segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Amigo Se Escreve Com L.

Falando nisso: Amizade

Alguém, em algum lugar, definiu a amizade. 
Eu, que sou de lugar nenhum, a não ser de mim mesma, 
desconheço qualquer conceito, todo conceito. 
Mas sei os amigos e isso me faz feliz.


Tentando dar nome aos bois*

A amizade é um amor. Um amor feito de delicadezas e muitas imperfeições. Um amor feito de partilha. Feito de confissões e de gaitadas. A amizade é colo. E carão. Amizade é surpresa, é descoberta, é improviso. E é constância. Para o amigo tudo se diz, mas, principalmente, tudo pode ser desdito e o amar continua. Amizade é limite. Nosso. Do outro. Amizade é tempo se fazendo abraço e abraço se fazendo certeza. Amizade é falar muito e por muito tempo sobre nada e, ainda assim, ser das melhores conversas que já se teve. Amizade é andar lado a lado em silêncio sem se preocupar com isso, cada um perdido em seu labirinto de sentidos. Amizade é construir um dicionário conjunto, uma linguagem tão íntima e própria que a gente se surpreende de ter havido uma época em que não se falava assim. É assim que sinto. Sinto a amizade como uma graça, um dom, um presente, uma alegria. Sinto a amizade como uma coragem. Sinto a amizade como um amor.


Um Menino Chamado Sorriso ou Outras Letras Para Escrever Amor

Tudo de bom que você me fizer
Faz minha rima ficar mais rara
O que você faz me ajuda a cantar
Põe um sorriso na minha cara
Meu amor, você me dá sorte...

Eu não lembro como foi que lhe conheci. Sei que você já era amigo da minha irmã. Sei que foi pelos corredores na Universidade, mas só. Não lembro a primeira confidência que trocamos, não lembro o primeiro abraço, não lembro a primeira gargalhada. Não sei sequer se algum dia eu lhe disse meu número de telefone ou se anotei o seu. Não tenho nenhuma recordação sobre como fiquei sabendo da sua vida nem como fui contando a minha. Juro. Não sei nada sobre a nossa amizade. Ah, lembro das fotos. Muitas e olhe que as máquinas nem eram digitais ainda. Lembro que uma vez você viajou até minha casa em Guaramiranga. Tá lá na foto: eu, você, a Lica, meu ex. Todo mundo rindo. Mas lembrar o que fizemos, as palavras que trocamos, na-ni-na-não. Eu não lembro se alguma vez fomos ao cinema, à praia, à feira. Não sei a freqüência com que a gente se fala.

Eu só sei do riso solto. Do colo. Do abraço sempre aconchegante. Da intimidade sempre fácil. Da certeza de que você está sempre aí pra mim. Sei da leveza quando você está por perto. Sei que os assuntos nunca se ausentam, mas que o silêncio é sempre cúmplice. Sei que querer bem ganha sentido e materialidade quando penso em você. Sei que nunca precisamos um do outro, a não ser daquele jeito mais desesperado e humano: precisamos apenas saber o outro. Sei que hoje você me marcou em uma foto, numa brincadeira amigável. Sei que daí eu soube que você tinha deixado uma marca outra e é ela que escreve cada letra aqui.

Porque há tanto o que eu não sei. Mas sei que gosto de dar bom dia e ganhar uma flor virtual e que isso põe o tal sorriso na minha cara. Sei que a palavra amor pode ser escrita com outras letras começando com L. Sei que quando eu estava no mais triste dos dias, eu, que nunca telefono pra ninguém, liguei pra você, e você, que é a mais ocupada das criaturas, falou comigo por horas que perdi a conta, e o mais triste dos dias tornou-se o mais triste dos dias no mais lindo colo que se poderia ter. Eu que não sei nada da nossa amizade, sei que você é meigo e bom e irônico e sagaz. Sei que você é terno e amoroso. Sei que você come torresmo, mesmo estando de dieta, porque é comigo. Sei que escolhemos festas e bares e festas e boates e festas e acabamos os dois, sozinhos, bebendo cerveja e rindo e fazendo disso a mais divertida noite. Em algum lugar eu ia escrever que sinto saudade. Mas não é verdade. Toda hora que eu quero, é só lembrar você e, voilá, riso. Você me faz bem, amigo. Você é meu matador de leões e estapeador de muriçocas preferido. Eu te amo. 



