quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Fim da Violência Contra a Mulher - Dia 4

A Semana de Ativismo Online pelo Fim da Violência Contra a Mulher continua por aqui com convidados que chegam dando uma sacudida nas teias de aranha que meu cérebro "ajunta" vez em quando. A gente não concorda em tudo? É pra isso que se convida, pra difundir idéias, discutir princípios, bater o pé ou mudar lentamente. Hoje o Borboletas recebe meu marido (e continua o favorecimento...): o Gui. Sabe afinidade e carinho? Sinto isso por esse menino do Rio. Um dia ainda dou um abraço real nesse xodó virtual. O Gui escreve n' O Ás de Espada e entre todas as virtudes que se encontra lá eu destaco a coragem, o desnudamento dos sentimentos, a verdade de quem escreve de coração aberto. Chamei e ele carinhosamente veio com seu olhar jovem e antenado. Vamos ler?

A mesma mão, by Gui
Estamos entrando na segunda década do século XXI (pra mim, a segunda década só começa no 11) e é incontestável a quantidade de direitos que as mulheres conseguiram. Hoje encontramos mulheres empresárias bem sucedidas, mães solteiras que não são mais, necessariamente, vistas como as grandes filhas da puta da estória, criando filhos também bem sucedidos. Hoje, temos, inclusive uma mulher presidente (a discussão de presidente ou presidenta não cabe aqui, né?) e que foi eleita, embora os marketeiros políticos usassem da imagem de 'primeira mulher presidente', sem que em nenhum debate isso fosse realmente citado. É maravilhoso perceber que apesar de se ouvir e ler em emails anônimos e difamadores: "a mulher safada da Dilma", "a mulher corrupta", no fim das contas o fato de ela ser mulher não teve relevância (ou não a relevância que os adversários queriam). Isso mostra o quanto já conseguimos progredir no óbvio conceito de que a mulher é tão digna quanto o homem, tem tanto o direito de ser tratada como cidadã quanto ele. Hoje, a mulher não é mais de segunda categoria.

Entretanto (sempre há um contraponto, infelizmente), existe ainda um machismo (muitas disfarçam dizendo que é apenas cavalheirismo) embutido nas próprias mulheres, que, muitas vezes, pode passar despercebido. Exemplo? Quantas mulheres acham 'ok' rachar um motel, por exemplo? Eu tenho muitas amigas que acham um absurdo. Assim como o cara não pode deixar de pagar o cinema e o jantar em um restaurante chique. Na boate, pra muitas mulheres, o 'privilégio' de conversar e até mesmo de ficar com algum cara depende dele ter a "atitude" de pagar algumas bebidas. (Claro que não cabem generalizações, mas é um comportamento MUITO difundido entre várias amigas, conhecidas, amigas de conhecidas e conhecidas de amigas)

É interessante fazer o paralelo com o que chamam de cavalherismo. É realmente cavalheiro pagar tudo? Quando as mulheres lutam tanto para conseguir a própria independência financeira, ganhar tão bem quantos os homens de mesmo cargo, que o cara pague a maior parte das coisas? Porque se sim, uma vez que cavalherismo é uma coisa desejada por 11 entre 10 mulheres, os homens deveriam ganhar mais, porque além de todas as despesas que teriam, como as mulheres, também teriam que ter dinheiro para bancar duas pessoas, sempre, certo? Os homens heteros, digo. Embora no mundo gay masculino (não sei como funciona no mundo gay feminino, tem isso?) haja uma analogia parecida entre o passivo e o ativo (que por si já é uma definição um tanto quanto complicada), no qual o ativo representaria a imagem masculina e o passivo, a feminina. Leitoras, façam essa pergunta a vocês mesma. Se em um primeiro encontro, o cara quer rachar o jantar, o taxi e o motel, como vocês se sentiriam? Sejam sinceras.
Muitos vocês estão se perguntando agora o que isso tem a ver com a violência contra a mulher. A violência só se estabelece quando uma das partes se sente, de alguma forma, superior ou detentora de algum poder, em algum grau, à ou sobre a outra. Sendo mais claro, quando há uma relação de submissão. Se o homem - a figura equivocada do Homem da Casa - sustenta sua mulher, em todos ou em alguns sentidos, se é ele que assume as contas enquanto ela gasta seu dinheiro com futilidades (não estritamente no sentido da palavra, mas em coisas aparentemente dispensáveis), ele pode se considerar, embora equivocamente, o comandante, enquanto a mulher é apenas o subcomandante (e nisso nem estou incluindo as donas de casa, que tem uma forma ainda mais intensa desse sentimento da parte masculina) e, aí, em uma discussão, pode simplesmente se achar no direito de agredir fisicamente a mulher. E nem é preciso haver uma relação matrimonial pra isso. O que não faltam são casais de namorados (homens e mulheres) em que ocorre agressão (Alô, Luana Piovani?). 
Um dado interessante é o do Ibope em conjunto com a Avon (primeira das várias estatísticas presentes) que mostra que a preocupação com a violência doméstica é maior entre mulheres com baixa renda, escolaridade e em cidades pequenas. Podemos, de certo modo, considerar que esse dado corrobore a ideia  - equivocada - de que o homem que sustenta tem poder sobre a mulher sustentada (a descrição da mulher de baixa renda, baixa escolaridade e moradora de cidades pequenas suscita a ideia de dona de casa). O estudo, de 2009, também mostra que a preocupação com a violência doméstica só aumentou nas classes de baixa renda (D/E), em comparação com 2006, ano de aprovação da Lei Maria da Penha.
Esse comportamento, é, obviamente, resultado de séculos de castrações e doutrinamento, então, ainda hoje, esse tipo de pensamento está presente no inconsciente feminino. Como culpar uma mãe do interior, que não teve acesso ao estudo,Mais do que tudo, é preciso conscientização. A própria conquista da Lei Maria da Penha revela que essa mudança está acontecendo. As mulheres, finalmente, estão passando a se considerar tão importante quanto os homens.
No entanto, enquanto a mesma mão que agride e machuca, colocar comida dentro de casa e comprar o remédio da surra da noite anterior, as mulheres continuarão sendo vítimas. É preciso uma mudança na mentalidade feminina. Os joguinhos sexuais de sedução escondem uma forma de ser submissa que acaba se manifestando em outros momentos, extremamente perigosos. Não podemos deixar que anos de conquista sejam minados por um pensamento que, muitas vezes, passa despercebido.



