quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Por Amor

Há tanta coisa que eu queria dizer, mas me faltam as palavras. É exatamente assim que me sinto: sem palavras. Porque as que tenho não parecem dar conta de tanta coisa que desejo e penso. Eu gostaria de ser, por agora, uma daquelas pessoas que reúnem informações e fazem análises ponderadas como essas que se encontra aqui na Carta Maior ou aqui no Na Prática a Teoria é Outra. Ou, por outra, queria ser como a Rita que, com delicadeza e sensibilidade consegue articular idéias e argumentos como no post já divulgado aqui Meu Vício em que apresenta um painel tocante dos oito anos do Governo Lula ou no post Véspera que traduziu um pouco da minha ansiedade e desejo naquela ocasião. Mas eu não sou assim.

Flaubert dizia "Madame Bovary sou eu" referindo-se, claro, ao fato de sermos nosso estilo. Eu sou vermelha como disse aí embaixo. Passional. Minha declaração de voto vem, assim, impregnada dessa paixão.

É por amor que voto na Dilma. Por amor a um projeto, a concepções, a idéias que foram se fazendo, sendo reexaminadas, discutidas, redimensionadas. Por amor a ações que mostram seus efeitos aqui, pertinho de mim.

Eu estudei em Universidade Pública. Universidade Federal. Um dia, o teto da sala caiu bem no meio da aula. Ninguém se machucou, mas o susto foi grande. Foi na década de 90, no pico da gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso. Nessa época não havia contratação de professores efetivos, havia escassez de bolsas para pesquisa, extensão e monitorias. As carteiras viviam quebradas. Hoje leciono em uma Universidade Federal no meio do semi-árido. Há cadeiras novas, mais de 70 professores efetivos contratados só no meu departamento, bolsas do CNPQ incentivando a pesquisa, há alunos do interior morando nas residências universitárias e recebendo bolsas quase equivalentes a um salário mínimo. Ressalto que não estou fazendo uma defesa do meu emprego mas da valorização do ensino superior no país. Aliás, não só do ensino superior mas também da qualificação do ensino profissionalizante.É por amor a esse projeto de valorização da educação que eu voto na Dilma. Voto esperando que ela mantenha essa política e a desenvolva expandindo as ações para o ensino fundamental.

Eu sou psicóloga e tenho vários amigos que trabalham em CAPS (Centro de Apoio Psicossocial) e CRAS (Centro de Referência da Assistência Social). São conquistas difíceis e recentes manter a ação preventiva e em contato direto com a população. Isso tem sido feito aos poucos, mas de forma constante. Quando estudava na tal Universidade o Hospital Universitário era totalmente sucateado. Hoje, lentamente, se reestrutura e volta a ser referência em atendimento, especialmente no que toca ao atendimento à gestante. É por amor a um projeto de saúde que envolve mais do que a intervenção médica e a cura alopática que voto na Dilma. Voto na esperança de que as idéias do SUS que é referência mundial em concepção de saúde continue se concretizando.

Eu sou nordestina e sertaneja, trabalhei em assentamentos e comunidades rurais, tenho parentes que vivem no interior do Ceará. Dez anos atrás as dificuldades de locomoção, de acesso ao lazer, as situações de fome e exclusão eram muito mais do que situações atípicas. Eram a constante. Hoje, com o aumento do número de postos de trabalho e as políticas de distribuição de renda isso mudou significativamente. É por amor a um projeto de inclusão social e erradicação da miséria que voto na Dilma. Voto na esperança de que essas políticas continuem, sejam fortalecidas e atentem para a situação da mulher chefe de família com mais ênfase.

É por amor a um Brasil respeitado no exterior e em processo contínuo de crescimento econômico que voto na Dilma. É por amor à idéia da integração via ferrovias. Por amor à concepção de respeito à diversidade. Voto na esperança de que a agenda de sustentabilidade ambiental possa ser melhor implantada e que as questões dos direitos individuais sejam discutidas com maior ênfase.

Eu voto pela continuidade do projeto que aí está e na esperança de rever os erros e manter os acertos. Voto pela liberdade de informação. Voto pela democratização da informação. Voto em Dilma, apaixonadamente.