Fugindo do Assunto

Esse texto eu copiei do Mundo de K. Um daqueles blogs que a gente segue em respeitoso silêncio reverente, sabe? 

Peripécias da Água
(Julio Cortázar)

Basta conhecê-la um pouquinho para entender que a água está cansada de ser líquido. Prova disso é que na primeira oportunidade se transforma em gelo ou vapor, o que tampouco a satisfaz; o vapor se perde em absurdas divagações e o gelo é tosco e desajeitado, fica quieto onde pode e de modo geral só serve para dar vivacidade aos pinguins e aos gin and tonic. Por isso a água delicadamente escolhe a neve, que anima a sua mais secreta esperança, a de fixar para si mesma as formas de tudo o que não é água, as casas, os prados, as montanhas, as árvores.

Acho que deveríamos ajudar a neve em sua reiterada mas efêmera batalha, e que para isso seria necessário escolher uma árvore nevada, um esqueleto negro sobre cujos incontáveis braços vem se estabelecer a branca réplica perfeita. Não é fácil, mas se ao prever a nevada serrássemos o tronco de forma que a árvore se mantivesse em pé sem saber que já está morta, como o mandarim memoravelmente decapitado por um verdugo sutil, bastaria esperar que a neve repetisse a árvore em todos os seus detalhes e então retirá-la para um lado sem a menor sacudida, num leve e perfeito deslocamento.

Não creio que a gravidade desmanchasse o alvo castelo de cartas, tudo aconteceria como numa suspensão do vulgar e do rotineiro; em um tempo indefinível, uma árvore de neve sustentaria o sonho realizado da água. Talvez fosse destruída por um pássaro, ou o primeiro sol da manhã a empurraria para o nada com um dedo morno. São experiências que deveríamos tentar para que a água fique contente e volte a encher as jarras e copos com a alegria borbulhante que por ora reserva para as crianças e os pardais.




* Publicado, originalmente, no Só Miolo de Pote.

8 comentários:

Leonardo Xavier disse...

Esse texto do Cortázar, eu li outro dia desse no Papéis Inesperados.

Glória Maria Vieira disse...

Nossa! Que texto da poxa você fez pro seu amigo, ein Lu?! Que lindo... E esse outro finalizando poste também... Uau pros dois!

Caso me esqueçam disse...

textos como esses me fazem sentir feliz e beeeem triste. da primeira parte, cada linha me faz pensar no quanto eh essencial ter os amigos por perto. dai lembro que os meus tao beeeem longe e que, porra, msn nao da conta. mas enfim... nao vou ficar de mimimi aqui.

"Sei que você come torresmo, mesmo estando de dieta, porque é comigo" euheuehueheueh eh isso! amizade eh isso :)

mas ainda destaco de tudo isso a delicia de se poder falar durante horas, sobre nada, como foi dito, e ter esse momento como o mais maravilhoso dos ultimos dias! #)

Ultra disse...

te adoro em tudo, tudo, tudo...

fique à vontade para publicar, me dá muita honra :)

Gui disse...

Acho digno meu teclado ter voltado a funcionar, pelo menos temporariamente.

E aí eu esbarro com esse texto belíssimo. Nossa. Fiquei, assim, sem palavras.

Amizade é, realmente, algo fantástico. Difícil até de descrever.

Beijos

Anônimo disse...

que texto de amizade inspirador.. fiquei apaixonada


ass: Mari Nepomuceno, kkkkk!

HG disse...

AMIGA!

Kovacs disse...

Obrigado pela citação gentil e generosa ao Mundo de K.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...