7 comentários:

HG disse...

Há controvérsias!!!!!

Mila disse...

"No entanto, enquanto a mesma mão que agride e machuca, colocar comida dentro de casa e comprar o remédio da surra da noite anterior, as mulheres continuarão sendo vítimas"

Isso é pura verdade, contemplei muito isso quando pequena...

Belo post

Mila

Atitude do pensar disse...

Excelente post!!

Três observações:

1º: "tem tanto o direito de ser tratada como cidadã quanto ele." >>>Desde a sociedade grega ser cidadã não é muita referência para algo, naquele tempo, mulheres, crianças e escravos não eram considerados parte da pólis. Hoje, especificamente, questiono mais ainda o que é ser cidadão numa sociedade individulaista e consumista, repudiei as campanhas políticas nessa última eleição, pois comparavam cidadania com direito de consumir, portanto espero que ser mulher, tratada como cidadã, não seja apenas ser tratada pelo acesso aos bens de consumo.

2º: "...existe ainda um machismo (muitas disfarçam dizendo que é apenas cavalheirismo) embutido nas próprias mulheres...">>>Concordo plenamente, inclusive dentro desse assunto, é o que mais me angustia! O quando reproduzimos um machismo exacerbado.

3º: "É preciso uma mudança na mentalidade feminina.">>>Eis o mais difícil, a mudança de cultura. A conscientização está além de conhecimento, perspassando pelo exercício da prática, o acesso transformador, emancipador!

Júlio César Vanelis disse...

Padrinho postando no blog da madrinha!!! Adooro...
Olha, eu concordo com tudo, isso é cultural... Na maioria das vezes, não se trata apenas da dependencia finaceira ou da sobmissão doméstica, mas principalmente da dependencia sentimental. Acho que devido as próprias características do cérebro feminino (isso não é cultural, é biológico) a mulher tende a ser mais passional que o homem, inclusive em relação ao sexo. Isso gera, de certa forma, uma dependencia sentimental forte... tanto que, depois da aprovação da lei Maria da Penha, muitas mulheres que se motivaram a denunciar as agreções domésticas que sofriam acabaram desistindo ou retirando a queixa, pois não queriam estragar a vida do homem que elas amam...

Muito bom o post Gui, como de costume!!!

Beijos na madrinha e no padrinho!!! kkkkk

Júlio César Vanelis disse...

Ahh, antes que eu esqueça, não gostei nadinha dessa comparação que você fez com os passivos e ativos. Não pe bem assim que acontece não... Nem sempre é o ativo que paga a conta!!! (vestindo a carapuça) kkkkkkkkkkk
TO ZUANDO, TÁ??

Joana Vasconcelos disse...

Fantástico post!

Gui, é o que se chama colocar o dedo na ferida. Essa que vc aponta é uma das facetas porventura menos focadas mas nem por isso menos graves deste problema, que está na cabeça dos homens, mas também e em grande medida na cabeça de certas mulheres...Daí que a solução passe pela educação deles e também delas ...

Na raiz desta violência está uma visão da mulher que a deprecia, secundariza, instrumentaliza e desvaloriza. E uma visão da relação homem-mulher como de dominação e subordinação. Ora, é sabido que uma e outra estimulam e se alimentam da dependência e da falta de autonomia...

Em todo o caso, creio que há ainda espaço para o cavalheirismo - leia-se para ele pagar o jantar - desde que temperado pelo bom senso e o savoir faire de ambos: da próxima paga ela ... Ou será que ele se incomoda? ;)

Parabéns Luciana,isto vai de vento em popa!!! Um beijo

Turmalina disse...

Adorei o texto que vem de encontro com muito do que penso.Quanto ao cavalheirismo e a posição que a mulher deve assumir:
Minha mãe me ensinou à sempre oferecer para dividir a conta.
Se num primeiro encontro o cavalheiro não aceitar, tudo bem. Mas se isto se tornar uma constante é preciso ficar de olho, se é sinal de cavalheirismo ou inflexibilidade, ou até machismo.

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