu aconselhei-a  à ir para a casa da mãe.Claro que ela não concordou! 
Voltou prá casa e novamente tomou uns murros, agora acompanhados de chutes pelo corpo todo. Escutando os barulhos e os gritos das crianças, os vizinhos apareceram. Finalmente ela fez a mala dela e das crianças e foi para a casa da mãe. Depois procurou uma advogada.Ela voltou a trabalhar, à princípio para pagar a advogada e hoje está bem. E ele mora em outro Estado, bem longe daqui.
A atleta teve o braço fraturado em três partes quando o marido à empurrou contra as grades do portão da casa aonde viviam. Isso porque ela havia mencionado ir embora e levar as crianças se ele não tomasse jeito. Que jeito? Ele a agrediu e foi para a casa da mãe. Ela me ligou desesperada. Eu a orientei a ir à uma delegacia, dar queixa e fazer exame de corpo delito, além de trocar as chaves de casa. E assim foi feito.
Depois de umas semanas ela voltou à delegacia e tudo havia sumido. Nem um único documento que comprovasse a agressão. Esse é o país em que vivemos, o da corrupção em todos os níveis. Ela pegou as crianças e foi embora.Ele a descobriu numa pequena cidade do interior e enquanto as crianças estavam na aula, ele, aparentemente calmo no momento, a procurou para conversarem. No meio da conversa ele a ofendeu, ela reagiu e o acusou de muitas e muitas coisas. O resultado é que ela quase morreu. A sorte é que as crianças chegaram da escola bem na hora. Ela mudou de país, abriu um processo contra ele e ele só parou depois de ter a prisão decretada. Hoje ela vive em paz e tenta refazer a sua vida.
Mas o que eu quero dizer com tudo isso?
Somos mulheres, fortes, porretas e etc, mas nunca devemos reagir. Vamos deixar que nossas feras protestem politicamente, que nossa força sirva para protegermos nossa prole.Nesta semana, o mais importante é saber que não vale a pena comprar uma briga com o marido, amante, ficante ou namorado, Engulam a raiva e se afastem. Existem outros meios. Temos a Lei Maria da Penha, temos ONGs, temos amigos e parentes. Por sorte, essas minhas duas amigas não perderam a vida, mas poderiam estar mortas agora.
Como elas, existem milhares de mulheres insatisfeitas e dependentes por aí, com um monte de coisas atravessadas na garganta. E é para elas que escrevo hoje, pedindo que, por favor, não enfrentem os possíveis agressores. Sei que não é fácil, mas tentem! Tenham a coragem de fazer as malas, não esperem que eles saiam...


4 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Ola as duas!
O problema da violência física nunca aparece de repente é sempre o final de uma sucessão de outras pequenas violências e humilhações. Não é fácil fazer o marido pagar, já ajudei algumas e acompanhei outra no longo processo de provar que apanhou! Vocês não têm idéia a humilhação que é no IML para fazer exame de corpo delito.Alguém podia falar nesse processo.
bjs
Jussara

Menina no Sotão disse...

Isso é uma coisa tão humana que me incomoda porque o sentido dessa palavra parece ficar perdido em meio a meia dúzia de ações lamentáveis. Enfim, é difícil pensar que somos apenas isso.
E o pior que a violência passa por todos os cantos e não é só contra a mulher, é contra crianças, animais e por aí vai. Lamentável.
Bacio

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

Penso que em cada mulher,
existe a força e a esperança
que dão sentido a vida.
É preciso ensinar a cada
nova geração
o respeito e a alegria
de conviver com
nossas companheiras de vida,
que dão sentido a nossa vida.

Alegrias plenas para ti.

Lica disse...

Quando a Luciana me falou desse texto (antes de eu ler, porque semana passada foi um inferno), eu já tinha adorado!

É isso aí, a gente divulga: "não reaja ao assalto! Entregue tudo pra escapar com vida." Mas no caso da violência doméstica, o papo é tentar salvar o casamento. Bull shit!

Eu tenho muita sorte de n]ao ter presenciado a violência doméstica, nem comigo nem com amigos próximos (aliás, teve um caso na minha família muito antes de eu nascer). O fato é que essa semana me abriu os olhos para a causa feminista.

Ah, fico feliz que amigas estejam reconstruindo suas vidas.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...