terça-feira, 14 de setembro de 2010

Promessa é Dívida

Minha querida Joana escreveu um lindo post intitulado Em Tempo de Regresso às Aulas. E, vejam só, havia uma formosa lista com os 5 Melhores e os 5 Piores livros lidos na escola. Com minha boca enorme, apta à investigação da Chapeuzinho Vermelho (pra que essa boca tão grande? é pra espalhar comentários em blogs amigos e se enrolar toda), já fui tratando de comentar apreciativamente o post e dava o trabalho por findo. Quem dera. Joana já chamou-me à ordem. E, meus caros, amigos meus não pedem nem solicitam, ordenam.

Assim, fiquei aqui embananada com a solicitação. Logo eu, que adoro listas conforme citado aqui, aqui, aqui, aqui , aqui e em tantos outros lugares (e olhe que ainda tem os ódios de estimação e as cores da borboleta).

Mas nunca me faltou coragem e mergulhei nas reminiscências. Eu sempre gostei de ler. Ou, desde que me lembro de mim, eu sempre gostei de ler. Leio porque é divertido. Recordo, com doce saudade, as aulas de Literatura. Não sei se algo aprendi, mas sempre foi um prazer falar ou ouvir falar de livros. Gostava (e gosto) de passear a palma da mão nas páginas, sentir sua textura era (é) outra forma de tê-los em mim. Gosto do cheiro dos livros e, não raro, eu durmia (durmo) com eles. Gostava de me perder na biblioteca me descobrindo no que ainda não havia lido. Não me lembro de analisar livros, embora o fizéssemos. Lembro de desfrutá-los. E saber as escolas, período histórico e cacoetes de cada um, nada mais era do que uma intimidade a mais. Bem menina, foi O Burrinho Que Queria Ser Gente, Reinações de Narizinho e O Homem Que Calculava. Lembro que não gostei de ler Triste Fim de Policarpo Quaresma. Lembro que senti isso lendo letra por letra, sem perder nenhuma. Não gostei tanto de O Guarani, mas amei Senhora, Diva, Lucíola e todas as outras mulheres de José de Alencar, incluindo a rápida Iracema e seus invejáveis lábios. Lembro do meu deslumbramento ao descobrir Machado de Assis. Era uma fome. Voracidade é a única palavra que justifica as visitas diárias à biblioteca. Eu queria tudo e logo e foi assim pelo tanto de tempo de descobrir, após os romances, as poesias, as crônicas e críticas. Capitu é a personagem das personagens, mas Memórias Póstumas de Brás Cubas é o livro entre os livros. A estrutura, a ironia, os personagens, as reflexões. O que mais? Um livrinho chamado Para Gostar de Ler. Vários volumes. Foi lá que encontrei o fantástico no Teleco, o coelhinho e o dolorido em Nós, o pistoleiro, não devíamos ter piedade. O mundo rápido das crônicas. O mundo denso dos contos. Na mesma época: Setecontos, Setencantos. Foi aqui que eu esbarrei na Harriet do Caio Fernando Abreu e meus sonhos nunca mais puderam ser brancos. Uma porção de poesia, também, invadia olhos e sentir: Drummond e seu preciso cotidiano, Vinícius e a minha sensualidade premente, Manuel Bandeira. Ah, a alegria de ter em mãos aquela coletânea: Estrela da Vida Inteira. Eu quase nem lia só no prazer de tê-la. Era uma mulher com seu amante como diz Clarice. As Meninas e Ciranda de Pedra, da Lygia Fagundes Telles. Sim e Antes do Baile Verde. Oh, romance e conto, tantas veredas. E houve Clarice, claro. Primeiro A Legião Estrangeira e eu me soube. Depois, mais rápida que os professores: Água Viva, Perto do Coração Selvagem, Uma Aprendizagem, Laços de Família, A Bela e a Fera, A Via Crucis do Corpo. Oh, Felicidade Clandestina. Recordo o temor e a reverência com que li A Paixão Segundo G.H. Eu tinha muito medo de não gostar. Mas gostei. Tanto. Na escola, ainda, Adélia, Nélida e Cecília. Na escola, ainda, o suspeito Nelson e seu Vestido de Noiva.