Eu bem sei que Dilma não é Lula (ressalto essa obviedade pelo tipo de argumento que ando escutando). Mas, já disse isso aqui, eu voto na proposta, não na pessoa. Claro que cada gestor terá seu estilo (de novo Flaubert) mas quando voto, voto no projeto que um partido ou coligação tem para o país e não apenas no indivíduo. Lula é um grande estadista, mas não teria feito o governo que fez se não tivesse quadros competentes, inclusive a Dilma. Aí me perguntam: e o mensalão, e a corrupção X ou Y? Eu digo que nunca houve um governo tão transparente, tão ágil em apurar e tão isento de intervenção. Digo que o aprendizado da autonomia e do controle social é lento e só ocorre quando há construções de espaços e processos como os de municipalização das ações. Eu digo que as pessoas são vulneráveis e que havendo controle social e punição nos casos devidos, é assim que a vida segue: em erros e acertos.

Eu, hoje, fiquei desassossegada, confesso. Eu tomava como certas tantas coisas que foram ruindo. Achava, por princípio, que a juventude era contestadora e revolucionária, porque era assim que os jovens, quando eu era jovem, eram. Hoje, percebo, os valores conservadores se apresentam significativos, especialmente no que se refere aos direitos e garantias individuais. Choque. Achava que havia informações que eram evidentes em si mesmas como a diferença da plataforma econômica dos partidos de esquerda como o PT e os partidos de centro ou de direita como DEM e PSDB. Aliás, achei que informações como o que é DEM, PFL, PDS, Arena, ditadura militar e afins não fossem necessárias mais de tão triviais que deveriam ser. Não achei que teria que discutir contra argumentos tais como: "ela é feia", "tem cara de sapata" e "não gosto dela". Isso me ensinou a ser mais humilde, mais atenta, mais explícita nas minhas posições e na divulgação de informações.

Eu tenho uma grande paixão pela democracia porque tenho um grande amor pela diversidade. Nesta perspectiva tenho esperança de partidos cada vez mais fortes, com plataformas cada vez mais claras e bem definidas. Há vários políticos e intelectuais de direita por quem tenho admiração. São grandes pessoas: coerentes, íntegros, inteligentes. Não votaria neles nem compartilho de suas premissas teóricas. Acho importante, cada vez mais importante, eleger projeto. Não há mal em se votar no outro candidato. A democracia está aí pra isso. Mas há, na minha apaixonada opinião, um grande mal em se fazer isso (votar nele) achando que Carolina de Sá Leitão é o mesmo que caçarolinha de assar leitão. São propostas diferentes. Partidos diferentes. Caminhos diferentes que o país vai seguir. Não é uma questão de experiência política, carisma ou detalhe de afinidade subjetiva como se quer fazer crer. São concepções de como o Brasil deve ser governado radicalmente diferentes.

Estou na rua. Na luta. Por amor.

7 comentários:

Peterson Quadros disse...

Flaubert, Lula, democracia, Dilma, um panorama de uma Uni Federal, amor e um acreditar... Tão bonito e envolvente. O texto foi longe em mim e confesso que se pudesse voltaria agora para o Brasil. Só para ajudar no segundo turno. Sobre “sem palavras”... Se você tivesse mais, não pertenceria a esse lugar chamado Terra. Agora preciso deixá-la... Três banhos me esperam!

HG disse...

Comungo do mesmo desejo de Peterson... Se pudesse voltaria agora pro Brasil só para ajudar no segundo turno...
Texto claro, envolvente, esclarecedor e heio de argumentos, absolutamente, coerentes.
Parabéns e obrigada!
bjs

A.S. disse...

Tenho uma grande admiração pela Dilma. Se fosse brasileiro, seguramente estaria na luta pela sua eleição!!!

Um abraço!
AL

Glória Maria Vieira disse...

Tá vendo só?! Falou tão bem quantas todos que citou. Texto maravilhoso, Borboleta. Isso é que é eleitora, rapaz!;)

E olha só: eu pensei que você fosse "uma menina madura". hihi Mas já é uma moça! *-* Que barato!

Palavras Vagabundas disse...

Tudo isso e mais um pouco me fazem querer continuar com o governo que esta aí.
Borboleta somos apaixonadas e lutamos para chegar até aqui, mas o tempo passa o eleitorado jovem entre 18/22 anos sempre conheceu o PT situação e nunca oposição. Acho que é a hora de começarmos outra vez a conquistar corações e mentes.
abs carinhosos
Jussara

Rita disse...

Ô, Luciana, que texto tão bonito. Pois não é, e fico pensando que o voto na Dilma é o mais "cristão" de todos, porque é o voto pelo outro. Ai, como faz para não perderemos tudo que conquistamos até aqui...

pra frente.

Beijo
Rita

Borboletas nos Olhos disse...

Meus queridos, obrigada, obrigada e obrigada pelo carinho de vocês. Mesmo e mesmo. Quando me preocupo com o que vai ser lembro da amorisidade que esse blog e seus visitantes me oferecem e já me renovo e alegro. Beijos em campanha

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