É assim, bem assim, que lembro dos livros que tive que ler na escola. Como se eu os tivesse escolhido ou, mais ainda, como se eles me tivessem escolhido. Obrigada, Joana. Só não pude cumprir o desafio, mas o desafio me atravessou em letras.

9 comentários:

HG disse...

Quando eu crescer quero ler e escrever como a Borboleta...

Lunna Guedes disse...

Nossa, eu lembro de dúzias de livros lidos no tempo da escola. Mas lembro mesmo é dos colegas que se viam obrigados a ler por causa das aulas de literatura e fazer resumos. Era divertido observar a tortura que parecia existir naqueles olhos tensos e eu lá, devorando todas as páginas. Li "Amar, verbo intransitivo" nas aulas de literatura brasileira e me apaixonei por Mário de Andrade. Li Auden e tantos outros poetas (Pessoa, Elliot, Rilke...) e fui me apaixonando livro após livro. Lembro quando minha professora me presenteou com Jane Austen. ai ai ai. Amor a primeira vista. rs
Bacio carissima

Caso me esqueçam disse...

os livros da escola eram otimo, mas as aulas eram um saco. tinha um professor de literatura bem pedante que fala em frances com outro professor de literatura (ambos irmaos) no meio da sala de aula. imagina a babaquice! peguei certo nojinho de literatura por causa desse animal.

Danielle Martins disse...

Quando eu crescer quero ler e escrever como a Borboleta...(2)

Joana Vasconcelos disse...

Luciana, que maravilha! Desafio superado, com distinção e louvor! Confesso que estava mortinha de curiosidade para saber dos seus livros ... por tudo o que essa revelação traz de memória e sentimento que gosto de ver partilhado, mas também por uma imensa curiosidade de saber que livros se lêem na escola aí desse lado... Narizinho é Monteiro Lobato, não é? Revi-me no seu Machado de Assis - tenho o Brás Cubas à mão para começar um destes dias e lembro-me de não ter adorado o Guarani ...
PS - Hoje a minha filha mais velha chegou a casa com uma colectânea de contos organizada pela professora para lerem nas aulas. Eram variados e pareceram-me bem escolhidos. Tinha um de Clarice (O Amor)... vamos a ver agora as aulas ...

Borboletas nos Olhos disse...

Dani e HG, vocês lêem e escrevem de um jeito fofo.

Lunna, eu também sou doidinha por Austen. Livro de mulher, humpf! Grande arte, isso sim.

Caso me esqueçam, sabe que eu nem lembro das aulas direito? Mas não esqueço uma só letra que me encantou.

Joana, obrigada por fazer surgir este post. E pelas gentis palavras. O Amor é um dos textos que faz acelerar meu coração. Tomara que sua filha goste. E leia o Brás Cubas, leia e me diga o que achou..

Borboletas nos Olhos disse...

Dani e HG, vocês lêem e escrevem de um jeito fofo.

Lunna, eu também sou doidinha por Austen. Livro de mulher, humpf! Grande arte, isso sim.

Caso me esqueçam, sabe que eu nem lembro das aulas direito? Mas não esqueço uma só letra que me encantou.

Joana, obrigada por fazer surgir este post. E pelas gentis palavras. O Amor é um dos textos que faz acelerar meu coração. Tomara que sua filha goste. E leia o Brás Cubas, leia e me diga o que achou..

Borboletas nos Olhos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ALEX disse...

Dizem que o homem evoluiu quando saiu das cavernas, mas acredito que foi quando aprendeu A LER .

Ai sim ELE CRESCEU e não parou mais.

Um cheiro

Alex Ramos

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